Início Notícias Instituto de Engenharia Instituto de Engenharia apoia projeto Casa Superlimão na 1ª edição da Bienal...

Instituto de Engenharia apoia projeto Casa Superlimão na 1ª edição da Bienal de Arquitetura Brasileira

A Casa Superlimão integra a programação da primeira edição da BAB (Bienal de Arquitetura Brasileira), que acontece de 25 de março a 30 de abril, no Parque Ibirapuera, em São Paulo. Instalada na área externa da marquise, entre o Pavilhão das Culturas Brasileiras e o Museu Afro Brasil, a construção poderá ser visitada gratuitamente pelo público.

Neste projeto, a investigação parte das diferentes formas de construir no Brasil, articulando saberes vernaculares e tecnologias contemporâneas a partir da relação entre arquitetura, território e clima, em diálogo direto com as questões propostas pela BAB.

Essa articulação se expressa na própria concepção do projeto, que adota um desenho hexagonal como estrutura espacial que combina a racionalidade da forma quadrada com a eficiência estrutural da forma circular, aproximando a casa de padrões recorrentes na natureza.

Para Lula Gouveia, engenheiro civil, arquiteto e sócio do Superlimão, o projeto propõe olhar para o futuro da construção a partir de conhecimentos acumulados ao longo do tempo. “A arquitetura sempre respondeu ao clima, ao território e às condições disponíveis. Muitas soluções que hoje chamamos de tradicionais surgiram dessa inteligência construtiva. O projeto revisita esses saberes e os coloca em diálogo com as tecnologias atuais.”

Entre as estratégias adotadas está o uso de um piso elevado, solução presente em diferentes regiões do Brasil, das palafitas do norte, adaptadas a áreas sujeitas a inundações,às casas elevadas do sul, utilizadas para proteger contra o frio. Além de funcionar como proteção, o sistema cria uma camada de ventilação sob a edificação, contribuindo para o conforto térmico e reduzindo o impacto sobre o terreno ao preservar a permeabilidade do solo. No projeto, essa base é executada com madeira de reuso, incorporando um material que carrega uma história anterior e ganha um novo ciclo de uso.

A investigação sobre sistemas construtivos se estende aos elementos estruturais. Os pilares são produzidos com impressão 3D em concreto, técnica ainda pouco utilizada no Brasil e explorada no projeto como parte de um campo emergente de fabricação digital, e partem de uma lógica biomimética inspirada no corte transversal do caule das folhas de bananeira. Nessa estrutura natural, cavidades e fibras se organizam de forma a equilibrar leveza e resistência, princípio que orienta o desenho dos pilares.

A partir dessa lógica, os elementos adotam uma configuração alveolar, que permite reduzir o volume de material sem comprometer o desempenho estrutural, resultando em peças mais leves, resistentes e eficientes no uso de recursos. A fabricação digital viabiliza esse sistema ao permitir o posicionamento preciso do material, aplicado apenas onde é necessário incorporando uma tecnologia que ainda se encontra em processo de difusão e que amplia o campo de possibilidades construtivas. Nesse sentido, o projeto passa a testar e incorporar tecnologias emergentes como exercícios, articulando referências históricas e investigação sobre o futuro da construção.

Além de diminuir o consumo de cimento e, consequentemente, o impacto ambiental, as cavidades internas também possibilitam integrar infraestrutura e sistemas hidráulicos no interior dos próprios elementos estruturais.

“A biomimética orienta o projeto ao olhar para a natureza como referência de eficiência no uso de recursos. Ao incorporar esses princípios, a arquitetura passa a trabalhar com menos matéria, menos desperdício e maior desempenho, alinhando construção e sustentabilidade de forma integrada”, afirma o arquiteto.

Na cobertura, a casa adota uma estrutura recíproca em madeira engenheirada, na qual cada peça apoia e é apoiada pelas demais, formando um sistema interdependente que distribui melhor os esforços estruturais. Inspirada em padrões encontrados na organização de folhas e flores, essa configuração resulta em uma estrutura leve e resistente. “É um sistema em que todas as partes trabalham juntas. Existe uma lógica coletiva na estrutura, muito próxima do que vemos na natureza.”

Já nos fechamentos laterais, o projeto retoma um elemento recorrente da arquitetura brasileira, o cobogó, que permite a passagem de ar e luz e favorece a ventilação cruzada permanente. As paredes são compostas por painéis de lã de PET reciclado, que aliam reaproveitamento de resíduos a desempenho térmico e acústico, enquanto, nas áreas opacas, recebem acabamento com revestimento natural de terra, permitindo que as superfícies funcionem como paredes respiráveis e contribuam para a regulação da umidade interna.

Essas estratégias configuram um ambiente eficiente, no qual a ventilação cruzada é complementada por uma claraboia central, responsável por ampliar a entrada de luz natural e favorecer a saída do ar quente. Ao mesmo tempo, o projeto amplia a relação entre interior e exterior ao valorizar a vista do parque enquadrada pelas janelas e pelos cobogós, incorporando-a diretamente à experiência espacial.

Apesar da linguagem contemporânea, o projeto dialoga com referências reconhecíveis da arquitetura brasileira, evocando estruturas como ocas indígenas, coretos de cidades do interior e construções vernaculares abertas e permeáveis. “A ideia foi trazer algo com que qualquer brasileiro pudesse se identificar, independentemente da região em que vive.” afirma Lula.

Ao reunir técnicas tradicionais, sistemas naturais e tecnologias digitais, a Casa Superlimão sintetiza a reflexão proposta pela Bienal e aponta para uma arquitetura brasileira que
reconhece no território, no clima e nos saberes vernaculares não um passado a ser superado, mas um repertório ativo, capaz de se atualizar e ganhar novas formas a partir das tecnologias e ferramentas do presente, incluindo abordagens como a biomimética, que aproximam a construção de lógicas mais eficientes e integradas à natureza, ao mesmo tempo em que ampliam o campo de investigação sobre o futuro da arquitetura.

Serviço

Casa Superlimão
Bienal de Arquitetura Brasileira
25 de março a 30 de abril, das 9h às 22h
Área externa da marquise, entre o Pavilhão das Culturas Brasileiras e o Museu Afro Brasil
Visitação gratuita

X
X
X
X
X