Pesquisa da Poli/USP propõe norma para avaliar níveis de ruído em fones de ouvido

De 6 a 12% das pessoas que trabalham em funções nas quais têm de usar fones de ouvido sofrem de algum tipo de perda auditiva. Isso significa que dos 750 mil operadores de teleatendimento e telemarketing que atuam no Brasil, cerca de 4,5 mil, no mínimo, podem apresentar esse problema. Por se tratar de uma doença ocupacional, boa parte deles teria direito aos benefícios acidentários da Previdência Social, além de poder pleitear a concessão da aposentadoria especial, caso fosse comprovada a incapacidade para o trabalho e a relação da doença com a atividade. Isso, no entanto, raramente ocorre porque é muito difícil provar que a perda auditiva foi provocada pela exposição prolongada ao ruído com o uso do fone de ouvido. 

“Faltam, no Brasil, procedimentos e metodologias legais para avaliar se o som emitido pelo fone de ouvido está dentro de níveis seguros”, diz o engenheiro eletricista e de segurança do trabalho Jair Felicio, mestre em Engenharia pelo Departamento de Engenharia de Minas e de Petróleo da Escola Politécnica da USP, onde funciona um dos principais laboratórios especializados em segurança no trabalho do Brasil – o Lacasemin. Felicio acaba de apresentar um estudo que traz contribuições importantes para solucionar esse problema, na medida em que identificou quais metodologias e normas são mais adequadas para avaliar os níveis de ruído em fones de ouvido. 

Amplo estudo 

Em sua pesquisa, baseada em um levantamento de normas internacionais e estudos sobre medições sonoras, feitos por ele e por outros pesquisadores, Felicio constatou que a medição de som emitido por fone de ouvido envolve variáveis que, se não forem levadas em consideração, podem distorcer o resultado. “Além disso, a maioria dos pesquisadores não teve a preocupação em padronizar os procedimentos de avaliação e os equipamentos de medição”, diz. 

Por outro lado, as normas consideradas mais adequadas para esta finalidade, as da serie ISO11904, são de difícil aplicação prática. “Além de cara, é muito complexa de ser executada, pois exige profissionais altamente capacitados para lidar com os equipamentos sofisticados de medição”, explica. “Por isso, sua adoção acaba sendo limitada”, completa. 

Nova metodologia 

Uma possível solução identificada pelo pesquisador foi uma metodologia elaborada por uma empresa sediada em Chicago, nos EUA. “É uma alternativa mais barata e simples, mas que, no entanto, precisa ser melhor estudada para verificar a sua conformidade com as normas da série ISO 11904”, diz ele, que pretende continuar sua pesquisa, em nível de doutorado, nessa linha. 

Segundo o professor Wilson Siguemasa Iramina, que orientou o trabalho do pesquisador, se for comprovada a eficiência desta metodologia, haverá subsídios para a elaboração de normas de higiene ocupacional, de procedimentos de medição, de metodologia e critérios de avaliação e instruções técnicas sobre o assunto. 

“Ela poderá até mesmo vir a ser adotada como uma norma oficial brasileira de Metodologia e Procedimento Normalizado do Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial (INMETRO)”, diz. 

Para o autor da pesquisa, quantificar adequadamente o ruído junto aos usuários de fones de ouvido é indispensável para o controle e a diminuição dos riscos de perda auditiva por exposição prolongada. “Hoje esse problema está sendo mascarado ou mesmo subnotificado com a ocultação da doença ocupacional.” 

Ele lembra que a dimensão do problema é muito maior do que se imagina. Basta lembrar que, além da área de telemarketing, os serviços de telefonia também empregam milhares de pessoas no país como telefonistas, atendentes, técnicos e cabistas. 

Há ainda outros profissionais expostos ao risco, como pilotos de aviões, músicos e operadores de áudio e vídeo. “Isso sem falar na legião de pessoas que diariamente passam horas ouvindo música em seus tocadores digitais”, finaliza.

Autor: Assessoria de imprensa

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