Agora vai? Governo Doria promete despoluir rio Pinheiros até 2022; para especialistas, há risco de ‘enxugar gelo’ (IEJN)

Zé Carlos Barretta/UOL

Não é de hoje que os olhos — e narizes — de quem mora ou trabalha em São Paulo se acostumaram a encarar o rio Pinheiros como um depósito de sujeira que corta a cidade de norte a sul. Está distante o tempo de um rio sinuoso que, no começo do século passado (a foto ao lado mostra como era em 1930), era aproveitado pela população para pesca, esportes e até mesmo banho.

Divulgação/Eletropaulo
Divulgação/Eletropaulo

Ao longo das últimas décadas, com a expansão formal e informal da região metropolitana sem a infraestrutura urbana adequada, o Pinheiros que carregava só água limpa passou a trazer consigo esgoto, lixo, entulho e mau cheiro. Tudo isso vem de dezenas de afluentes que nascem dentro e fora da capital e recebem poluição à medida que atravessam áreas populosas.

Depois de uma tentativa frustrada há quase duas décadas, o governo paulista volta a anunciar um projeto para despoluir o Pinheiros — desta vez, com prazo até dezembro de 2022. A ideia principal é impedir que esgoto e lixo cheguem ao rio, interrompendo esse fluxo já nos afluentes. A meta é fazer com que haja oxigênio suficiente para que o rio volte a ter vida aquática e possa ser explorado para turismo e transporte.

Para chegar a este resultado, a administração de João Doria (PSDB) aposta em novidades como o tratamento de esgoto diretamente nos afluentes. Especialistas ouvidos pelo UOL veem o plano com cautela e, enquanto aguardam a divulgação de mais detalhes sobre o projeto, alertam para o risco de que o poder público continue a enxugar gelo sem atacar uma das raízes do problema da poluição: o crescimento urbano desordenado.

“O nosso projeto é afastar o lixo, não deixar chegar o esgoto e dar condições ao rio para que ele tenha vida novamente. Esse é nosso grande desafio. “

Marcos Penido, secretário estadual de Infraestrutura e Meio Ambiente

Tratar esgoto no próprio córrego

Segundo o secretário estadual de Infraestrutura e Meio Ambiente, Marcos Penido, o valor do projeto como um todo é de R$ 1,5 bilhão. A primeira etapa do projeto, o desassoreamento do rio, começou nesta semana, com investimento de R$ 70 milhões. O governo ainda não divulgou quais são as etapas seguintes, nem um calendário completo do projeto de despoluição.

“Nós vamos anunciando passo a passo aquilo que está sendo feito. Nós não vamos dizer o que vamos fazer, vamos sempre colocar o que estamos fazendo, colocando que existe ação efetiva nesse trabalho, não só vontade de fazer”, afirma Penido.

Para conter a chegada do esgoto que vem de áreas de ocupação informal, o governo estuda instalar estações de tratamento compactas nos próprios córregos. A opção por tratar o esgoto no curso d’água em vez de expandir a rede coletora se justifica, segundo a Sabesp, porque “algumas áreas com uso e ocupação irregulares do solo impossibilitam a instalação de sistema de esgotamento sanitário convencional, que implica na execução de obras de infraestrutura para coletar esgoto de residências”, explicou a empresa em nota.

De acordo com a estatal de água e saneamento, “soluções alternativas” de tratamento de esgoto serão usadas “até que o problema das ocupações irregulares seja resolvido e a área possa ser contemplada com infraestrutura urbana convencional.”

A empresa não informou em que locais pretende fazer o tratamento direto nos córregos, e diz que a definição depende de estudos técnicos.

Os trabalhos de despoluição acontecerão em 25 sub-bacias de afluentes do Pinheiros. As primeiras obras devem começar neste semestre no córrego Zavuvus, que se estende por quase 10 km na zona sul de São Paulo.

A Sabesp não divulgou um calendário preciso da despoluição de cada uma das sub-bacias. A empresa apenas diz que a conclusão deste processo está prevista para o fim de 2022.

Além do esgoto, outro grande fator de poluição do Pinheiros é o lixo. Para contê-lo, serão usadas redes e grades que permitirão o recolhimento pelas empresas responsáveis pela coleta em cada cidade por onde passam os afluentes (São Paulo, Taboão da Serra e Embu das Artes), diz Penido. A foto ao lado mostra a margem do córrego Pirajussara, um destes afluentes, na altura da Cidade Universitária.

Zé Carlos Barretta/UOL
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Como chegamos neste nível de poluição?

Segundo Stela Goldestein, consultora em água e saneamento, o esgoto sem coleta representa a maior carga de poluição do rio Pinheiros. A deficiência na coleta, explica ela, tem a ver com o alto custo da construção da rede e a priorização do abastecimento de água pelo poder público ao longo do tempo. O crescimento desordenado da região metropolitana também entra na conta. “Nós fizemos ocupações formais e informais antes de colocar infraestrutura. Toda a infraestrutura veio a reboque da expansão, e a de esgoto é igual às outras.”

