Reinvenção da indústria

O ministro da Ciência e Tecnologia, Aloizio Mercadante, está anunciando investimentos de US$ 12 bilhões a serem realizados em cinco anos pela Foxconn, empresa gigante de Taiwan, destinada a montar produtos eletrônicos no Brasil.

As primeiras informações chegam desencontradas e não fazem sentido. Ninguém entendeu o que vão fazer 20 mil engenheiros numa indústria de montagem de chips cujo produto é criado e desenvolvido nos Estados Unidos. Só para comparar, o setor automotivo inteiro não chega a ter no Brasil mais de 12 mil engenheiros, conforme dados da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva (AEA). Nem ficou claro onde essa empresa vai buscar 100 mil funcionários, num mercado de trabalho sabidamente escasso em mão de obra minimamente qualificada. Toda a Zona Franca de Manaus tem pouco mais de 110 mil funcionários.

Independentemente do déficit de consistência nessas informações, o fato é que, apesar do discurso dos dirigentes da indústria que apontam desindustrialização e sucateamento do setor produtivo nacional, o Brasil vai recebendo uma enormidade de investimentos nessa área. Em 2010, por exemplo, nada menos que 36,8% dos US$ 52,6 bilhões que ingressaram no País na condição de Investimento Estrangeiro Direto (IED) vieram para a indústria.

Enfim, apesar da forte valorização do real e do elevadíssimo custo Brasil, o investidor estrangeiro está apostando no futuro da indústria brasileira. Parece não dar importância à retórica de fim de feira partilhada pelo presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Robson Andrade, pelo presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, e pelo presidente da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), Luiz Aubert Neto.

Em entrevista publicada pelo jornal Folha de S.Paulo na última segunda-feira, um dos maiores especialistas em indústria no Brasil, o economista Antonio de Barros Castro, advertiu que há uma revolução do setor produtivo mundial. Lá se foi o tempo retratado nos anos 50, pelo economista alemão Hans Singer, em que as relações internacionais de troca determinavam que o produto industrializado era mais nobre e mais valorizado; e em que as matérias-primas e a energia eram desprezadas como bens de baixo valor agregado. Hoje as commodities passaram a ser o produto escasso e estratégico.

Não faz mais sentido – adverte Barros de Castro – proteger a indústria existente e esperar que agregue valor às cadeias de produção porque a concorrência externa, armada da mais avançada tecnologia, chega antes e mais barato. E é possível, até mesmo, que os novos investimentos asiáticos no Brasil se encarreguem de alijar a tradicional indústria brasileira em sua própria cozinha.

“Mesmo se o câmbio e o custo Brasil forem neutros, boa parte da indústria brasileira não é competitiva porque o sistema industrial chinês é mais eficiente. A indústria tem de se reinventar.”

Isso significa que certos segmentos da indústria brasileira estão com os dias contados. Para não morrer, não basta aparar as unhas por meio da redução de alguns custos. Têm de mudar.

O problema é que nem os dirigentes da indústria parecem ter consciência disso nem o governo brasileiro parece preparado para apontar os rumos de uma virada.

CONFIRA

O Índice de Atividade Econômica, cuja função é antecipar o comportamento do PIB, mostrou em fevereiro um consumo muito aquecido, um crescimento de 7,32% no período de 12 meses terminado em fevereiro. É o que aponta o gráfico.

É suficiente?
As autoridades do Ministério da Fazenda entendem que já há sinais de desaceleração. Há, sim, desaceleração, mas não está claro se será suficiente para puxar o avanço do consumo para a altura dos 4% ao ano. Ou seja, não está claro se dá para evitar nova esticada da inflação.

Autor: O Estado de S.Paulo