O bambu é um material de excepcional desempenho mecânico, com fibras altamente
resistentes, crescimento rápido e ampla disponibilidade no território brasileiro. Ainda assim,
seu uso na construção civil permanece limitado, não por fragilidade estrutural, mas por sua
vulnerabilidade biológica, isto é, apodrece logo.
O apodrecimento do bambu decorre principalmente da presença de açúcares livres, amido,
hemiceluloses e elevada umidade capilar, que constituem substrato ideal para fungos e
bactérias. Esses microrganismos não atacam a celulose estrutural, mas iniciam o processo de degradação a partir dos açúcares acessíveis, comprometendo a durabilidade do material.
Em diversos países, como China e Colômbia, o bambu é amplamente utilizado na
construção de edificações, tanto em elementos estruturais quanto em componentes
industrializados, como tábuas, painéis e divisórias, frequentemente associados a polímeros.
Para viabilizar esse uso, empregam-se métodos tradicionais de imunização, notadamente a
imersão em soluções de ácido bórico e bórax. Embora eficaz, esse processo demanda longos períodos de tratamento e gera efluentes líquidos de descarte ambientalmente problemático.
O Brasil detém a maior diversidade de espécies de bambu do mundo, com cerca de 284
espécies catalogadas, distribuídas por praticamente todo o território nacional. Trata-se de
uma matéria-prima estratégica ainda subutilizada, cuja incorporação à construção civil
demanda o desenvolvimento de métodos de proteção mais compatíveis com os princípios de sustentabilidade ambiental e industrialização limpa.
Nesse contexto, surge a possibilidade de investigação do tratamento do bambu por meio de radiação ultravioleta (UV), uma tecnologia amplamente consolidada em outros setores industriais, como tintas, revestimentos e odontologia, sobretudo em processos de
fotopolimerização.
A proposta não se baseia na penetração da radiação UV no interior do colmo, mas sim na
impregnação prévia do bambu com resinas fotocuráveis de baixa viscosidade, cuja
polimerização é posteriormente ativada por radiação UV. Este processo pode, em tese,
tornar os açúcares biologicamente indisponíveis para os microrganismos, seja por
encapsulamento físico, reticulação com componentes da parede celular ou formação de
barreiras difusionais contínuas.
Entre as vantagens potenciais dessa abordagem destacam-se:
• ausência de lixiviação ao longo do tempo;
• rapidez e controle do processo industrial;
• inexistência de metais pesados;
• preservação das propriedades mecânicas iniciais do bambu.
Trata-se, portanto, de uma alternativa promissora aos tratamentos convencionais, alinhada
aos princípios ESG, à bioeconomia e à industrialização sustentável.
Evidentemente, a viabilização desta tecnologia vai exigir pesquisa experimental sistemática, superando desafios como a dificuldade da penetração e a infiltração das misturas fotocuráveis, a diversidade anatômica entre espécies de bambu e a definição dos
comprimentos de onda mais adequados à cura.
Nesse sentido, estão em curso articulações com centros de excelência em pesquisa, como o
IPEN, universidades federais e estaduais, além da EMBRAPA, visando à construção de uma
agenda científica integrada, multidisciplinar e de longo prazo.
Mais do que uma solução pontual, o estudo da proteção do bambu por Radiação UV
representa a oportunidade de consolidar um novo paradigma construtivo: matéria prima
renovável, não poluente, tecnicamente robusto, ambientalmente responsável e socialmente
inclusivo, capaz de resgatar cadeias produtivas tradicionais como o mercado da mão de obra de carpinteiros especializados em estruturas de telhados e gerar valor sustentável para o país.
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Em 7 de fevereiro de 2026
Roberto Massaru Watanabe
Engenheiro Civil – Poli/USP-1972
Coordenador da DT Projetos de Energia
*Os artigos publicados com assinatura, não traduzem necessariamente a opinião do Instituto de Engenharia. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo
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