{"id":84290,"date":"2021-08-16T11:00:08","date_gmt":"2021-08-16T14:00:08","guid":{"rendered":"https:\/\/www.institutodeengenharia.org.br\/site\/?p=84290"},"modified":"2021-08-16T11:13:36","modified_gmt":"2021-08-16T14:13:36","slug":"ie-na-midia-riqueza-que-vem-da-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.institutodeengenharia.org.br\/site\/2021\/08\/16\/ie-na-midia-riqueza-que-vem-da-vida\/","title":{"rendered":"IE NA M\u00cdDIA &#8211; Riqueza que vem da vida"},"content":{"rendered":"<p>A fonte mais promissora de gera\u00e7\u00e3o de riqueza e valor no Brasil das pr\u00f3ximas d\u00e9cadas pode estar bem debaixo dos nossos p\u00e9s e diante dos nossos olhos. A biodiversidade dos seis biomas do pa\u00eds \u2013 ou sete, se considerarmos o mar \u2013, a disponibilidade de terra, \u00e1gua e incid\u00eancia de sol e as t\u00e9cnicas avan\u00e7adas de cultivo em v\u00e1rias culturas s\u00e3o a base de um tipo de atividade econ\u00f4mica regenerativa, circular e sustent\u00e1vel que ganha destaque no mundo h\u00e1 mais de uma d\u00e9cada: a bioeconomia.<\/p>\n<p>A transi\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica sustent\u00e1vel abre uma oportunidade \u00fanica para o Brasil, pa\u00eds com a maior biodiversidade do planeta. Al\u00e9m da floresta amaz\u00f4nica, c\u00e9lebre pela profus\u00e3o de esp\u00e9cies vegetais e animais, o Cerrado \u00e9 a savana tropical mais biodiversa do mundo e a Caatinga a estepe sav\u00e2nica mais biodiversa, segundo o climat\u00f3logo Carlos Nobre, pesquisador s\u00eanior do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e copresidente do Painel Cient\u00edfico para a Amaz\u00f4nia, iniciativa da\u00a0Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU) para reunir conhecimento sobre a regi\u00e3o. O mar, nos 8.500 quil\u00f4metros de costa, tamb\u00e9m oferece imenso potencial a ser explorado. Mas a ocasi\u00e3o exige um esfor\u00e7o para adaptar processos econ\u00f4micos e a mudan\u00e7a precisa ser r\u00e1pida: com a crise clim\u00e1tica e o avan\u00e7o do desmatamento, o risco de que esses recursos se percam \u00e9 real.<\/p>\n<p>H\u00e1 v\u00e1rias defini\u00e7\u00f5es para a bioeconomia. Em 2009, a Organiza\u00e7\u00e3o para a Coopera\u00e7\u00e3o e o Desenvolvimento Econ\u00f4mico (OCDE) publicou o documento <em>Bioeconomia at\u00e9 2030: Projetando uma agenda de pol\u00edticas<\/em>, que define o termo como \u201cum mundo onde a biotecnologia representa uma parcela significativa da produ\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, guiada por princ\u00edpios de desenvolvimento sustent\u00e1vel\u201d. No Brasil, o ent\u00e3o Minist\u00e9rio da Ci\u00eancia, Tecnologia, Inova\u00e7\u00f5es e Comunica\u00e7\u00f5es (MCTIC, hoje MCTI) publicou em 2019 um <em>Plano de A<\/em>c\u0327a\u0303<em>o em Ci<\/em>e\u0302<em>ncia, Tecnologia e Inova<\/em>c\u0327a\u0303<em>o em Bioeconomia<\/em> (Pacti Bioeconomia), em que o conceito foi definido como o \u201cconjunto de atividades econ\u00f4micas baseadas na utiliza\u00e7\u00e3o sustent\u00e1vel e inovadora de recursos biol\u00f3gicos renov\u00e1veis (biomassa), em substitui\u00e7\u00e3o \u00e0s mat\u00e9rias-primas f\u00f3sseis, para a produ\u00e7\u00e3o de alimentos, ra\u00e7\u00f5es, materiais, produtos qu\u00edmicos, combust\u00edveis e energia produzidos por meio de processos biol\u00f3gicos, qu\u00edmicos, termoqu\u00edmicos ou f\u00edsicos\u201d.<\/p>\n<p>De acordo com o economista Edson Talamini, coordenador do N\u00facleo de Estudos em\u00a0Bioeconomia\u00a0Aplicada ao Agroneg\u00f3cio (NEB-Agro) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a bioeconomia envolve a an\u00e1lise dos processos de produ\u00e7\u00e3o segundo um conceito de sustentabilidade mais forte do que somente as emiss\u00f5es de g\u00e1s carb\u00f4nico. Tamb\u00e9m entram na conta a sustentabilidade social e econ\u00f4mica, mas, sobretudo, a pr\u00f3pria efici\u00eancia termodin\u00e2mica. \u201cAlguns processos podem parecer sustent\u00e1veis do ponto de vista do pre\u00e7o ou da gera\u00e7\u00e3o de emprego, mas, quando olhamos de perto, o gasto para gerar um efeito \u00e9 maior, com consequ\u00eancias irrevers\u00edveis\u201d, afirma. \u201cA bioeconomia trata de processos no n\u00edvel molecular e permite comparar atividades produtivas em termos de sustentabilidade.