O Brexit da Idade Média

Por José Eduardo Cavalcanti*

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Henrique VIII, rei da Inglaterra entre 1509 até sua morte, em 1547, mantinha um desejo de ter um herdeiro homem por acreditar que uma mulher não seria capaz de consolidar a dinastia Tudor, que não era aceita nem considerada legítima por todos os países europeus.

Catarina de Aragão foi princesa da Espanha e a primeira rainha consorte de Henrique VIII. Aos três anos tornou-se noiva do herdeiro do trono inglês, Artur Tudor, príncipe de Gales. Os dois casaram-se em novembro de 1501 e foram viver no País de Gales. Alguns meses depois ambos ficaram doentes – provavelmente da doença do suor que assolava a região. Em abril de 1502 Artur morreu, e Catarina tornou-se viúva aos dezesseis anos.

Surgiu então a possibilidade de tornar-se noiva do novo príncipe de Gales, seu antigo cunhado Henrique, cinco anos mais jovem que ela. Tendo em vista que o casamento com Artur não havia sido consumado devido a pouca idade de ambos, uma dispensa papal foi requisitada – já que o direito canônico dizia que um homem não poderia casar com a mulher de seu irmão. Sendo assim, o Papa Júlio II a concedeu em 1505.

Em abril de 1509, com a morte do rei Henrique VII, seu filho tornou-se o novo rei da Inglaterra, assumindo o trono como Henrique VIII. Imediatamente decidiu que se casaria com Catarina, então com 23 anos, enquanto Henrique estava próximo dos 18.

De seu casamento com Catarina de Aragão, apenas a filha Maria, nascida em 1516, sobreviveu tendo chegado à idade adulta, embora a rainha tenha engravidado outras seis vezes sem sucesso:

O primeiro parto da rainha foi de uma menina natimorta, em janeiro de 1510. Ela voltou a engravidar logo, e no mesmo mês do ano seguinte nascia seu filho, Henrique que viveu apenas 52 dias. Em 1513, Catarina engravidou outra vez mas o resultado dessa gravidez também não foi satisfatório: um menino natimorto, ou falecido pouco depois de nascer. Em 1514, a rainha voltou a dar à luz um menino, príncipe Henrique, mas ele também acabou morrendo pouco tempo depois de nascer. No ano seguinte, em 1517, Catarina sofreu um aborto espontâneo. Um ano depois, ficou grávida uma última vez, novamente uma menina, mas a filha era fraca e viveu apenas por algumas horas.

O rei, no entanto, ainda considerava um herdeiro masculino essencial. Em 1525, Henrique VIII começou a se interessar por Ana Bolena, dama de companhia da rainha, oito anos mais nova do que ele. Como já não era mais possível para Catarina ter filhos, Henrique considerava que seu casamento podia ter sido amaldiçoado.

Consultou a Bíblia e a interpretou como dizendo que se um homem desposasse a mulher de seu irmão, o casal ficaria sem filhos. Mesmo se o casamento não tivesse sido consumado (no que Catarina insistiu até o dia de sua morte), a interpretação dele afirmava que teria sido errado aos olhos de Deus, portanto nem mesmo o Papa poderia oferecer uma concessão. É possível que a ideia de uma anulação tenha sido sugerida para Henrique muito antes, e muito provável que ele seria mais motivado pelo desejo de ter um filho e evitar problemas na sucessão.

Rapidamente conseguir a anulação de seu casamento com Catarina junto ao Papa Clemente VII tornou-se uma prioridade para ele. Nessa época, o papa era prisioneiro do sobrinho de Catarina, o Imperador Carlos I, a rainha escreveu para seu sobrinho Carlos, pedindo que tentasse influenciar o Papa a tomar uma decisão contra a vontade do marido, fato que redundou na dificuldade de acesso ao Papa por parte do enviado do Rei, William Knight, que retornou de Roma sem ter obtido sucesso.

Outras tentativas neste sentido foram feitas por Henrique VIII. Um Tribunal Eclesiástico foi realizado na Inglaterra com a presença de um representante do papa, de Henrique e da própria Catarina. O Papa, porém, não permitiria que a decisão fosse tomada na Inglaterra, e chamou seu representante de volta à Roma. É difícil dizer até onde teria sido influenciado pelo imperador, mas Henrique claramente percebeu que era improvável obter a anulação de seu casamento pelo Papa, que o proibiu de voltar a se casar antes de tomar uma decisão sobre o assunto.

Em 1531 um tribunal eclesiástico declarou Henrique VIII o chefe supremo da Igreja na Inglaterra, o que efetivamente acabava com a autoridade papal não apenas na questão da validade do casamento, mas em todas as outras questões religiosas do país. Henrique VIII foi excomungado pelo Papa Clemente VII por esta afronta ao direito canônico, declarando que à luz do mesmo, o seu casamento com Catarina de Aragão continuava válido.

Livre das amarras papais, Henrique VIII casou-se outras quatro vezes. Foi sucedido por seu filho Eduardo VI, fruto de seu casamento com Joana Seymour, sua terceira esposa que lhe deu um filho homem.

Eduardo VI sucedeu a Henrique VIII e reinou até morrer, em 1553. Suas meias-irmãs, Maria, filha de Catarina, sucedida por Isabel, filha de Ana Bolena, acabaram também se tornando monarcas e o império não caiu.

Este cisma pode ser caracterizado em linguagem atual como um verdadeiro Brexit medieval, pois significou a saída da Inglaterra do seio da Santa Madre Igreja e de sua dependência ao Papa, embora os princípios cristãos tenham permanecido até os dias atuais.

A iniciativa deste Brexit medieval foi de apenas um homem, o próprio rei, que almejava fortalecer a dinastia Tudor e que para tanto necessitava de um sucessor varão.

Cerca de 500 anos depois, a Inglaterra ensaia um novo Brexit, mas desta vez não mais por iniciativa de apenas um homem, mas sim por decisão de 52% dos súditos do império britânico que querem se desvincular da União Européia.

Diante disso, em 29 de março de 2017, o Governo do Reino Unido invocou o artigo 50.º do Tratado da União Europeia, dando conta de sua disposição em deixar a UE em 29 de março de 2019 às 23 horas, horário do Reino Unido, quando o período de negociação de um Acordo de Interrupção terminará – a menos que uma extensão seja acordada. Contudo, em 15 de janeiro de 2019, a Câmara dos Comuns votou 432 a 202 contra o acordo, a maior derrota parlamentar de um governo britânico sentado na história.

Até a presente data é impossível antever o desfecho deste “imbroglio”que pode variar desde uma saída sem acordo até a suspensão do Brexit.

Como disse Karl Marx, a história se repete, a primeira vez como tragédia e depois como farsa.

Fonte: Wikipedia

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*JOSÉ EDUARDO W. DE A.  CAVALCANTI

É engenheiro consultor, diretor do Departamento de Engenharia da Ambiental do Brasil, diretor da Divisão de Saneamento do Deinfra – Departamento de Infraestrutura da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), conselheiro do Instituto de Engenharia, e membro da Comissão Editorial da Revista Engenharia

E-mail: [email protected]

*Os artigos publicados com assinatura, não traduzem necessariamente a opinião do Instituto de Engenharia. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo

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