As pontes e os discursos

Numa segunda feira fria de agosto vimos imagens impensáveis na televisão. Num país desenvolvido, o maior do primeiro mundo, uma ponte ruiu na hora do rush, jogando carros, ônibus e caminhões nas águas do Rio Mississipi, ferindo dezenas de pessoas e matando outro tanto. 

Impensável para os desinformados, pois a American Society of Civil Engineers (ASCE) em seu Infrastructure Report Card – um rigoroso e meticuloso trabalho de avaliação das condições das obras e serviços públicos dos EUA – avisava que 27% das pontes do país eram estruturalmente obsoletas e se encontravam em péssimo estado de conservação. 

As conclusões do estudo da ASCE eram duras e pragmáticas. Que os governos parassem com novas construções e voltassem seus orçamentos para a manutenção das estruturas já existentes. Infelizmente, para alguns cidadãos de Minneapolis o conselho não foi seguido. 

No Brasil, apesar dos discursos ufanistas de nossos políticos e suas promessas mirabolantes de campanhas, a estória não é diferente, é pior, muito pior. A cultura da manutenção é inexistente na administração pública, pois manter uma ponte, viaduto, estrada ou qualquer outra obra bem conservada rende muito menos votos do que inaugurar uma obra nova. 

Por isto escolas novas são construídas, enquanto crianças são condenadas a assistir aulas em edifícios semi destruídos. Hospitais novos são anunciados enquanto pacientes definham e morrem nas filas do SUS. Investimentos se afastam enquanto apagões são negados. 

Em São Paulo, de acordo com levantamento feito pelo Sinaenco, de 58 pontes, passarelas e viadutos vistoriados pelos engenheiros, 100% apresentavam problemas graves, alguns com possibilidade de colapso da estrutura e riscos à população 

O compromisso firmado pela Prefeitura do Município de São Paulo e o Ministério Público, com a assessoria técnica do Instituto de Engenharia e do Sinaenco, trabalhando em conjunto com a primeira gestão municipal, cujo foco na manutenção e recuperação do patrimônio público deveria ser um exemplo na política brasileira, trouxe alguma esperança de segurança aos paulistanos. 

É passada a hora do poder executivo deixar de lado as grandes festas, as inaugurações espetaculares e a permanente campanha eleitoral e passar a cumprir seu papel de gestor da infra estrutura do país. 

É passada a hora dos cidadãos deixarem de se queixar das promessas eleitorais vazias e passar a cobrar a conservação das poucas promessas cumpridas no passado. 

É passada a hora dos engenheiros e suas associações de classe se mobilizarem para mostrar o atual estado de degradação que o Brasil construído no milagre de 70 se encontra. 

Por isto, o Instituto de Engenharia, cumprindo seu papel de alertar a sociedade, lança este mês, na internet, uma ferramenta destinada a divulgar o atual estado de conservação do patrimônio público brasileiro. Na esperança de que o Mapa da Gestão Pública Brasileira, construído de forma dinâmica e colaborativa por engenheiros de todo país, seja um marco na árdua batalha de levar um pouco de juízo aos gabinetes públicos.

Autor: Edemar de Souza Amorim

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