Stela aponta que as dificuldades são maiores em áreas de ocupação informal, como favelas. “Em alguns lugares, a Sabesp não tem autorização para entrar. Precisa de autorização judicial, porque a área está em disputa ou tem reintegração de posse. Tem complicações técnicas. Para você passar canalização de esgoto onde não tem ruas formais, é bastante complicado. Mas é mais complicado ainda, depois de coletar, levar para a estação, porque você precisa passar a canalização do esgoto pelas beiras de rio, os lugares baixos. E ao longo dos rios, há ocupação informal muito grande. Precisa tirar casas para passar a canalização.”

Outra fonte importante de poluição é a chamada carga difusa, espalhada pelas ruas.

“Não temos mais inspeção veicular, a carga de poluição do ar aumentou, tem material particulado e outros poluentes importantes. Choveu, isso se deposita nas ruas e vai para o rio. Sujeira de cachorro, óleo de carro, raspa de pneu e muito lixo. Tudo isso vai para os rios, e tudo isso é atribuição das prefeituras”, diz Stela, que também foi diretora da ONG Águas Claras do Rio Pinheiros.

Para controlar essa carga, é necessário melhorar a coleta de lixo e a varredura das ruas, além de criar mais áreas permeáveis na cidade — ou seja, áreas onde a água pode entrar, o que não acontece com asfalto e e concreto sobre a terra.

“Quando chove, se essa água vai para áreas permeáveis, ela infiltra e chega nos rios já filtrada, despoluída. Mas nós impermeabilizamos a cidade toda. E aí, como é que faz?”, pergunta a consultora.

O risco de se “enxugar gelo”

Enquanto a urbanização das áreas informais não acontece, a ideia de fazer pequenas estações de tratamento descentralizadas “é uma novidade boa”, diz Stela Goldestein.

O geógrafo Luiz de Campos, da Rios e Ruas, iniciativa que promove expedições educativas aos rios de São Paulo, diz que esta estratégia pode de fato melhorar a qualidade da água do Pinheiros, mas não ataca as raízes da poluição. Ele defende uma abordagem “sistêmica”, envolvendo inclusive a eventual remoção de moradias que estejam nas beiras de córregos ou até mesmo sobre eles.

“Tudo que ficou para trás de onde se está tratando não está sendo mexido. A origem do problema não está sendo tratada.”

Luiz de Campos, da Rios e Ruas

Campos critica a promessa de despoluição até 2022, que considera “muito imediatista”. “O governador tem suas pretensões políticas, e a gente acaba desconfiando que [o projeto] tem muito mais a ver com isso do que com tratar realmente o problema da qualidade dos rios.”

Para José Carlos Mierzwa, professor de engenharia hidráulica e ambiental da USP, o maior desafio é a coleta e o tratamento do esgoto das áreas informais — e o cuidado para que este trabalho não escorra pelo ralo com a expansão deste tipo de ocupação. “É um trabalho que é uma parceria do governo com as prefeituras. Se você não tiver um controle do uso e ocupação do solo, todo esforço neste sentido acaba sendo perdido.”

Segundo Mierzwa, o desassoreamento anunciado pelo governo (a foto ao lado mostra uma das máquinas usadas no rio) como etapa inicial da despoluição é importante, “mas sozinho não é o que vai resultar na melhoria de qualidade da água”. “Isso se dá pela coleta do esgoto e a condução desse esgoto para as estações de tratamento.”

Campos, da Rios e Ruas, também considera o desassoreamento necessário, mas pondera que fazer isso sem tratar dos afluentes não trará resultados satisfatórios. “Os sedimentos que assoreiam o rio vêm dos afluentes. É enxugar gelo. Vai dragar e está chegando coisa nova a cada estação chuvosa. Esses detritos não são criados no Pinheiros. Os bairros que o rio atravessa são urbanizados, não há tanto lixo nas ruas, não tem erosão. O Pinheiros está sendo assoreado a partir de regiões mais distantes”, diz.

A consultora Stela Goldestein lembra que trabalhos de desassoreamento são feitos há décadas. “Não é uma novidade. O que estão dizendo é que vai haver uma grande campanha de desassoreamento, tirar muito material do fundo do rio. Mas que material é esse, por que está lá? Não era para estar lá. Não adianta você desassorear de novo e de novo”, diz. “O governo vai tirar todo esse material do rio. Vai ter que tirar de novo no ano que vem, a não ser que as prefeituras passem a ter melhor controle sobre resíduos sólidos.”

Zé Carlos Barretta/UOL
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Afluentes desiguais

O que se vê no Pinheiros hoje pode ser considerado um resumo do que acontece em seus afluentes, mas há diferenças consideráveis entre eles que simbolizam as desigualdades de infraestrutura existentes na cidade.

“Quando você fala do córrego Bellini — um córrego pequeno que atravessa uma região de classe média alta, na zona oeste da capital — tratar esse rio é uma coisa. Outra coisa é tratar o córrego Pirajussara. Ele vem desde Taboão da Serra [na Grande São Paulo] atravessando bairros que não têm coleta de esgoto”, diz o geógrafo Luiz de Campos.