\u201d<\/p>\n<div id=\"attachment_403880\" class=\"wp-caption alignright\" style=\"max-width: 1150px;\">\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<p><strong>Reindustrializa\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Pesquisadores brasileiros envolvidos com a bioeconomia identificam no conceito n\u00e3o apenas uma oportunidade de crescimento econ\u00f4mico, mas tamb\u00e9m o ponto de partida de um novo ciclo de industrializa\u00e7\u00e3o. O epicentro desse dinamismo viria, provavelmente, da floresta amaz\u00f4nica. O bioma oferece condi\u00e7\u00f5es para impulsionar ind\u00fastrias fundadas na inova\u00e7\u00e3o e na sustentabilidade, segundo o documento <em>Amaz\u00f4nia e bioeconomia<\/em>, publicado recentemente pelo Instituto de Engenharia com a colabora\u00e7\u00e3o de cientistas da Embrapa, do Inpe e das universidades de S\u00e3o Paulo (USP), Estadual de Campinas (Unicamp), entre outras.<\/p>\n<p>A Amaz\u00f4nia atrai as aten\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m porque nela est\u00e1 o arco do desmatamento, al\u00e9m de sofrer com a degrada\u00e7\u00e3o ambiental causada pela constru\u00e7\u00e3o de hidrel\u00e9tricas e dos garimpos que avan\u00e7am descontroladamente, inclusive sobre terras ind\u00edgenas. Conhecido pela tese de que, a partir de um certo grau de destrui\u00e7\u00e3o da floresta, a regi\u00e3o amaz\u00f4nica poder\u00e1 passar por um processo de \u201csavaniza\u00e7\u00e3o\u201d, com a amplia\u00e7\u00e3o do per\u00edodo de seca, Nobre considera que a corrida contra o rel\u00f3gio para manter o bioma a salvo j\u00e1 est\u00e1 apertada. Dados colhidos pelo Inpe sugerem que em partes degradadas da Amaz\u00f4nia, no norte de Mato Grosso e sul do Par\u00e1, a capacidade de absor\u00e7\u00e3o de carbono j\u00e1 foi perdida e a floresta tem se convertido em emissora do principal g\u00e1s causador do efeito-estufa.<\/p>\n<p>Nobre \u00e9 idealizador do projeto Amaz\u00f4nia 4.0, que p\u00f5e o amplo bioma sul-americano no cora\u00e7\u00e3o de uma potencial revolu\u00e7\u00e3o bioindustrial. O cientista se refere ao projeto como \u201cbioeconomia da floresta em p\u00e9\u201d, que se desdobraria em produtos com diferentes graus de complexidade e aplica\u00e7\u00e3o de tecnologia. Conjugando a pesquisa biotecnol\u00f3gica com t\u00e9cnicas extrativas, de manejo florestal e agricultura regenerativa, a iniciativa se prop\u00f5e a abrir uma \u201cterceira via amaz\u00f4nica\u201d para a ocupa\u00e7\u00e3o da floresta. Essa via se contrap\u00f5e \u00e0 ideia de simplesmente reservar grandes \u00e1reas para preserva\u00e7\u00e3o, deixando o restante para atividades econ\u00f4micas pouco sustent\u00e1veis (primeira via) e ao princ\u00edpio de intensifica\u00e7\u00e3o da agropecu\u00e1ria, minera\u00e7\u00e3o e gera\u00e7\u00e3o de energia nas \u00e1reas j\u00e1 ocupadas (segunda via).<\/p>\n<p>Para Jos\u00e9 Vitor Bomtempo, coordenador do Grupo de Estudos em Bioeconomia da Escola de Qu\u00edmica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (GEBio-EQ\/UFRJ), a possibilidade de reindustrializar o pa\u00eds em novas bases \u00e9 uma oportunidade \u00fanica. Diferentemente do esfor\u00e7o de moderniza\u00e7\u00e3o do s\u00e9culo passado, n\u00e3o se trata mais de \u201ccorrer atr\u00e1s\u201d de tecnologias e setores j\u00e1 existentes. Dessa vez, tanto a possibilidade quanto o desafio est\u00e3o em colocar o pa\u00eds na fronteira tecnol\u00f3gica desde o princ\u00edpio.