Nesta segunda, 31 de agosto, o Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen) celebrou 70 anos de atuação em uma cerimônia que reuniu autoridades, pesquisadores e parceiros. O evento foi marcado por homenagens a instituições que, ao longo das décadas, têm contribuído para o desenvolvimento científico e tecnológico do Brasil.
O Instituto de Engenharia, que também celebra um marco histórico neste ano, com 110 anos de trajetória, esteve entre as instituições homenageadas. O presidente do Instituto, José Eduardo Jardim, recebeu da diretora e superintendente do Ipen, Isolda Costa, o diploma em reconhecimento à parceria histórica e às contribuições significativas do Instituto para o avanço científico, tecnológico e acadêmico do País.

Os vice-presidentes do Instituto de Engenharia, Miriana Marques e Lawrence Koo, também prestigiaram a celebração, que reforçou a importância da cooperação entre instituições e o compromisso conjunto com o desenvolvimento e o crescimento da Nação.
A programação comemorativa incluiu ainda homenagens a ex-pesquisadores eméritos, a outorga do título de Pesquisador Emérito de 2026 e o anúncio do vencedor do X Prêmio de Inovação Tecnológica do Ipen, além do lançamento de um livro comemorativo, que reúne a trajetória do Instituto ao longo de suas sete décadas de atuação.
A seguir, a íntegra do discurso da diretora e superintendente do Ipen, Isolda Costa.
“Boa tarde, senhoras e senhores! Sejam todos muito bem-vindos.
É com grande satisfação que, neste momento em que celebramos os 70 anos do IPEN, apresentamos uma visão que é, ao mesmo tempo, uma homenagem à nossa história e um compromisso com o futuro: o IPEN do Futuro.
Ao longo de sete décadas, o IPEN construiu uma trajetória de excelência científica, tecnológica e de inovação, contribuindo para áreas estratégicas do Brasil, como saúde, energia, meio ambiente, indústria e formação de recursos humanos.
Celebrar 70 anos, portanto, não significa apenas olhar para o que já construímos. Significa preservar o conhecimento acumulado, formar novas gerações e, sobretudo, transformar essa experiência em soluções para os desafios do futuro.
Significa também perguntar: qual IPEN queremos construir para os próximos 70 anos?
É com essa perspectiva que estamos lançando quatro novos Núcleos Temáticos de Desenvolvimento, que representam diferentes dimensões dessa visão de futuro. São iniciativas baseadas em ciência de fronteira, inovação tecnológica, integração de competências e capacidade de transformar conhecimento em soluções para desafios estratégicos do País.
1. Núcleo de Inovação em Radiofármacos
O primeiro Núcleo é dedicado à Saúde: o Núcleo de Inovação em Radiofármacos.
A escolha desse tema é profundamente simbólica. A história do IPEN está diretamente ligada à medicina nuclear. Ao longo de décadas, construímos competências, infraestrutura e conhecimento que contribuíram para o desenvolvimento de radioisótopos e radiofármacos no Brasil.
Hoje, porém, estamos diante de uma nova revolução.
A medicina nuclear caminha para tratamentos cada vez mais precisos, personalizados e direcionados. Os radiofármacos teranósticos permitem integrar diagnóstico e terapia, identificando alvos específicos da doença e direcionando o tratamento de maneira mais eficaz. Entre essas novas possibilidades estão as terapias com emissores alfa, que abrem perspectivas para cânceres que ainda possuem poucas alternativas terapêuticas.
É nesse cenário que nasce o Núcleo.
Sua missão é desenvolver uma nova geração de radiofármacos, integrando desde a identificação de novos alvos moleculares e o desenvolvimento de moléculas e processos de marcação até a caracterização, os estudos pré-clínicos e, progressivamente, o apoio à pesquisa clínica.
Mas queremos ir além da produção de conhecimento. Queremos transformar ciência em novas possibilidades de diagnóstico e tratamento.
Desenvolver radiofármacos no Brasil significa ampliar nossa autonomia tecnológica, reduzir vulnerabilidades externas, fortalecer o Complexo Econômico-Industrial da Saúde e criar condições para que novas tecnologias cheguem de forma sustentável ao SUS.
