O Instituto de Engenharia está apoiando a Casa Superlimão na 1ª edição da Bienal de Arquitetura Brasileira, que acontece no Parque do Ibirapuera, até 30 de abril.
No último dia 15, o presidente do Instituto de Engenharia, José Eduardo Jardim, e o diretor, Constanzio Facci, conheceram de perto o projeto e foram recebidos pelo arquiteto Lula Gouveia, engenheiro Civil, arquiteto e sócio do Superlimão, que explicou detalhes da concepção da Casa.
A seguir, confira!
Como surgiu o projeto da Casa Superlimão para a Bienal?
Fomos convidados para criar uma casa dentro da Bienal, com um detalhe importante: somos a única casa sem patrocínio. Isso nos deu liberdade total para focar exclusivamente na arquitetura. Em uma bienal de arquitetura brasileira, a pergunta central foi: como trazer tecnologia e inovação pensando na construção do futuro, considerando a realidade do Brasil?
Aqui sempre tivemos limitações de recursos e tecnologia, então desenvolvemos soluções muito eficientes “no papel”, inspiradas na arquitetura vernacular. São soluções que funcionam independentemente de sol, chuva ou eletricidade.
Qual foi o ponto de partida para o projeto?
A proposta começou com uma desconstrução da casa tradicional. Pensamos: o que compõe uma casa? Fundação, parede, estrutura, telhado. A partir disso, redesenhamos cada elemento do zero, buscando eficiência e simplicidade.
Um exemplo é a ideia de tirar a casa do chão, como uma palafita. Isso ajuda tanto no isolamento térmico quanto na sustentabilidade, reduzindo o impacto no terreno. É uma solução antiga e muito eficaz, usada em diferentes regiões do Brasil.
Fale sobre o uso de estratégias térmicas naturais.
O uso do subsolo, por exemplo, já foi muito comum como despensa, justamente por ser mais fresco, a cada metro abaixo do solo, a temperatura cai cerca de um grau. Outro grande exemplo é o trabalho do arquiteto João Filgueiras Lima, o Lelé, que projetou hospital Sara, com ventilação natural. Em muitos casos, ao reduzir o uso de ar-condicionado, houve até diminuição de contaminações hospitalares.
Como funcionam as paredes da casa?
Trabalhamos com dois tipos principais. Um deles é voltado ao bloqueio térmico, inspirado na taipa. Mas, em vez de usar terra compactada tradicional, utilizamos lã de PET, um material reciclado, leve, durável e com excelente desempenho térmico e acústico, revestida com terra. Essa combinação permite que a parede respire, regulando a umidade e a temperatura, como acontece na taipa tradicional. É uma releitura contemporânea de uma técnica antiga.
O outro tipo de parede é inspirado no cobogó e nos elementos vazados. Criamos estruturas em forma de colmeia, também com lã de PET, que permitem ventilação constante e criam efeitos de luz muito interessantes.
A ventilação natural foi uma prioridade?
Criamos um sistema de ventilação cruzada, que é uma estratégia que funciona muito bem. Mesmo quando não há vento externo, o desenho da casa favorece o fluxo de ar interno, mantendo o ambiente agradável sem necessidade de ar-condicionado.
E o telhado, qual é o diferencial?
O telhado utiliza uma estrutura recíproca, em que uma viga apoia na outra, distribuindo as cargas de forma eficiente. Isso permite vencer grandes vãos com menos material. Antes de ser adaptado para a Bienal, conseguimos um vão de quase 20 metros.
Há influência da arquitetura tradicional brasileira?
Muitas dessas soluções já existem em construções caiçaras e ribeirinhas. A ideia foi resgatar esse conhecimento e reinterpretá-lo com tecnologia atual. Um exemplo é a valorização das varandas. No Brasil, casas sempre foram pensadas com áreas abertas e sombreadas. Copiar modelos de países frios, como casas de vidro totalmente fechadas, não faz sentido no nosso clima.
Fale sobre os conceitos de sustentabilidade do projeto?
Fizemos um estudo de ciclo de vida dos materiais. Enquanto o limite poderia chegar a cerca de 240 quilos de carbono por metro quadrado, conseguimos atingir aproximadamente 45 quilos, um quinto do índice mais alto que poderia chegar.
Qual papel central do projeto?
A biomimética, que é você olhar soluções na natureza. Não se trata de copiar formas, mas de entender comportamentos. O pilar da casa, por exemplo, tem inspiração em estruturas naturais como folhas de palmeira e ossos de aves: formas ocas, leves e extremamente resistentes. O uso do formato hexágono é uma forma recorrente na natureza. Ele tem eficiência estrutural. Ao adotar essa geometria, a casa deixa de ser um conjunto de peças isoladas e passa a funcional como um sistema integrado.
Como a tecnologia entra no projeto?
A impressão 3D foi fundamental, especialmente no desenvolvimento dos pilares. Em vez de imprimir a casa inteira, o que ainda não é viável economicamente, focamos na peça estrutural.
Criamos pilares ocos, que utilizam cerca de 40% do material de um pilar convencional. Eles já vêm prontos, com espaço para passagem de infraestrutura, e podem ser montados com facilidade, reduzindo a necessidade de mais mão de obra.
E em relação ao custo?
Mesmo com desafios específicos da Bienal, o custo ficou em torno de R$ 5 mil por metro quadrado. Em condições normais, poderia ser ainda menor.

Qual é a principal mensagem da Casa Superlimão?
A ideia é mostrar que a beleza está na somatória dos sistemas. Um elemento influencia o outro: o telhado leve permite pilares menores, que reduzem a fundação, que impacta toda a estrutura.
É uma proposta que resgata soluções inteligentes do passado, combinadas com tecnologias atuais, para apontar caminhos para o futuro.
No fim, o objetivo é inspirar arquitetos e engenheiros a entender que eficiência, conforto e sustentabilidade nascem dessa integração, e que é essa soma que traz a verdadeira beleza da arquitetura.






