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Opinião – Guarapiranga pede socorro

*Por José Renato Nalini

A escassez hídrica é uma realidade hoje novamente enfrentada pela região metropolitana de São Paulo. O noticiário tem contemplado a situação do Sistema Cantareira e, de certa forma, negligenciado a do reservatório Guarapiranga. Mas a situação dele é mais do que preocupante.

Essa represa abrange áreas de sete municípios: Cotia, Embu, Embu-Guaçu, Itapecerica, Juquitiba, São Lourenço, além da a zona sul de São Paulo. Foi criada em 1906, em fazenda de Herculano de Freitas, pela antiga Light. Integrava o Projeto Serra, cujo intuito era gerar energia elétrica para a capital.

Em 1928, em razão da estiagem registrada entre 1924 e 1925 e do crescimento da capital, o reservatório tornou-se também fonte de abastecimento de água potável. Hoje, cerca de 5 milhões de habitantes dependem dessa água, cuja captação é destinada à Estação de Tratamento do Alto da Boa Vista.

Os cuidados para fornecê-la à população em condições ideais de consumo tornam-se cada vez mais difíceis. A qualidade da água está bastante comprometida porque o fenômeno da eutrofização faz proliferar as algas macrófitas. Não está longe de um verdadeiro colapso. A degradação decorre do lançamento de esgoto não tratado, de cerca de 600 mil pessoas ou mais da metade dos habitantes da região da bacia. A ocupação irregular continua célere e incessante.

Não obstante exista a Lei de Mananciais, que obsta a destinação daquela área sensível para finalidade outra que não seja a preservação, a inobservância da normatividade tem sido a regra.

A solução adotada pela Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) é o pré-tratamento da água bruta na própria represa, antes de ser captada para a estação. Esse pré-condicionamento se faz mediante despejo, no corpo do reservatório, de diversos produtos químicos, inclusive algicida considerado ambientalmente insustentável.

Pouca atenção se tem concedido à gravidade de uma situação que se torna emergencial. Uma das poucas vozes que se fizeram ouvir foi a de profissionais da engenharia, alguns deles com longeva atuação no setor. Em outubro de 2025, o Instituto de Engenharia, por iniciativa de sua diretoria, presidida pelo engenheiro José Eduardo W. de A. Cavalcanti, promoveu encontro técnico para discutir o assunto. Como sempre ocorre, só compareceram os “convertidos”, aqueles que já têm consciência sobre a vulnerabilidade da represa, hoje inteiramente contaminada e prenhe de coliformes fecais, cocaína – expelida pela urina – e cuja água ainda porta resíduos de fármacos e microplásticos. Sem falar na perda de profundidade, causada pelo incontrolável assoreamento de construções clandestinas.

Numa reunião de técnicos, emergiu como solução emergencial a implantação de estações de tratamento descentralizadas, a serem implementadas às margens dos principais cursos de água que abastecem a represa. São eles os fornecedores da matéria abjeta, a comprometer a água que abastece os lares de milhões de seres humanos. Isso implicaria tratar as águas em tempo seco, do Rio Embu-Mirim e dos córregos Bonito/Pedras, São João e Parelheiros. O fósforo, principal responsável pela proliferação das algas, seria separado e isolado, por meio de tratamento físico-químico nessas instalações.

O efluente com a carga reduzida de fósforo e sem parte da matéria orgânica em suspensão seria devolvido aos cursos d’água que continuariam normalmente o seu trajeto até a Guarapiranga. Seria uma alternativa de substancial redução da carga de fósforo e consequente declínio da carga de algas, com sensível melhoria da qualidade da água bruta.

Paralela e simultaneamente, a Sabesp continuaria a implantar as indispensáveis redes de esgoto nos arruamentos, tarefa dificultada por se cuidar de assentamentos irregulares, que não poderiam ocupar uma região sobre a qual incidem redações explícitas contidas na Lei dos Mananciais.

Também merece atenção e urgência a questão da transposição dos esgotos para a Estação de Tratamento de Barueri. Já é tempo de pensar em solução menos surreal do que levar fezes paulistanas para cerca de 50 quilômetros de distância. Têm sido comuns a vandalização dos equipamentos e a insuficiência de elevatórias mal conservadas.

O importante mesmo é que toda a sociedade da região metropolitana comece a encarar o assunto como um dos mais prementes e graves. Escassez hídrica não é novidade. Cada ano é mais quente do que o anterior e as chuvas, embora pareçam torrenciais quando caem, não reabastecem nossos reservatórios.

São Paulo não pode chegar à situação de Teerã, que pensa em evacuar a capital do Irã e procurar novo território, junto do mar, para recorrer à dessalinização. Ainda não estamos lá, mas poderemos chegar, se não envolvermos todos os interessados na busca de soluções.

A responsabilidade não é apenas do governo. Todos somos responsáveis pelo ambiente, como prevê a Constituição ecológica de 1988. Mas é preciso envolver mais parceiros. O Instituto de Engenharia já se colocou à disposição. Necessitamos de mais intelectos e, principalmente, de mais braços. Afinal, sem petróleo consegue-se viver. Sem água não!

*Opinião por José Renato Nalini

Reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove, é secretário-executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo

Leia o artigo original em O Estado de S.Paulo. 

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