Aeromovel de Porto Alegre

Em 2014, quando desembarcarem na capital gaúcha, visitantes do mundo todo vão conhecer um meio de transporte futurista. Mas engana-se quem pensa que a tecnologia é nova. Ligando o aeroporto ao terminal de trens urbanos mais próximo, o aeromóvel foi criado em 1978 anos pelo pelotense Oskar Coester, que só viu o veículo transportar passageiros comercialmente na Indonésia – em Porto Alegre, apesar de ter sido cogitado como alternativa para diminuir o trânsito de ônibus no centro da cidade, o vagão movido a ar vem servindo para ensaios científicos.

Especialmente para o blog, o empresário que desmontava motores na infância, especializou-se em automação aeronáutica e trabalhou para a Varig em seus áureos tempos, conta porque o aeromóvel demorou a se tornar realidade no país, diz que não tem ressentimentos e comemora o fato de ver, enfim, sua criação servindo à sociedade. Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista que Coester concedeu a este blog.

A gente não inventa, descobre o que já existia
“Entrei na Varig na era do jato. Convivi com [seu fundador] Rubem Berta, que dizia: ‘Não adianta voar mais rápido se não chegarmos ao aeroporto´. Foi aí que comecei a estudar a me fazer perguntas. A tecnologia e os materiais do aeromóvel são conhecidos, mas o movimento se dá de maneira diferente. Costumo dizer que a gente não inventa, descobre o que já existia.”

Vagão a vela
“Um carro pesa, em média, mil toneladas e transporta 1,2 passageiro. É menos de 10% de carga útil. Do ponto de vista ecológico, é inaceitável. A via elevada não enfrenta obstáculos e tem baixo custo. Mas tinha o problema da fumaça. Então comecei a pensar no se movimentar sem tracionar. Lembrei do barco a vela e do vagonete que existe nos molhes de Rio Grande. Usando minha formação em aerodinâmica e eletrônica, decidi gerar o vento com um ventilador”

Nos anos de 80, o ovo de Colombo
“Em 1977, montei um protótipo do aeromóvel com uma cadeirinha para um passageiro, numa pista de 30 metros. Aquilo apareceu no jornal como “o ovo de Colombo”. Fiquei perturbado. Depois em acostumei. Levamos o aeromóvel para a feira de Hannover, na Alemanha, onde transportamos 18 mil passageiros em nove dias”.

Aeromóvel para substituir os ônibus
“Em 1982, começamos a construir o aeromóvel na avenida Loureiro da Silva. Terminei a linha com dinheiro do meu bolso. A idéia da Metroplan (órgão de gestão urbana e regional do estado do Rio Grande do Sul) era tirar os ônibus do centro. Aquele trecho significava 1/3 deste anel. Mas a linha piloto nunca parou. Até hoje, é usada para ensaios dos trabalhos de engenharia”

Economizando energia
“Calculei o gasto energético do aeromóvel em 40 watts por passageiro/km. Segundo o IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas de São Paulo), o ônibus gasta 64 watts e o aeromóvel, 32 watts. É até menos do que eu tinha estimado.”

Inovação provoca reação
“Toda inovação provoca reação nas pessoas. Muitos achavam que o veículo poderia abalroar, mas o aeromóvel pesa 10 toneladas, enquanto um vagão de trem pesa entre 60 e 70 toneladas.”

Conversa com o Ministro
“Em 2007, vi que usar o aeromóvel no corredor de ônibus era desafiar o poder. Fui, então, conversar com o Ministro de Ciências e Tecnologia, com a idéia de usar o aeromóvel em aeroportos”.

Olhos marejados
“Antes de ficar ressentido pelo que aconteceu, agradeço aos que me ajudaram. Na década de 80, todo mundo estava metendo o pau, eu estava fazendo testes com o aeromóvel e apareceu um cidadão, que ficou olhando. Ele perguntou se eu estava enfrentando dificuldades financeiras com o projeto. E me disse: ‘o senhor sabe… eu tenho uma poupança’. Até hoje me emociono com isso”

Sucesso na Indonésia
“Em Jacarta, na Indonésia, o aeromóvel funciona há 21 anos, com as mesma rodas que parafusamos aqui.”

Tecnologia para todos

“O projeto precisa servir à sociedade como um todo. Enquanto não me convencerem de que estou errado, não vou desistir”

2014 é oportunidade
“Esta oportunidade [o Mundial de 2014] é muito boa. E o melhor é que é aqui no Brasil. Quando inauguramos o aeromóvel na Indonésia, o presidente da República estava lá. Daqui a pouco, teremos o nosso presidente inaugurando o aeromóvel aqui.”

Autor: Terra

COMPARTILHAR