A foz do Pirajussara (foto acima) fica na altura da ponte Cidade Universitária, na zona oeste paulistana. Cerca de um quilômetro antes do deságue, um trecho deste córrego serve de exemplo dos principais problemas enfrentados pelos afluentes mais prejudicados pela poluição.

O nível baixo do Pirajussara nesta época do ano ajuda a revelar uma variedade de itens que nada têm a ver com um curso d’água saudável. Nas margens, o que à distância pode parecer com as pedras arredondadas tão comuns em rios são, na verdade, pedaços de tijolo que foram mudando de formato pela ação da água.

Dentro da água turva, em alguns momentos quase preta, e na beira dela, a maior parte da sujeira é formada por sacos plásticos e garrafas pet, além de embalagens de alimentos e de produtos de limpeza. Mas também há pedaços de tábuas de madeira, frascos de spray de tinta, brinquedos e até o que parece ser uma peça do motor de um veículo. A paisagem se completa com o mau cheiro de esgoto que se abranda no inverno, mas volta com força total no verão.

O que não fica preso nas pedras do Pirajussara vai parar no Pinheiros. Na foz do afluente, uma barreira faz o inglório trabalho de tentar conter todo o lixo que chega até ali.

O oposto do Pirajussara é o córrego das Corujas (foto abaixo), que deságua do outro lado do Pinheiros, na altura do bairro de Alto de Pinheiros. Ao passar pela Vila Madalena, é a estrela de um parque bastante frequentado por moradores, estudantes e trabalhadores da região, que se sentam nos bancos das margens para tomar sol e conversar depois do almoço. Por ali, nada de cheiro ruim, e a água é transparente. Mesmo mais bem preservado, o Corujas não escapa de eventuais sacos plásticos e embalagens de salgadinhos.

Zé Carlos Barretta/UOL
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“Quando chove, é uma tristeza”, diz ciclista

Saindo da ciclovia que margeia o Pinheiros, bem na frente da foz do Pirajussara, o aposentado Kurt Hupperich e a autônoma Carlota Hupperich lamentam a situação do rio ao lado do qual o casal pedala pelo menos três vezes por semana.

“Quando chove, é uma tristeza. No dia seguinte, a gente vem aqui, isso aqui está lotado de garrafas, de tudo o que você pode imaginar. Dá vontade de a gente entrar e limpar”, diz Carlota.

Segundo Kurt, “o cheiro agora no inverno está melhor, mas no verão é uma vergonha”.

O casal visita a Alemanha uma vez por ano e sonha com um Pinheiros como o rio Reno, que atravessa cidades como Bonn e Colônia. Hoje despoluído após décadas de trabalho, o Reno é usado para transporte e turismo. “Tem uma vida social no rio que é incrível. E aqui é uma tristeza ver isso”, conta Kurt.

Para Carlota, “o que se perde com o rio nesse estado é incrível”. “O Reno é um rio limpo. Existe turismo, existe uma vida ao lado do rio, um comércio das regiões que cercam o rio. Traz uma vida para o rio que já foi prometida quase 20 anos atrás para nós, porque já houve um projeto.”

Meta “ousada” –de novo

Há quase 20 anos, em fevereiro de 2001, o governo de São Paulo lançou um plano de despoluição do rio Pinheiros. A administração de Geraldo Alckmin (PSDB) prometeu resolver o problema em um intervalo de oito meses, de junho de 2001 a fevereiro de 2002.

Na época, o método escolhido para despoluir o rio era a flotação. Por meio do despejo de uma substância coagulante, os resíduos se juntariam e teriam sua remoção facilitada. A realidade foi bem diferente do que o anunciado, e o rio continuou poluído. Dez anos e R$ 160 milhões depois, o governo paulista desistiu da flotação.

Para o atual secretário estadual de Infraestrutura e Meio Ambiente, Marcos Penido, a diferença agora está na abordagem do problema da poluição. “Já amadurecemos os projetos existentes, analisamos os estudos. Em vez de procurarmos discutir apenas a questão do rio, nós estamos discutindo a questão do que chega no rio, do lixo que chega no rio, do esgoto que chega no rio”, diz. “Isso nos dá a ousadia de estabelecermos essa meta desafiadora, sem dúvida, mas que será alcançada.”

Entre os especialistas, há otimismo. Para José Carlos Mierzwa, da USP, a meta de despoluição em 2022 é factível, “desde que a coleta de esgoto esteja bem resolvida”. A consultora Stela Goldestein lembra que o atual governo não está começando do zero.

“Se agora o governo do estado pode anunciar que vai ter uma meta audaciosa como essa, é porque ele está falando em função de todo o investimento que já foi feito antes”, diz. “O que foi erro antes foi ter criado expectativas de que estava resolvendo, de que o resultado estava ali na esquina. Era muita coisa por fazer.”

Por Bernardo Barbosa
Fonte UOL