{"id":87935,"date":"2021-11-12T11:44:42","date_gmt":"2021-11-12T14:44:42","guid":{"rendered":"https:\/\/www.institutodeengenharia.org.br\/site\/?p=87935"},"modified":"2021-11-12T11:45:18","modified_gmt":"2021-11-12T14:45:18","slug":"assim-viveremos-em-marte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.institutodeengenharia.org.br\/site\/2021\/11\/12\/assim-viveremos-em-marte\/","title":{"rendered":"Assim viveremos em Marte"},"content":{"rendered":"<p class=\"\">Ela come\u00e7ou aos 14 anos fazendo avi\u00f5es de papel para um trabalho do col\u00e9gio. Agora projetou uma cidade\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/ciencia\/2021-04-22\/nasa-produz-oxigenio-respiravel-em-marte.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-link-track-dtm=\"\">em Marte<\/a>. Gisela Detrell diz que viver naquele planeta \u00e9 poss\u00edvel. Em colabora\u00e7\u00e3o com cerca de 20 engenheiros, arquitetos e cientistas de v\u00e1rios pa\u00edses, planejou moradias para um milh\u00e3o de pessoas naquele planeta. Um projeto que parece parte do\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/ciencia\/2021-09-17\/russia-prepara-lancamento-da-missao-que-rodara-o-primeiro-filme-no-espaco.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-link-track-dtm=\"\">roteiro de um filme de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica<\/a>. Detrell, de 35 anos, engenheira aeroespacial que trabalha na Universidade de Stuttgart (Alemanha), para onde se mudou em 2008 de sua terra natal, Terrassa, anuncia: \u201cTudo o que propomos \u00e9 poss\u00edvel. Em 100 anos poderemos estar morando l\u00e1, depois de 250 dias de\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/ciencia\/2021-09-28\/o-turismo-espacial-e-insultuosamente-obsceno.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-link-track-dtm=\"\">viagem espacial<\/a>\u00a0em microgravidade\u201d.<\/p>\n<p class=\"\">Marte se tornou\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/ciencia\/2021-02-07\/tres-naves-invadem-marte-para-fazer-historia.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-link-track-dtm=\"\">um dos objetivos atuais da explora\u00e7\u00e3o espacial<\/a>. \u201cPensamos que o primeiro assentamento ser\u00e1 feito com um pequeno grupo de exploradores, mas, com o tempo, uma cidade l\u00e1 ser\u00e1 uma realidade\u201d, explica. Aquela que Detrell, diretora do Grupo de Pesquisa de Suporte \u00e0 Vida do Instituto de Sistemas Espaciais da Universidade de Stuttgart, projetou se chama N\u00fcwa, que na mitologia chinesa representa a deusa-m\u00e3e art\u00edfice da cria\u00e7\u00e3o e da prote\u00e7\u00e3o da humanidade. A ideia parte de um projeto realizado pela Sustainable Offworld Network (SONet), uma rede de profissionais de v\u00e1rias disciplinas e nacionalidades, dedicada ao desenvolvimento de assentamentos humanos fora da Terra. Seu projeto inclui a produ\u00e7\u00e3o de mat\u00e9rias-primas e produtos essenciais. Todos os bens ser\u00e3o fabricados em Marte. Tamb\u00e9m s\u00e3o definidos pol\u00edticas e conceitos sociais que detalham o modelo econ\u00f4mico, a educa\u00e7\u00e3o, as capacidades recreativas e at\u00e9 mesmo as solu\u00e7\u00f5es para o nascimento e a morte de seus cidad\u00e3os. No in\u00edcio ser\u00e1 dependente da Terra at\u00e9 se tornar \u201cum pa\u00eds\u201d que poderia se juntar \u00e0 ONU com uma governan\u00e7a pr\u00f3pria.<\/p>\n<p class=\"\">\u201cEste trabalho est\u00e1 centrado na engenharia e na arquitetura, mas tamb\u00e9m no planejamento do crescimento sustent\u00e1vel de\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/ciencia\/2021-02-19\/diana-trujillo-diretora-de-voo-do-perseverance-algo-de-vida-tem-que-haver-em-marte.