O hidroanel e a poluição metropolitana

Em agosto último o Departamento Hidroviário (DH) do Estado de São Paulo protocolou na Cetesb estudo visando instruir o processo de licenciamento ambiental para construção da eclusa da Barragem da Penha que propiciaria condições de navegação do rio Tietê a montante em uma extensão de cerca de 14 km até São Miguel Paulista prosseguindo depois mais 37 km após retificação ou alargamento do rio Taiaçupeba desde sua foz no Tietê até o reservatório de Taiaçupeba. 

Com a construção desta eclusa, aproximadamente 55 km do Tietê, desde a barragem de Edgard de Souza em Santana de Parnaíba até a ponte da Nitroquímica se tornariam imediatamente navegáveis. Esta intervenção, na realidade, integraria o projeto do Hidroanel Metropolitano que prevê no total a implantação de uma via navegável , para transporte de cargas e passageiros, com aproximadamente 186 km de extensão, incluindo a utilização do rio Pinheiros, represa Billings e do reservatório de Taiaçupeba. Para tanto, está prevista ainda a construção de um canal artificial com 28 km de extensão para a interligação destes dois reservatórios de modo a fechar o anel hidroviário. 

Segundo o projeto da FAU- USP, ao longo do trecho estariam previstas a implantação de 20 eclusas, uma delas já existente na foz do Rio Pinheiros; 3 triportos (encontro dos sistemas de transportes, hidroviário, rodoviário e ferroviário); 14 transportos (onde os barcos receberiam o lixo produzido) ; 60 ecoportos ( onde seriam recebidos os lixos separados para reciclagem e também os dispostos pela população); 36 dragaportos (equipamentos para retirar sedimentos em foz de rio); 4 lodoportos ( tubulações que sairiam das estações de tratamento de água e esgoto rumo às embarcações); 24 portos de passageiros ( embarque de pessoas para viagens ou travessia) 

Segundo o DH, as cargas a serem transportadas seriam as denominadas “cargas públicas,” representadas por sedimentos de dragagem, lodo gerado nas estações de tratamento de água e esgoto, entulho de construção, solo de escavação oriundo das obras civis (públicas, comerciais e residenciais) e resíduos sólidos urbanos. Futuramente, poderá transportar produtos alimentícios como hortifrutigranjeiros. 

A implantação do Hidroanel Metropolitano está orçada em cerca de 2 bilhões de reais a serem gastos até 2020 quando se daria a conclusão do canal artificial ligando Taiaçupeba e o Rio Grande. 

Tudo muito bom, tudo muito bem, salvo pelo fato de os idealizadores do Hidroanel Metropolitano não terem levado em conta um detalhe fundamental: a péssima qualidade das águas em vários trechos dos rios que comporiam o anel e, consequentemente, os riscos à saúde a que estariam expostos os navegantes. 

Impossível por exemplo, pensar atualmente em navegação no rio Tietê pelo menos no trecho que vai de Edgard de Souza até a barragem da Penha, bem como no canal do Pinheiros em todo o seu curso a não ser para o transporte de lixo, entulho ou de material dragado dos próprios rios em chatas como se fazia alguns anos atrás. Transporte de passageiros ou mesmo de hortifrutigranjeiros, nem pensar! 

Nos reservatórios, Billings, Rio Grande e Taiaçupeba se prestariam apenas a passeios turísticos desde que com embarcações adequadas, pois são mananciais de abastecimento de água. Impensável também seria o transporte de lixo sobre aquelas águas que necessitam continuar preservadas. 

Esta iniciativa, gestada na FAU-USP, teve a boa intenção de “resgatar” os rios que cortam a RMSP como vias de transporte auxiliares. Mas como a tarefa de despoluir o Tietê e seus afluentes, prometida pelas autoridades estaduais há mais de 20 anos, ainda está longe de terminar, a efetivação plena do Hidroanel terá de ser adiada até o momento em que nossos rios possam desfrutar de águas limpas em seus leitos e, só assim puderem ser aproveitados.

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