A crise desatada com os ataques ao Irã é a maior em décadas no mercado de petróleo. Por muito tempo perdurou certa estabilidade no Golfo Pérsico. Durante esse período, a região se desenvolveu e atraiu investidores e residentes. Um primeiro sinal de que algo estava mudando veio em setembro de 2019, quando o Irã atacou instalações petrolíferas na Arábia Saudita. Em janeiro de 2020, um general iraniano foi morto no Iraque.
Em seguida, os Houthis aumentaram os ataques à Arábia Saudita. A situação global, com aumento da oferta em outras regiões, como EUA e Brasil, abundância de oferta de gás russo, sistemas logísticos eficientes e expectativas de uma rápida transição energética que reduziria a demanda por combustíveis fósseis, favorecia um contexto que atenuava as consequências de eventos no Oriente Médio. Os riscos geopolíticos eram minimizados. Os impactos nos preços do petróleo foram limitados e de curta duração.
Desta vez, está sendo diferente. A crise surgiu em um momento em que o ambiente havia mudado. A guerra da Ucrânia, a redução do crescimento da produção no shale americano, a maior preocupação com segurança no suprimento de energia e o reconhecimento de que a demanda por hidrocarbonetos vai seguir elevada e a descarbonização vai ser muito mais lenta do que o esperado até algum tempo atrás alteraram o quadro global.
O Estreito de Ormuz, que jamais havia sido fechado, virou zona de guerra, mas as repercussões vão além do bloqueio do estreito. Houve ataques a refinarias, campos de petróleo, instalações e plantas industriais, resultando em falta de produtos e aumentos de preço. Além de óleo e derivados, também há impacto em produtos petroquímicos, fertilizantes, enxofre, hélio, alumínio. As ameaças de fechamento do Bab el-Mandeb, na entrada do Mar Vermelho, os mísseis lançados pelos Houthis e os ataques da Ucrânia a refinarias na Rússia colocaram mais pressão no sistema logístico mundial, já estressado.
Cerca de 20% do petróleo e do gás natural liquefeito (GNL) consumidos globalmente passavam por Ormuz. Considerando os volumes de óleo que são comercializados internacionalmente, o porcentual superava 40%. Antes da guerra eram 20 milhões de barris por dia. Os volumes perdidos chegam a mais da metade disso. É um grande choque de oferta. O mercado saiu rapidamente da expectativa de excesso para a falta de petróleo.
Como os navios levam de 20 a 30 dias para entregar as cargas no local de destino, só a partir de abril a escassez física começou a pesar. O mundo não está sofrendo uma falta estrutural de óleo. Está passando por dificuldades logísticas que podem demorar para serem sanadas e pelo reconhecimento de riscos operacionais que não estavam sendo precificados corretamente. As curvas futuras de preço já refletem cotações mais altas. Há problemas na oferta de derivados, especialmente diesel e querosene de aviação (QAV), GNL e outras commodities. A margem de refino do diesel subiu. O QAV dobrou de preço na Europa e na Ásia. Milhares de viagens aéreas estão sendo canceladas. Houve proibição de exportações em vários países.
A Rússia e o Irã estão se beneficiando do aumento de preços. E, diferentemente do que ocorreu em outros choques, o preço do gás natural nos EUA não subiu. Isso diminui a pressão inflacionária e política por lá. No Brasil, há mais dificuldades no abastecimento de diesel, QAV e gás de cozinha. Os preços ficaram abaixo dos internacionais. Houve escassez pontual de diesel. O governo cortou tributos e adotou subsídios.
O que se pode esperar daqui para a frente? A situação no Estreito de Ormuz dificilmente voltará à anterior. A desconfiança e os riscos vão perdurar, mesmo após o fim do conflito. Os reparos na infraestrutura afetada vão demorar. A crise vai pressionar os mercados de energia e de commodities, estressando as finanças e a economia. Quanto mais durar, maior será o impacto na inflação e no crescimento globais.