<\/p>\n<p>Em 2018, o estudo <em>A bioeconomia brasileira em n\u00fameros<\/em>, publicado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econ\u00f4mico e Social (BNDES), calculou que o valor de neg\u00f3cios atribu\u00edveis \u00e0 bioeconomia brasileira somava US$ 285,9 bilh\u00f5es no pa\u00eds, incluindo exporta\u00e7\u00f5es. O estudo \u00e9 assinado por Bomtempo, o engenheiro Martim Francisco de Oliveira e Silva e o engenheiro qu\u00edmico Felipe dos Santos Pereira, ambos do BNDES. \u00c0 \u00e9poca, o valor correspondia a 13,8% do PIB do pa\u00eds. \u00c9 uma porcentagem um pouco abaixo daquela calculada em 2013 para a bioeconomia praticada na Uni\u00e3o Europeia, que ficou em 14,3%.<\/p>\n<div id=\"attachment_403872\" class=\"wp-caption alignright\" style=\"max-width: 1150px;\">\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<p>Isso n\u00e3o significa que o Brasil aproveite bem o seu potencial. \u201cEsse n\u00famero incorpora a produ\u00e7\u00e3o e a exporta\u00e7\u00e3o de <em>commodities<\/em> agr\u00edcolas, que agregam pouco valor. A chamada bioeconomia avan\u00e7ada \u00e9 pequena no pa\u00eds\u201d, afirma Bomtempo. O estudo mostra que o atual conte\u00fado da bioeconomia na ind\u00fastria e nos servi\u00e7os alcan\u00e7a meros US$ 101,4 bilh\u00f5es, correspondendo a 2,6% do valor da produ\u00e7\u00e3o nesses setores no Brasil. \u201cO que esses dados mostram \u00e9 um ponto de partida. \u00c9 o piso da bioeconomia brasileira\u201d, completa.<\/p>\n<p>Os mais conhecidos exemplos da bioeconomia no Brasil s\u00e3o os de grandes empresas que exploram a biodiversidade para produzir bens de consumo, combust\u00edveis e materiais biodegrad\u00e1veis. \u00c9 o caso da Natura, no setor de cosm\u00e9ticos (<a href=\"#Bioeconomia-Natura_306pt\"><em>ver box<\/em><\/a>). O setor de energia apresenta alguns dos principais casos de sucesso. A Ra\u00edzen produz etanol de segunda gera\u00e7\u00e3o em uma usina de Piracicaba (SP), assim como a Granbio, em S\u00e3o Miguel dos Campos (AL). O etanol de segunda gera\u00e7\u00e3o \u00e9 produzido a partir do baga\u00e7o da cana e outros res\u00edduos agr\u00edcolas.<\/p>\n<p>Segundo Bomtempo, um obst\u00e1culo para o pleno desenvolvimento da bioeconomia \u00e9 o car\u00e1ter ainda esparso dessas iniciativas. Ele toma o exemplo das refinarias de petr\u00f3leo e dos polos petroqu\u00edmicos para explicar o processo de agrega\u00e7\u00e3o de processos industriais que dever\u00e1 se reproduzir com as chamadas biorrefinarias. Assim como o setor petrol\u00edfero extrai das mat\u00e9rias-primas uma enorme diversidade de produtos, desde combust\u00edveis at\u00e9 princ\u00edpios ativos de medicamentos, as biorrefinarias poderiam aproveitar todas as partes de insumos agr\u00edcolas e extrativos (casca, polpa, baga\u00e7o, palha, caro\u00e7o) para gerar alimentos, biocombust\u00edveis e outros biomateriais.<\/p>\n<p>Bomtempo aposta tamb\u00e9m em biorrefinarias de segunda gera\u00e7\u00e3o, polos onde diversas empresas atuam de modo coordenado, com os res\u00edduos de umas servindo de mat\u00e9ria-prima para outras e as cadeias integradas, em \u201csimbiose industrial\u201d. Um projeto nessa dire\u00e7\u00e3o est\u00e1 instalado nas proximidades de Reims, na Fran\u00e7a, e se chama ARD (Agroind\u00fastria Pesquisas e Desenvolvimentos). \u201cAli ocorrem atividades diferentes, que se complementam. O res\u00edduo de uma ind\u00fastria \u00e9 insumo de outra. Usam trigo, beterraba, alfafa, produtos muito diversos, para produzir diferentes tipos de bens. \u00c9 um n\u00facleo industrial harmonioso, que se complementa, incluindo uma unidade de pesquisa\u201d, resume.<\/p>\n<p>O economista com gradua\u00e7\u00e3o em engenharia agron\u00f4mica Jos\u00e9 Maria Ferreira Jardim da Silveira, do Instituto de Economia da Unicamp, refere-se a essa tend\u00eancia, que considera essencial para a viabilidade da bioeconomia, como ganho de \u201ceconomia de escopo\u201d, ou seja, da efici\u00eancia da produ\u00e7\u00e3o que decorre da variedade dos produtos, e n\u00e3o do volume. Assim, se hoje algumas fazendas de cana-de-a\u00e7\u00facar geram energia pela queima da palha e do baga\u00e7o, Silveira sugere que poderia se desenvolver uma f\u00e1brica de biog\u00e1s de grande porte, que aproveite tamb\u00e9m o lixo das cidades. Em seguida, outros processos se somariam. \u201cA vinha\u00e7a que resulta da produ\u00e7\u00e3o de etanol de segunda gera\u00e7\u00e3o pode produzir biog\u00e1s. J\u00e1 a celulose tem compostos que tamb\u00e9m fornecem biocombust\u00edveis. E assim come\u00e7a a se desenvolver uma biorrefinaria eficiente\u201d, completa.