O Estado de S. Paulo – Fórum de leitores: Crise hídrica, antes que seja tarde

Em março de 2016, o então governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, “decretou” o fim da crise hídrica, sustentando que a questão da água estaria resolvida, porquanto o Cantareira, nosso principal manancial de água, e o Alto Tietê estavam, respectivamente, com 58% e 40%, apostando que tais volumes eram suficientes “para quatro ou cinco anos de seca” e que o Estado e a região metropolitana (RMSP) estariam “bem preparados para as mudanças climáticas”.

Essa decisão política do governador foi também encorajada pela recuperação dos mananciais, graças às chuvas acima das médias ocorridas nos verões de 2015 e 2016; a atuação da Sabesp, principalmente no cumprimento de seu programa de obras, entre as quais a conclusão do Sistema São Lourenço, a interligação entre as Represas Jaguari (na bacia do Paraíba) e Atibainha (Sistema Cantareira); a interligação dos mananciais da RMSP; e a economia propiciada pela população no consumo de água.

Entretanto, tal atitude foi à época considerada por muitos especialistas como precipitada em razão das incertezas quanto ao regime hidrológico que se seguiria, particularmente quanto à ocorrência de chuvas, dependentes de vários fatores climáticos e meteorológicos como a influência dos fenômenos El Niño e La Niña, decisivos no surgimento de estiagens e na intensidade das chuvas.

Decorridos quase dez anos, eis que estamos no limiar da quarta – e provavelmente mais drástica – crise hídrica deste início de século. A RMSP está novamente inserida nesse contexto, uma vez que seus principais mananciais estão sentindo os efeitos da estiagem que se iniciou já há algum tempo provocada pelo fenômeno La Niña no Pacífico equatorial.

Assim é que o Sistema Cantareira, que hoje oscila em torno de 20% de sua capacidade, mesmo recebendo desde julho de 2021 o reforço das águas da bacia do Paraíba, opera muito abaixo de sua capacidade. Outros sistemas produtores da RMSP estão também sofrendo os efeitos da estiagem, sendo que o nível do sistema integrado, hoje, está com cerca de 30% apenas. As providências para o enfrentamento da crise já deveriam ter sido tomadas realisticamente, de nada adiantando o negacionismo dos responsáveis.

Como salientou o editorial Antes que seja tarde (23/1, A17) do Estadão, “as medidas mais enérgicas devem ser tomadas agora, enquanto ainda há água nos reservatórios e nas torneiras”.

José Eduardo Cavalcanti, São Paulo

Fonte: O Estado de S. Paulo