Para isso, integraremos competências em química, radioquímica, biologia, farmacologia, medicina nuclear, física, engenharia, nanotecnologia e ciência de dados.
O IPEN possui uma base excepcional para liderar esse movimento: tradição, infraestrutura, pesquisadores qualificados e capacidade de interação com universidades, hospitais, centros de pesquisa e empresas.
Este é o IPEN do Futuro: ciência que se transforma em inovação, inovação que se transforma em saúde e saúde que se transforma em qualidade de vida.
2. Núcleo Temático de Terras Raras
O segundo Núcleo é o Núcleo Temático de Terras Raras.
Ele nasce de uma convicção: possuir recursos minerais não é suficiente. É preciso dominar a tecnologia capaz de transformá-los em conhecimento, produtos e riqueza.
As terras raras estão presentes em tecnologias fundamentais para o mundo contemporâneo, como ímãs de alto desempenho, eletrônica, equipamentos médicos, sistemas de defesa e energias renováveis. Por isso, falar em terras raras é falar de competitividade, autonomia e soberania tecnológica.
O Brasil possui importantes reservas. O desafio está em separar, purificar, caracterizar e transformar esses elementos em materiais e produtos de alto valor agregado.
É exatamente nesse ponto que o IPEN pode fazer a diferença.
O Instituto possui competências históricas em química, processamento, separação e caracterização de materiais. O novo Núcleo irá recuperar, integrar e ampliar esse patrimônio científico, atuando em toda a cadeia tecnológica: processamento, separação e purificação, caracterização, desenvolvimento de processos e equipamentos e, no futuro, transferência de tecnologias para o setor produtivo.
Queremos preservar conhecimentos construídos ao longo de décadas, atualizá-los e conectá-los às tecnologias mais modernas, ampliando também a interação com universidades, centros de pesquisa e empresas.
Porque o Brasil não pode se limitar a exportar recursos minerais e importar tecnologia.
Precisamos transformar nossas riquezas naturais em conhecimento, inovação, materiais avançados e novas cadeias produtivas.
Esse é o compromisso do Núcleo de Terras Raras: contribuir para que o Brasil avance da condição de fornecedor de recursos para a de desenvolvedor de tecnologias e produtos de alto valor agregado.
3. Núcleo de Meio Ambiente e Clima
O terceiro Núcleo é dedicado a um dos maiores desafios do nosso tempo: Meio Ambiente e Clima.
A questão é essencial para o futuro do Brasil: como produzir mais, preservar nossos recursos naturais e, ao mesmo tempo, reduzir as emissões de carbono?
O Brasil já demonstrou que a ciência pode transformar sua agricultura. Agora começa um novo ciclo.
Precisamos produzir mais sem ampliar o desmatamento, recuperar áreas degradadas, reduzir a dependência de insumos importados e descarbonizar nossas cadeias produtivas.
É nesse contexto que o IPEN coloca suas competências a serviço de uma agricultura mais regenerativa, produtiva e de baixo carbono.
Uma das frentes será transformar resíduos agrícolas e florestais em recursos de alto valor. Em vez de tratar resíduos como problema, podemos transformá-los em oportunidade: armazenar carbono, melhorar os solos, aumentar a eficiência no uso de água e nutrientes e gerar novos produtos para a agricultura.
Outra frente será o desenvolvimento de tecnologias nacionais para a produção de amônia verde, contribuindo para insumos agrícolas de menor intensidade de carbono.
Mas o grande diferencial está na integração.
Queremos conectar agricultura regenerativa, aproveitamento de resíduos, energia renovável, fertilizantes de menor carbono e rastreabilidade, acompanhando a redução das emissões ao longo de toda a cadeia produtiva.
Isso significa transformar sustentabilidade em tecnologia, competitividade e valor econômico, beneficiando também o produtor rural.
O IPEN contribuirá com aquilo que sabe fazer melhor: ciência, tecnologia, desenvolvimento de processos, caracterização de materiais e validação científica.
O desafio é produzir em grande escala, regenerar nossos solos e descarbonizar nossas cadeias produtivas.