<\/p>\n<p>Por enquanto, esses modelos ainda est\u00e3o engatinhando, com alguns prot\u00f3tipos de biorrefinarias funcionando em laborat\u00f3rios de universidades e startups. Na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), no laborat\u00f3rio do Grupo de Intensifica\u00e7\u00e3o, Modelagem, Simula\u00e7\u00e3o, Controle e Otimiza\u00e7\u00e3o de Processos (Gimscop), dirigido pelo engenheiro qu\u00edmico Jorge Ot\u00e1vio Trierweiler, pesquisadores desenvolvem Unidades Modulares Automatizadas (UMA) com usinas descentralizadas e monitoradas remotamente por uma central. Nessas unidades, Trierweiler destaca tr\u00eas pesquisas: a gera\u00e7\u00e3o de etanol, a\u00e7\u00facar e aguardente a partir da batata-doce; a pir\u00f3lise r\u00e1pida (um processo necess\u00e1rio para obten\u00e7\u00e3o de \u00f3leo a partir de biomassa); e o desenvolvimento de microalgas para uso em biorremedia\u00e7\u00e3o (limpeza) de solos e \u00e1gua, al\u00e9m da produ\u00e7\u00e3o de bio-\u00f3leo e outros derivados. Segundo Trierweiler, os dois primeiros processos se encontram nas fases de matura\u00e7\u00e3o TRL (Technological Readiness Level) 3 e 4, de uma escala com nove n\u00edveis.<\/p>\n<div id=\"attachment_403876\" class=\"wp-caption alignright vertical\" style=\"max-width: 810px;\">\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<p><strong>Pesquisa avan\u00e7ada<\/strong><\/p>\n<p>A bioeconomia exige algo al\u00e9m da biodiversidade e da disponibilidade de recursos. Ela \u00e9 intensiva em conhecimento. Precisa tanto da ci\u00eancia mais avan\u00e7ada, na pesquisa de novos produtos e no aperfei\u00e7oamento dos existentes, quanto dos saberes tradicionais, mantidos pelas comunidades coletoras que manejam a floresta e outros biomas h\u00e1 gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>No plano da pesquisa avan\u00e7ada, tr\u00eas programas da FAPESP t\u00eam v\u00ednculo com a bioeconomia, embora sejam anteriores ao uso do termo no Brasil, observa o f\u00edsico Carlos Henrique de Brito Cruz, vice-presidente s\u00eanior de Redes de Pesquisa da editora acad\u00eamica Elsevier e diretor cient\u00edfico da Funda\u00e7\u00e3o entre 2005 e 2020. O Programa de Pesquisas em Caracteriza\u00e7\u00e3o, Conserva\u00e7\u00e3o, Restaura\u00e7\u00e3o e Uso Sustent\u00e1vel da Biodiversidade (Biota), lan\u00e7ado em 1999, visa catalogar e caracterizar a biodiversidade brasileira. O Programa de Pesquisa em Bioenergia (Bioen) desde 2009 investiga fontes de energia como bioetanol, biodiesel e biog\u00e1s, enquanto o Programa FAPESP de Pesquisa sobre Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas Globais (PFPMCG), desse mesmo ano, visa propor medidas e tecnologias de mitiga\u00e7\u00e3o de consequ\u00eancias das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas.<\/p>\n<p>\u201cAntes mesmo de o mundo falar de bioeconomia, os cientistas trouxeram esse assunto para a FAPESP, chamando a aten\u00e7\u00e3o para a import\u00e2ncia da bioenergia, da biodiversidade, da mudan\u00e7a clim\u00e1tica\u201d, afirma Brito Cruz, um dos participantes do estudo <em>Amaz\u00f4nia e bioeconomia<\/em>. \u201cS\u00e3o exemplos de como a ci\u00eancia mostra um caminho para um pa\u00eds, porque \u00e9 papel do cientista ver mais longe, estudando o que vem pela frente e conectando com os problemas atuais.