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-link-track-dtm=\"\">uma sociedade no chamado planeta vermelho<\/a>\u201d, destacam os cientistas na apresenta\u00e7\u00e3o do projeto, eleito pela Mars Society como um dos 10 modelos mais fact\u00edveis de acordo com diversos crit\u00e9rios \u2014de cient\u00edficos a sociais\u2014 em um concurso que em 2020 se inscreveram 175 modelos de cidades.<\/p>\n<p class=\"\">N\u00fcwa ser\u00e1 constru\u00edda na vertical, escavada em uma encosta \u201ccom\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/07\/25\/ciencia\/1532520813_122165.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-link-track-dtm=\"\">abundante acesso \u00e0 \u00e1gua<\/a>, em Tempe Mensa\u201d, destacam no relat\u00f3rio. Esse tipo de constru\u00e7\u00e3o \u201cprotege os habitantes da radia\u00e7\u00e3o, dos micrometeoritos e proporciona luz solar indireta. Tamb\u00e9m resolve as diferen\u00e7as de press\u00e3o e temperatura entre o interior e o exterior\u201d. No total, as moradias ser\u00e3o constru\u00eddas em cinco \u00e1reas de 200.000 habitantes cada, planejadas em um sistema de t\u00faneis. Seus moradores ter\u00e3o cerca de 50 metros quadrados por pessoa, mas com grandes espa\u00e7os comuns. \u201cOs primeiros colonos plantar\u00e3o as sementes para criar grandes \u00e1reas verdes que dotar\u00e3o o entorno de um ambiente mais amig\u00e1vel. Os t\u00faneis ter\u00e3o grandes janelas para aproveitar a luz, que \u00e9 mais suave que a da Terra\u201d, explica a engenheira. Para produzir oxig\u00eanio ser\u00e3o necess\u00e1rios 100 metros quadrados de plantas por pessoa.<\/p>\n<p class=\"\">Os cientistas imaginaram uma cidade \u201ccom todos os seus sistemas, partes, organismos, edif\u00edcios e servi\u00e7os constru\u00eddos apenas com recursos locais\u201d, escrevem no relat\u00f3rio. Mas antes, advertem, um sistema de sementes precisa ser instalado. Detrell \u00e9 uma grande especialista no assunto, pois trabalha h\u00e1 anos no fornecimento de algas aos astronautas para suas viagens ao espa\u00e7o. \u201cPensamos em algas que sirvam n\u00e3o apenas\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/ciencia\/2020-06-24\/descoberto-um-rastro-nunca-visto-do-oxigenio-em-marte.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-link-track-dtm=\"\">para produzir oxig\u00eanio<\/a>, mas tamb\u00e9m para reciclar a \u00e1gua e que possamos com\u00ea-las\u201d, explica. O plano \u00e9 construir esse sistema em v\u00e1rias fases.<\/p>\n<p class=\"\">A Esta\u00e7\u00e3o Espacial Internacional, na qual vivem seis astronautas, seria o modelo mais pr\u00f3ximo de uma vida extraterrestre. Eles reciclam quase toda a \u00e1gua que usam, mas recebem todos os alimentos da Terra.<\/p>\n<p class=\"\">Viajar para N\u00fcwa e come\u00e7ar uma vida l\u00e1 custar\u00e1 cerca de 300.000 euros (cerca de 1,9 milh\u00e3o de reais). \u201cO plano \u00e9 que\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/ciencia\/2021-07-21\/o-dilema-da-carreira-espacial-de-jeff-bezos-e-richard-branson-desenvolvimento-tecnologico-ou-brincadeira-para-bilionarios.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-link-track-dtm=\"\">com esse dinheiro se pague a viagem<\/a>, que durar\u00e1 oito meses, e as primeiras coisas b\u00e1sicas. A ideia de comunidade \u00e9 a que prevalecer\u00e1. Em princ\u00edpio, n\u00e3o haver\u00e1 dinheiro. Cada um contribuir\u00e1 com seu conhecimento e trabalho e em troca receber\u00e1 o essencial para desenvolver sua vida. Haver\u00e1 hospitais, escolas, tudo o que \u00e9 necess\u00e1rio, a cargo de profissionais. E l\u00e1 se nascer\u00e1 e se morrer\u00e1\u201d, explica Detrell.