Esse é o compromisso do IPEN: transformar ciência em inovação, inovação em desenvolvimento e desenvolvimento em um futuro mais sustentável para o Brasil.
4. Núcleo de Transição Energética
O quarto Núcleo é dedicado a um dos maiores desafios estratégicos do século XXI: a Transição Energética.
O mundo está mudando sua matriz energética. Precisamos reduzir emissões, ampliar as fontes de baixo carbono, descarbonizar processos industriais e, ao mesmo tempo, garantir segurança energética e desenvolvimento econômico.
Para o Brasil, esse desafio representa também uma enorme oportunidade.
Nosso País possui uma matriz energética singular, grande potencial de fontes renováveis e importante capacidade científica e tecnológica.
Mas a transição energética exigirá muito mais do que novas fontes de energia. Exigirá novas tecnologias, materiais, processos e formas de integrar diferentes fontes e sistemas energéticos.
É nesse espaço que o IPEN deve contribuir.
Entre as frentes de destaque está o desenvolvimento de tecnologias nacionais para a produção de hidrogênio verde e eletrolisadores, buscando maior eficiência, redução de custos e soluções adaptadas às condições brasileiras.
Mas a transição energética vai muito além de uma única tecnologia.
O novo Núcleo pretende conectar diferentes competências e tecnologias — energia, sistemas eletroquímicos, biocombustíveis, hidrogênio e soluções de baixo carbono — olhando para o sistema energético de forma integrada: produção, armazenamento e conversão de energia, novos combustíveis, insumos descarbonizados, valorização de resíduos, materiais avançados e sua conexão com a indústria.
Essa capacidade de reunir diferentes áreas do conhecimento é uma das grandes forças do IPEN.
Queremos que nossas tecnologias ultrapassem os limites do laboratório e cheguem ao setor produtivo, gerando novas cadeias industriais, formando recursos humanos e criando produtos e processos de maior valor agregado.
E há uma dimensão ainda maior: a transição energética é também uma questão de soberania.
Dominar tecnologias estratégicas significa reduzir dependências externas, fortalecer a competitividade da indústria brasileira e permitir que o País deixe de ser apenas consumidor para se tornar desenvolvedor de soluções para a economia de baixo carbono.
O Brasil tem recursos naturais, mercado, pesquisadores e uma enorme capacidade de inovação.
O que precisamos é conectar esses ativos e transformá-los em soluções.
Essa é a missão deste Núcleo.
E, na verdade, essa é a essência dos quatro Núcleos que hoje apresentamos.
Na saúde, transformar ciência em novos diagnósticos e tratamentos.
Nas terras raras, transformar recursos naturais em materiais, tecnologias e produtos de maior valor agregado.
No meio ambiente e clima, transformar sustentabilidade em produtividade e competitividade.
E, na transição energética, transformar nossas competências em tecnologias para uma economia de baixo carbono.
Quatro Núcleos. Quatro grandes desafios. Uma mesma visão de futuro.
Uma visão baseada na integração: entre diferentes áreas do conhecimento, entre pesquisa e inovação, entre instituições científicas e empresas, e entre o IPEN, o Brasil e nossos parceiros nacionais internacionais.
Ao completar 70 anos, o IPEN olha para frente sem esquecer de onde veio.
O passado nos legou conhecimento.
O presente nos desafia a inovar.
E o futuro nos convoca a transformar conhecimento em desenvolvimento.
Esse é o IPEN do Futuro.
Muito obrigada e vida longa ao IPEN!”
Sobre o Ipen
Fundado em 1956, o Ipen se consolidou como o principal polo de pesquisa nuclear no Brasil. Com atividades que abrangem diversas áreas da ciência, o instituto exerce funções multidisciplinares. Essa versatilidade permite aos especialistas conduzirem pesquisas aplicadas com forte valor estratégico em materiais avançados, lasers, nanotecnologia e biotecnologia.
Localizado dentro da Cidade Universitária, o Ipen tem vínculos históricos com a Universidade, inclusive na formação de novos cientistas por meio do oferecimento de programas de pós-graduação.