\u201d<\/p>\n<p>\u201cO Bioen come\u00e7ou com foco em explorar os potenciais da cana-de-a\u00e7\u00facar, mas j\u00e1 com uma preocupa\u00e7\u00e3o forte em expandir as fontes de biomassa, que s\u00e3o riqu\u00edssimas no Brasil\u201d, relembra a bioqu\u00edmica Glaucia Souza, professora do Instituto de Qu\u00edmica da USP e integrante da coordena\u00e7\u00e3o do programa. \u201cSab\u00edamos que seria um tema crucial para o futuro aqui e no mundo, com a possibilidade de explorar outros biomateriais, substituindo at\u00e9 mesmo o cimento, a partir da lignina.\u201d<\/p>\n<p>Para o f\u00edsico Paulo Artaxo, professor do Instituto de F\u00edsica da USP e integrante da coordena\u00e7\u00e3o do Programa de Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas, uma das motiva\u00e7\u00f5es para sua cria\u00e7\u00e3o\u00a0 foi a constata\u00e7\u00e3o de que \u201cnenhum setor econ\u00f4mico vai ser poupado dos impactos das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. Vamos precisar mudar nosso sistema socioecon\u00f4mico, porque o atual n\u00e3o \u00e9 sustent\u00e1vel nem mesmo a curto prazo em um planeta com recursos naturais finitos\u201d.<\/p>\n<p>\u201cA quest\u00e3o \u00e9: como vai ser a transi\u00e7\u00e3o para um sistema econ\u00f4mico mais sustent\u00e1vel, que use os recursos naturais do planeta de modo mais inteligente e eficiente e que diminua as desigualdades sociais? S\u00e3o quest\u00f5es-chave, que precisam ser respondidas pela ci\u00eancia. Se a resposta n\u00e3o tiver base cient\u00edfica s\u00f3lida, nossa sociedade vai estar sempre \u00e0 merc\u00ea de interesses econ\u00f4micos\u201d, afirma.<\/p>\n<div id=\"attachment_403884\" class=\"wp-caption alignright\" style=\"max-width: 1150px;\">\n<p class=\"wp-caption-text\">\n<\/div>\n<p>De acordo com Brito Cruz, a ado\u00e7\u00e3o de tecnologias e conhecimentos desenvolvidos em universidades e laborat\u00f3rios brasileiros fornece a ocasi\u00e3o para pensar as rela\u00e7\u00f5es entre o setor privado e o Estado. Em sua avalia\u00e7\u00e3o, este \u00faltimo deve atuar onde as empresas n\u00e3o investem, seja por excesso de risco, seja por escassez de retorno. O investimento estatal deve complementar e induzir, mas n\u00e3o substituir, o investimento privado em P&amp;D.<\/p>\n<p>Paulo Camuri, economista s\u00eanior do World Resources Institute do Brasil (WRI Brasil), considera que a sinaliza\u00e7\u00e3o do setor p\u00fablico \u00e9 indispens\u00e1vel, ainda que o pa\u00eds atravesse um momento de restri\u00e7\u00e3o fiscal. \u201cO governo d\u00e1 as diretrizes de pol\u00edtica, com planos a serem implementados. Institui\u00e7\u00f5es como o BNDES podem investir parte do que \u00e9 necess\u00e1rio. Em seguida, o capital privado entra com a maior parcela do recurso. As empresas est\u00e3o procurando projetos para viabilizar uma economia sustent\u00e1vel, mas nem sempre sabem onde. O governo pode reduzir a incerteza\u201d, argumenta.<\/p>\n<p>No estudo \u201cUma nova economia para uma nova era\u201d, lan\u00e7ado no ano passado,\u00a0 pesquisadores do WRI Brasil mapearam os benef\u00edcios e potencialidades da descarboniza\u00e7\u00e3o da economia brasileira. A bioeconomia \u00e9 um componente importante da proposta do WRI. \u201cO capital natural, se bem manejado, vai ser o grande diferencial do novo modelo de crescimento do pa\u00eds, com maior inclus\u00e3o social. N\u00e3o \u00e9 preciso escolher entre crescer mais, com mais inclus\u00e3o social, e ser ambientalmente mais sustent\u00e1vel. A descarboniza\u00e7\u00e3o leva a um crescimento maior e a mais inclus\u00e3o social do que se continuarmos a fazer como hoje\u201d, afirma Camuri.