<\/p>\n<p class=\"\">Gisela Detrell sempre sonhou com as alturas. Ela o fez quando participou daquele concurso em seu col\u00e9gio e o faz agora ao projetar esta cidade em Marte. \u201cN\u00e3o vou v\u00ea-la, mas daqui a 100 anos ser\u00e1 poss\u00edvel ter uma casa l\u00e1. Tenho certeza\u201d, afirma.<\/p>\n<p class=\"\">Jorge Pla-Garc\u00eda, cientista do Centro de Astrobiologia (CAB), trabalha na simula\u00e7\u00e3o por meio de modelos da\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/03\/30\/ciencia\/1490874960_198089.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-link-track-dtm=\"\">atmosfera de Marte<\/a>, realizando estudos meteorol\u00f3gicos das regi\u00f5es de aterrissagem das miss\u00f5es Curiosity, InSight e Mars 2020. O especialista qualifica de \u201cformid\u00e1vel\u201d o projeto de N\u00fcwa, do qual n\u00e3o participou. \u201cGostemos ou n\u00e3o, vamos ter de viver em outros planetas. Seremos uma esp\u00e9cie interplanet\u00e1ria porque estamos castigando excessivamente a Terra.\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/ciencia\/2021-09-05\/toby-ord-a-probabilidade-de-nao-sobrevivermos-no-proximo-seculo-e-de-uma-em-seis.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-link-track-dtm=\"\">Teremos de buscar recursos no espa\u00e7o<\/a>\u201d, explica.<\/p>\n<p class=\"\">Pla-Garc\u00eda, no entanto, acredita que primeiro ser\u00e3o\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/ciencia\/2020-10-26\/nasa-confirma-a-existencia-de-agua-na-lua.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-link-track-dtm=\"\">estabelecidas as bases na Lua<\/a>. \u201c\u00c9 mais perto da Terra e a vantagem \u00e9 que j\u00e1 estivemos l\u00e1. As condi\u00e7\u00f5es de vida na Lua\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/09\/25\/ciencia\/1569367683_361988.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-link-track-dtm=\"\">s\u00e3o muito mais dif\u00edceis do que em Marte<\/a>, que tem atmosfera, mas para nos estabelecermos no planeta vermelho teremos de passar antes por l\u00e1\u201d. E lembra que tanto o Jap\u00e3o quanto os Estados Unidos j\u00e1 est\u00e3o trabalhando em uma \u201ccidade lunar\u201d. \u201cMarte ser\u00e1 um lugar para se estabelecer, n\u00e3o um lugar para ir, pousar e retornar. Mas no momento n\u00e3o temos recursos nem dinheiro\u201d, acrescenta. Pla-Garc\u00eda \u00e9 membro das tr\u00eas miss\u00f5es que a NASA tem na superf\u00edcie de Marte. \u201cN\u00e3o veremos essa cidade, mas estou convencido de que existir\u00e1\u201d, vaticina.<\/p>\n<p class=\"\">A humanidade j\u00e1\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/economia\/2021-08-08\/2021-odisseia-bilionaria-no-espaco.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-link-track-dtm=\"\">demonstrou sua capacidade de explorar o Sistema Solar<\/a>. \u201cUm bom n\u00famero de sondas o exploram h\u00e1 d\u00e9cadas, algumas das quais chegaram inclusive al\u00e9m de seus limites. Essas tentativas, no entanto, n\u00e3o s\u00e3o autossustent\u00e1veis, pois ainda dependem dos suprimentos da Terra. Portanto, o pr\u00f3ximo desafio \u00e9 garantir que os humanos possam viver em outro mundo de maneira sustent\u00e1vel e independente\u201d, apontam os respons\u00e1veis pelo projeto em seu estudo. \u201cDadas as tecnologias atuais, as op\u00e7\u00f5es mais vi\u00e1veis para os assentamentos humanos s\u00e3o a Lua, alguns asteroides e Marte. O planeta parece ser a melhor op\u00e7\u00e3o porque tem algumas condi\u00e7\u00f5es semelhantes \u00e0s da Terra (por exemplo, uma dura\u00e7\u00e3o do dia muito similar), \u00e9 relativamente pr\u00f3ximo e cont\u00e9m os elementos b\u00e1sicos necess\u00e1rios para sustentar um assentamento\u201d, acrescentam.