“20 anos de Pré-Sal: Quando fatos falam mais alto que discursos”, por *João Ricardo Lafraia

Cheguei ao evento dos 20 anos da Uo BS, em Santos, no dia 20 de janeiro, esperando uma comemoração. Saí com uma reflexão. O encontro foi menos sobre exaltar conquistas e mais sobre compreender decisões, riscos assumidos e escolhas técnicas e estratégicas que resistiram ao tempo. Um espaço para olhar o passado com responsabilidade e projetar o futuro com lucidez.

Estar ao lado de pessoas que ajudaram a escrever essa história, como Guilherme Estrella, Sylvia Anjos, diretores de EP, reforçou a real dimensão do caminho percorrido. Nada do que foi conquistado veio de forma simples. Em diversos momentos, convicções técnicas, institucionais e estratégicas foram colocadas à prova — e sustentadas.

Primeiro disseram que não havia petróleo no Brasil. A BR mostrou que estavam errados.

Depois, afirmaram que não haveria petróleo no mar. Erraram novamente.

Petróleo abaixo da camada de sal? Mais um “não” que o tempo tratou de desmentir.

Com o avanço, vieram as perguntas mais duras — e absolutamente legítimas:

a exploração é econômica? É ambientalmente correta? É subsidiada?

Os números ajudam a responder. O pré-sal gera dezenas de bilhões de dólares por ano em fluxo de caixa livre. Ao longo de 20 anos, estima-se que trouxe aproximadamente US$ 500 bilhões em impostos e taxas diretas para o Brasil — algo próximo de US$ 2 bilhões por dia. Tudo isso sem uma gota de óleo no mar.

Enquanto esse debate ainda se prolonga por aqui, muitos países seguem altamente dependentes do carvão mineral em suas matrizes energéticas. O contraste é eloquente. Não questiono — e nem minimizo — o rigor dos processos de aprovação: ele é necessário e saudável. O desafio surge quando o rigor técnico dá lugar a narrativas desconectadas de resultado, eficiência e evidência.

Há também um aspecto frequentemente pouco valorizado. Trata se de um empreendimento feito por brasileiros. Diferente de muitos projetos internacionais da indústria, estruturados como consórcios de múltiplas nacionalidades, aqui o protagonismo é nacional — na concepção, na execução e na operação. Um modelo que, curiosamente, produziu resultados consistentes sem precisar ser “reinventado” para parecer moderno.

Os resultados operacionais reforçam esse ponto. Em eficiência, os FPSOs (Unidade Flutuante de Produção, Armazenamento e Transferência) do pré sal — outra inovação brasileira, premiada e replicada mundo afora — figuram no primeiro quartil em estudos internacionais independentes, isto é, avaliações que não dependem de narrativa própria para se sustentar.

Tudo isso está ancorado em um propósito claro: prover a energia que movimenta o progresso do Brasil. O ambiente construído ao longo desses anos foi fértil para a inovação, com ciência e tecnologia aplicadas no cotidiano da operação e da manutenção. Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação que não se traduzem em prática tendem a sobreviver apenas nos discursos.

Na gestão de ativos e na confiabilidade, o impacto é direto e mensurável. Cada 4% de aumento de eficiência representa, na prática, uma unidade “oculta” a mais no meio das que já estão produzindo — um ganho silencioso, mas muito concreto.

Por fim, há o fator humano — talvez o mais determinante. Ao longo dessa trajetória, diferentes lideranças se sucederam à frente da unidade — em períodos distintos e contextos igualmente desafiadores —, mas o resultado nunca foi obra de uma cadeira ou de um nome. Ele foi construído por equipes técnicas, operacionais e administrativas inteiras, em todas as áreas da BR, que sustentaram decisões difíceis, operaram sistemas complexos e fizeram o extraordinário parecer rotina. Nesse percurso, passaram pela função de gerente geral José Luiz Marcusso, Osvaldo Kawakami, Felipe Matoso — e eu próprio —, sem que o essencial nunca tenha se desviado do que realmente importava: a continuidade do propósito coletivo, o respeito às equipes e a entrega consistente de resultados, independentemente de quem estivesse no comando institucional.

Foi um dia especial.

Um retrato de um Brasil que entrega resultados.

Feito por brasileiros, usando o que há de melhor entre nós.

PS: Marcas podem ir e vir. Instituições de verdade permanecem — especialmente quando o nome BR segue associado a engenharia, competência técnica e entrega de resultado.

*Por João Ricardo Lafraia, associado ao Instituto de Engenharia