<\/p>\n<p>Na \u00e1rea rural, um exemplo de como o setor p\u00fablico pode dar diretrizes para a atua\u00e7\u00e3o do setor privado \u00e9 o Plano Setorial de Mitiga\u00e7\u00e3o e de Adapta\u00e7\u00e3o \u00e0s Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas para a Consolida\u00e7\u00e3o de uma Economia de Baixa Emiss\u00e3o de Carbono na Agricultura (Plano ABC), indica Camuri. Lan\u00e7ado em 2010 pelo Minist\u00e9rio da Agricultura, o plano ganhou uma nova vers\u00e3o em abril deste ano, o ABC+. \u201cO plano facilita o acesso a diversas tecnologias que reduzem emiss\u00f5es, como a integra\u00e7\u00e3o lavoura, pecu\u00e1ria, floresta\u201d, diz. Os maiores obst\u00e1culos \u00e0 sua implanta\u00e7\u00e3o, explica o economista, t\u00eam sido a assist\u00eancia t\u00e9cnica insuficiente e a falta de recursos. A pol\u00edtica federal de financiamento \u00e0 produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola (plano Safra) movimentou R$ 236 bilh\u00f5es em 2020, um ter\u00e7o do necess\u00e1rio para a produ\u00e7\u00e3o agropecu\u00e1ria no Brasil. O plano ABC responde por pouco mais de 1% desse valor: R$ 2,5 bilh\u00f5es em 2020. Para Camuri, a transi\u00e7\u00e3o para a bioeconomia requer o fortalecimento do Plano ABC+, \u201cna dire\u00e7\u00e3o de fazer com que ele seja praticamente todo o plano Safra. Essa seria uma sinaliza\u00e7\u00e3o importante para o setor privado\u201d.<\/p>\n<p>O produto que mais se destaca como exemplo bem-sucedido de extrativismo e manejo florestal \u00e9 o a\u00e7a\u00ed. Na Amaz\u00f4nia, esse fruto da palmeira movimenta R$ 3 bilho\u0303es ao ano, com impacto econ\u00f4mico local de R$ 144 milho\u0303es na extra\u00e7\u00e3o e R$ 146 milho\u0303es no cultivo, de acordo com o \u00faltimo balanc\u0327o social publicado pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecu\u00e1ria (Embrapa), em 2019. Consumido originalmente com farinha e peixe, o produto ganhou novas formula\u00e7\u00f5es em outras regi\u00f5es do Brasil e na \u00faltima d\u00e9cada passou a ser exportado. Somando o a\u00e7a\u00ed e produtos como baba\u00e7u, castanha, cumaru, a regi\u00e3o Norte se destaca na produ\u00e7\u00e3o florestal n\u00e3o madeireira com 45% da produ\u00e7\u00e3o nacional, totalizando mais de R$ 700 milh\u00f5es ao ano. Em segundo lugar, aparece a regi\u00e3o Sul, com 29% da produ\u00e7\u00e3o extrativista, ou R$ 445 milh\u00f5es anuais.<\/p>\n<p>No total, o extrativismo n\u00e3o madeireiro movimenta anualmente R$ 1,6 bilh\u00e3o no pa\u00eds, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE). A engenheira-agr\u00f4noma Sandra Regina Afonso, pesquisadora do Servi\u00e7o Florestal Brasileiro e docente da Universidade de Bras\u00edlia (UnB), ressalva que o dado n\u00e3o \u00e9 preciso e certamente subestima o valor gerado por essas atividades. Para produtos como o pequi, colhido no norte de Minas Gerais e no Centro-Oeste e Nordeste, at\u00e9 2014 era contabilizado somente o pequi utilizado para a produ\u00e7\u00e3o de \u00f3leo, mas n\u00e3o o fruto para alimento. Para o baba\u00e7u, do Nordeste e do Norte, entra no c\u00e1lculo somente a am\u00eandoa, mas n\u00e3o os produtos oriundos do coco.<\/p>\n<div id=\"attachment_403888\" class=\"wp-caption alignright\" style=\"max-width: 1150px;\">\n<p class=\"wp-caption-text\">\n<\/div>\n<p>Afonso organizou o livro <em>Bioeconomia da floresta: A conjuntura da produ\u00e7\u00e3o florestal n\u00e3o madeireira no brasil<\/em>, publicado pelo Servi\u00e7o Florestal Brasileiro. A publica\u00e7\u00e3o apresenta informa\u00e7\u00f5es sobre os principais produtos n\u00e3o madeireiros e aborda pol\u00edticas e programas que tratam do tema, como o Plano Nacional de Promo\u00e7\u00e3o das Cadeias dos Produtos da Sociobiodiversidade, de 2009, e o Programa Bioeconomia Brasil Sociobiodiversidade, de 2019. \u201cAtualmente, o extrativismo de produtos florestais n\u00e3o madeireiros se relaciona com o manejo da floresta. O uso dos produtos est\u00e1 vinculado \u00e0 cultura das pessoas\u201d, comenta. \u201cA palavra sociobiodiversidade expressa esse novo entendimento. Quando entra a palavra bioeconomia, soma-se o tema da tecnologia e inova\u00e7\u00e3o. Os produtos da floresta come\u00e7am a ganhar valor agregado e qualidade, para serem comercializados em escala maior.