<\/p>\n<p class=\"\">Marte\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/04\/24\/ciencia\/1556104206_574077.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-link-track-dtm=\"\">\u00e9 um ambiente hostil<\/a>\u00a0e\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/ciencia\/2021-02-20\/as-primeiras-imagens-em-cores-de-marte-feitas-pela-nave-perseverance.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-link-track-dtm=\"\">ainda n\u00e3o foi totalmente explorado<\/a>, mas, ao contr\u00e1rio de outros planetas do Sistema Solar, pode fornecer as mat\u00e9rias-primas necess\u00e1rias para sustentar um assentamento humano. Al\u00e9m da atmosfera rica em carbono, possui \u00e1gua e muitos minerais. O oxig\u00eanio e o sil\u00edcio tamb\u00e9m s\u00e3o abundantes na superf\u00edcie \u201ce a Curiosity encontrou nitrog\u00eanio biologicamente \u00fatil\u201d, advertem os cientistas.<\/p>\n<p class=\"\">Em N\u00fcwa, cidade idealizada por Detrell, n\u00e3o haver\u00e1 carros, explica a cientista. Os deslocamentos ser\u00e3o feitos em\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2020\/09\/22\/eps\/1600792496_989852.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-link-track-dtm=\"\">passarelas autom\u00e1ticas, elevadores e bicicletas<\/a>. Ser\u00e1 poss\u00edvel caminhar, mas a maneira de andar ser\u00e1 diferente. Devido \u00e0 menor gravidade \u2014um ter\u00e7o inferior que a da Terra\u2014 se andar\u00e1 a pequenos saltos, portanto ao desenhar os espa\u00e7os foi levado em considera\u00e7\u00e3o que as alturas devem ser maiores. \u201cA cidade deve proporcionar um ambiente seguro para os habitantes e tamb\u00e9m oferecer todos os servi\u00e7os necess\u00e1rios para que seja um lugar agrad\u00e1vel para viver. Seu tamanho exige um plano de crescimento sustent\u00e1vel em termos de materiais e energia\u201d, explica Detrell, que v\u00ea nesse projeto n\u00e3o apenas a maneira de come\u00e7ar a vida em outro planeta diferente do nosso, mas tamb\u00e9m a possibilidade de melhorar a que existe na Terra. \u201cEstamos pensando em uma cidade sustent\u00e1vel com crit\u00e9rios muito exigentes, muitos dos quais tamb\u00e9m melhorariam a vida no nosso planeta\u201d, insiste a cientista.<\/p>\n<p class=\"\">Por enquanto, os membros do projeto continuar\u00e3o trabalhando nele de maneira mais detalhada. Por exemplo, far\u00e3o testes de como sobreviver nesses habit\u00e1culos em uma regi\u00e3o rochosa dos Estados Unidos, cuja localiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o querem revelar. \u201cExperimentos semelhantes j\u00e1 foram feitos na R\u00fassia\u201d, enfatiza Detrell. Ser\u00e1 o momento em que os psic\u00f3logos refor\u00e7ar\u00e3o o trabalho dos engenheiros e arquitetos para\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/ciencia\/2021-03-28\/a-dificil-vida-do-astronauta-gagarin-na-terra.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-link-track-dtm=\"\">estudar o impacto que essa nova forma de vida<\/a>\u00a0em t\u00faneis ter\u00e1 nos humanos.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/eps\/2021-11-05\/assim-viveremos-em-marte.html\"><em><strong>Fonte: El Pa\u00eds<\/strong><\/em><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ela come\u00e7ou aos 14 anos fazendo avi\u00f5es de papel para um trabalho do col\u00e9gio. Agora projetou uma cidade\u00a0em Marte. Gisela Detrell diz que viver naquele planeta \u00e9 poss\u00edvel. Em colabora\u00e7\u00e3o com cerca de 20 engenheiros, arquitetos e cientistas de v\u00e1rios pa\u00edses, planejou moradias para um milh\u00e3o de pessoas naquele planeta. 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