No curto prazo, governos vão seguir adotando ferramentas de emergência, como redução de impostos, uso de estoques e fundos de estabilização de preços, que não funcionam por longo tempo. A liberação recorde de 400 milhões de barris dos estoques estratégicos de países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) não vai eliminar a pressão, pois esse volume é pequeno, e a velocidade de chegada ao mercado, de quatro milhões de barris por dia, é insuficiente para contrabalançar a redução no suprimento.
O mundo deve entrar em uma fase de destruição de demanda. Especialmente em países da Ásia, como Paquistão, Bangladesh, Vietnã, Sri Lanka, Tailândia. A atividade industrial vai cair, e a inflação vai subir. Se a situação atual durar muito, haverá recessão.
Nos médio e longo prazos, a preocupação com segurança no fornecimento e com preços acessíveis passará a ser o fator dominante. As energias solar, eólica e nuclear, além do armazenamento, vão ficar mais atraentes, não por trazerem melhorias ambientais, mas por aumentarem a segurança. Como reduzem a exposição à volatilidade e ao risco geopolítico dos hidrocarbonetos e melhoram a segurança e a confiabilidade, vão ser incentivadas. O carvão também vai ganhar fôlego. Já há adiamento de fechamento de plantas.
A descarbonização vai virar objetivo secundário. Virá associada a medidas para melhorar a estabilidade no abastecimento. A produção doméstica será priorizada, especialmente de renováveis que não precisam ser comercializadas internacionalmente. Crescerão os investimentos em infraestrutura e cadeias de suprimento confiáveis.
O prêmio de risco geopolítico nas commodities vai subir. O sistema vai perder eficiência, pois capital será alocado a projetos que garantam resiliência em detrimento do custo. O desafio maior será para a Europa, que vive a segunda crise em quatro anos. E para a Ásia, que depende mais do Oriente Médio.
A inteligência artificial está criando um choque estrutural de demanda, que cria oportunidades de investimentos e coloca mais tempero na crise atual. Como a capacidade de atender o mercado rápida e eficientemente está virando uma questão de segurança energética, a geração a gás, especialmente a GNL, vai crescer. Em um mundo em que a demanda por petróleo e gás permanecerá estruturalmente presente, a exploração e reposição de reservas, depois de anos, voltam a ganhar força, especialmente em bacias de fronteira, que diversificam o risco geopolítico.
Hidrogênio e amônia são comercializáveis com facilidade. Se fortalecem como opções que aumentam a segurança e reduzem problemas logísticos. O mercado de minerais críticos também vai ser afetado pela preocupação com a garantia no fornecimento. A concentração no processamento cria as mesmas ameaças experimentadas com o petróleo. A diversificação também vai ser priorizada.
O novo conceito de dominância energética deve reformatar a relação dos EUA com os países da América Latina, como visto no caso da Venezuela. O Brasil se beneficia do aumento dos preços do petróleo e vai experimentar aumento significativo nas exportações e na arrecadação e uma melhora do saldo comercial e uma redução do déficit público. Se os preços não se mantiverem próximos dos necessários para viabilizar as exportações, pode haver falta de produto. Como este é um ano eleitoral, a situação pode ficar mais tensa, com o governo tentado a adotar mais medidas para conter as cotações dos combustíveis. Como toda vez que são tomadas iniciativas para controlar preços de mercado, logo as dificuldades e os efeitos indesejados vão aparecer.
A guerra vai ter consequências que vão perdurar no tempo. Para um país como o Brasil, com uma matriz limpa e acesso a múltiplas fontes de energia, as oportunidades serão muitas.
*Décio Fabrício Oddone da Costa tem mais de 40 anos de experiência no setor de petróleo, gás e energia. Escreve bimestralmente para a Broadcast.
Originalmente publicado pela Broadcast Energia (Os artigos publicados pela Broadcast expressam as opiniões e visões de seus autores).