\u201d<\/p>\n<p><strong>Desafios<\/strong><br \/>\nOs pesquisadores alertam que n\u00e3o ser\u00e1 simples fomentar o desenvolvimento e a reindustrializa\u00e7\u00e3o pela bioeconomia no Brasil. A iniciativa exigir\u00e1 a converg\u00eancia de atua\u00e7\u00e3o do Estado, do setor privado e das institui\u00e7\u00f5es cient\u00edficas. \u201cA bioeconomia \u00e9 uma bandeira, um princ\u00edpio de a\u00e7\u00e3o que gera pol\u00edticas p\u00fablicas e incentivos aos agentes privados\u201d, resume Silveira, da Unicamp. Como exemplo, o economista aponta para a import\u00e2ncia de afinar a regula\u00e7\u00e3o legal com o avan\u00e7o da tecnologia. Por meio da regula\u00e7\u00e3o, atinge-se o n\u00edvel de padroniza\u00e7\u00e3o necess\u00e1rio ao desenvolvimento de mercados. O exemplo de Silveira \u00e9 o biog\u00e1s, cuja forma mais simples \u00e9 obtida a partir de res\u00edduos vegetais e animais, servindo apenas para queima. \u201cCom a evolu\u00e7\u00e3o da tecnologia, surgiu o biometano que pode ser lan\u00e7ado nas redes de g\u00e1s natural que abastecem, por exemplo, as cidades. Para isso, foi preciso regula\u00e7\u00e3o e padroniza\u00e7\u00e3o, que permitiu maior escala\u201d, diz.<\/p>\n<p>Segundo Souza, da USP, um dos principais entraves ao avan\u00e7o da bioeconomia \u00e9 a falta de \u201cum esquema claro, transparente, est\u00e1vel, previs\u00edvel, de pol\u00edticas p\u00fablicas em escala global\u201d, que harmonize padr\u00f5es e legisla\u00e7\u00e3o, proporcionando a seguran\u00e7a necess\u00e1ria para empresas investirem. \u201cSe uma grande empresa de navega\u00e7\u00e3o decidir adotar um biocombust\u00edvel, por exemplo, como garantir que haver\u00e1 um mercado capaz de fornec\u00ea-lo em escala suficiente?\u201d Souza tamb\u00e9m considera que \u00e9 necess\u00e1rio evoluir em mecanismos de certifica\u00e7\u00e3o e rastreamento dos produtos, evitando que a bandeira da sustentabilidade seja usada de maneira leviana para comercializar produtos poluentes.<\/p>\n<p>A legisla\u00e7\u00e3o foi um grande entrave para o desenvolvimento do setor no Brasil ao longo das \u00faltimas d\u00e9cadas, de acordo com o bi\u00f3logo Carlos Alfredo Joly, professor do Instituto de Biologia da Unicamp e integrante da coordena\u00e7\u00e3o do programa Biota FAPESP. \u201cDesde o come\u00e7o, o Biota contempla uma dimens\u00e3o importante de bioprospec\u00e7\u00e3o [busca e identifica\u00e7\u00e3o de mol\u00e9culas e processos metab\u00f3licos de plantas, animais e microrganismos\u00a0 com potencial de aproveitamento econ\u00f4mico] com aplica\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica direta. Mas as medidas provis\u00f3rias que regularam a mat\u00e9ria [2.052\/2000 e 2186-16\/2001] trouxeram incerteza jur\u00eddica e afastaram o setor produtivo. T\u00ednhamos contatos com a ind\u00fastria farmac\u00eautica e a de cosm\u00e9ticos, mas essa regula\u00e7\u00e3o foi um golpe quase fatal\u201d, lamenta. \u201cIsso s\u00f3 mudou depois da Lei da Biodiversidade [13.123\/2015] e do Decreto que a regulamentou [8772\/2016].\u201d Embora tenham diminu\u00eddo, as dificuldades persistem, relata o bi\u00f3logo, citando a lentid\u00e3o para implementar o Sistema Nacional de Gest\u00e3o do Patrim\u00f4nio Gen\u00e9tico e do Conhecimento Tradicional Associado (SisGen).<\/p>\n<div id=\"attachment_403892\" class=\"wp-caption alignright\" style=\"max-width: 1150px;\">\n<p class=\"wp-caption-text\">\n<\/div>\n<p>Para Nobre, o desenvolvimento da bioeconomia amaz\u00f4nica passa pela instala\u00e7\u00e3o de \u201claborat\u00f3rios criativos\u201d na regi\u00e3o, em conjun\u00e7\u00e3o com o ecossistema de universidades e centros de pesquisa hoje subaproveitados. O projeto Amaz\u00f4nia 4.0 conta com instala\u00e7\u00f5es experimentais em S\u00e3o Jos\u00e9 dos Campos, em S\u00e3o Paulo, e busca financiamento para operar na pr\u00f3pria Amaz\u00f4nia. Esses laborat\u00f3rios j\u00e1 produzem derivados de cacau e cupua\u00e7u (chocolate e cupulate), al\u00e9m de azeites gourmet a partir de castanha, tucum\u00e3, bacuri e patau\u00e1.