A Copa do Mundo inspira e enche o coração do brasileiro de esperança e alegria. Tantos talentos tocaram a bola em nome da Pátria Amada. É criatividade que rola solta e dribla o mundo.
Enquanto isso, a Engenharia no Brasil vem perdendo espaço, ficando de escanteio e jogando na retranca. O Brasil enfrenta uma redução significativa no número de engenheiros formados, o que gera impactos em setores estratégicos como infraestrutura, tecnologia e energia. Segundo o Sindicato das Mantenedoras de Ensino Superior (Semesp), entre 2014 e 2020, houve uma queda de 44,5% nas matrículas em cursos presenciais de engenharia nas universidades particulares.
Um levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI), realizado em 2023, estima que o Brasil tenha um déficit de 75 mil engenheiros. (Fonte: Instituto de Engenharia: https://www.institutodeengenharia.org.br/site/2025/01/06/exame-engenharia-brasileira-em-crise-as-razoes-por-tras-da-falta-de-profissionais/).
Menos engenheiros significam menos capacidade de pesquisa, desenvolvimento e inovação, reduzindo o protagonismo tecnológico do país.
Não quero aqui ser um juiz e apontar um erro ou distribuir cartão vermelho; estou aqui como torcedora da engenharia brasileira, que acompanha de perto o mercado de descarbonização da frota.
Temos visto navios desembarcarem toneladas de carros elétricos em nossos portos, estimulados pelos incentivos do governo (os quais terminaram há poucos dias).
As montadoras com fábrica no Brasil tentam driblar os chineses, mas estão levando sufoco para passar do meio de campo. Acabam importando veículos eletrificados de maior valor agregado, enquanto o Brasil participa cada vez menos do desenvolvimento das tecnologias centrais. Isso não me parece sustentável no longo prazo.
Incentivos podem ser importantes para viabilizar investimentos e acelerar a introdução de novas tecnologias, mas precisam ser muito bem estruturados. Incentivos permanentes ou mal planejados podem criar uma falsa sensação de competitividade: enquanto existem, o modelo parece funcionar; quando acabam, muitas vezes a conta não fecha.
Também concordo que a eletrificação faz parte do futuro da mobilidade e dificilmente haverá retrocesso nesse processo. No entanto, acredito que o debate brasileiro não deve ser limitado apenas aos veículos elétricos a bateria. Precisamos considerar as características e as vantagens competitivas do Brasil, que possui uma matriz energética relativamente limpa, liderança em biocombustíveis e enorme potencial em combustíveis renováveis, como etanol, biometano e, futuramente, combustíveis sintéticos.
E é justamente nesse ponto que a engenharia brasileira deveria assumir um papel protagonista. Temos condições de desenvolver soluções adaptadas à nossa realidade e de transformar nossas vantagens naturais em vantagens tecnológicas. A transição energética no Brasil não precisa ser uma simples cópia do que está sendo feito em outros países.
Já demos goleada com o Pró-Álcool, somos craques em biodiesel, e o biometano vem avançando na grande área. Os motores a diesel também vêm mantendo posição na zaga, ganhando tecnologias que permitem seu uso com baixa emissão de carbono. Aqui tem brasilidade! Precisamos voltar a incentivar a engenharia e a tecnologia nacionais.
Da mesma forma, entendo a necessidade de proteger a indústria nacional, mas proteção, por si só, não resolve o problema. As empresas precisam investir, inovar e acompanhar a evolução tecnológica global. Hoje estamos muito atrás de países como China e Índia em diversas áreas estratégicas. Grande parte da engenharia brasileira deixou de desenvolver tecnologias centrais para atuar principalmente na adaptação e na gestão de soluções criadas no exterior. Se quisermos manter uma indústria forte no futuro, será necessário voltar a investir em desenvolvimento tecnológico, e não apenas em proteção de mercado.
*Simone Cotrufo França
Consultora na Carcon Automotive
Coordenadora da Divisão Técnica de Energia e Transição Energética do IE
Líder de Conteúdo e Comunicação na rede Mulheres do Biogás
*Os artigos publicados com assinatura, não traduzem necessariamente a opinião do Instituto de Engenharia. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.
Este artigo e as imagens contidas nele são de exclusiva responsabilidade do autor.