<\/p>\n<p>Apesar da exist\u00eancia do Pacti Bioeconomia, Talamini, da UFRGS, lamenta que os planos para as pol\u00edticas p\u00fablicas sejam modestos. \u201cPelo potencial que tem, o Brasil est\u00e1 acordando tarde para a bioeconomia. Existem iniciativas interessantes, na Embrapa, nas universidades, nas empresas, mas sem uma coordena\u00e7\u00e3o central\u201d, adverte. \u201cComo \u00e9 um pa\u00eds de base agr\u00edcola forte, fala-se em aproveitar res\u00edduos, fala-se em gerar energia, mas n\u00e3o se vai muito al\u00e9m. A produ\u00e7\u00e3o de conhecimento \u00e9 pouco explorada\u201d, enumera Talamini, e prop\u00f5e uma compara\u00e7\u00e3o: na Europa, as pesquisas se concentram em modos de aproveitar a biomassa. Nos Estados Unidos, a \u00eanfase est\u00e1 na biotecnologia. \u201cO Brasil poderia atacar as duas frentes, porque tem \u00e1gua, luz e terra para produzir biomassa. Tem uma biodiversidade incr\u00edvel. E tem pesquisadores para desenvolver tecnologia que transforme a biodiversidade em valor\u201d, observa.<\/p>\n<p>Bomtempo, por sua vez, chama a aten\u00e7\u00e3o para iniciativas recentes do projeto Oportunidades e Desafios da Bioeconomia (ODBio), derivadas do Pacti e conduzidas pelo Centro de Gest\u00e3o e Estudos Estrat\u00e9gicos (CGEE), do minist\u00e9rio. Segundo o professor da UFRJ, o ODBio \u00e9 um esfor\u00e7o para acelerar os avan\u00e7os no setor.<\/p>\n<p><a name=\"Bioeconomia-Natura_306pt\"><\/a>Para Talamini, a pandemia abriu os olhos do mundo para a necessidade de uma recupera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica ecol\u00f3gica, o que configura uma oportunidade enorme para o Brasil. No entanto, o potencial da bioeconomia vai depender das escolhas do pa\u00eds. \u201cNo passado, escolhemos ser exportadores de <em>commodities<\/em>. Temo que o mesmo aconte\u00e7a com a bioeconomia. Vamos exportar biodiversidade e importar materiais de alto valor agregado, se pusermos o foco s\u00f3 no insumo. \u00c9 preciso lembrar dos processos. Isso envolve integrar, incentivar e promover conhecimentos\u201d, diz.<\/p>\n<div class=\"box\">\n<p><strong>Na pele e no cabelo<\/strong><br \/>\n<em>Pioneira em cosm\u00e9ticos naturais, empresa brasileira investe em bioingredientes<\/em><\/p>\n<div id=\"attachment_403896\" class=\"wp-caption alignright\" style=\"max-width: 1150px;\">\n<p class=\"wp-caption-text\">\n<\/div>\n<p>O caso mais citado de iniciativa empresarial bem-sucedida que utiliza insumos oriundos da sociobiodiversidade em produtos vendidos mundo afora \u00e9 o da Natura, empresa brasileira do setor de cosm\u00e9ticos fundada em 1969. \u201c\u00c9 um caso interessante, porque, de fato, os cosm\u00e9ticos s\u00e3o um setor em que o Brasil tem muito potencial para avan\u00e7ar em produtos de base biol\u00f3gica\u201d, afirma o economista e engenheiro qu\u00edmico Jos\u00e9 Vitor Bomtempo, coordenador do Grupo de Estudos em Bioeconomia da Escola de Qu\u00edmica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (GEBio-EQ\/UFRJ). De acordo com a consultoria Euromonitor, o setor de higiene pessoal, perfumaria e cosm\u00e9ticos faturou R$ 122,4 bilh\u00f5es no Brasil no ano passado, com crescimento de 4,7% em rela\u00e7\u00e3o a 2019, enquanto o PIB do pa\u00eds caiu 4,1%.<\/p>\n<p>A principal marca ligada \u00e0 sociobiodiversidade da empresa \u00e9 a linha Ekos, lan\u00e7ada em 2000, com produtos de cuidados para o corpo e cabelo que empregam ingredientes naturais. Esse material vem substituindo os sint\u00e9ticos, no processo que passou a ser chamado de \u201cvegetaliza\u00e7\u00e3o dos ingredientes\u201d. Segundo estudo da consultoria Grand View Research, o mercado global de cosm\u00e9ticos naturais deve atingir US$ 48 bilh\u00f5es em 2025.<\/p>\n<p>Data desse per\u00edodo o foco da Natura na regi\u00e3o amaz\u00f4nica, que culminou em 2011 com a cria\u00e7\u00e3o do Programa Amaz\u00f4nia, gra\u00e7as ao qual a empresa afirma ter conseguido preservar um territ\u00f3rio de 2 milh\u00f5es de hectares no bioma, contabilizando as \u00e1reas de fornecimento das comunidades com as quais mant\u00e9m parcerias e a \u00e1rea de tr\u00eas unidades de conserva\u00e7\u00e3o, as reservas de Desenvolvimento Sustent\u00e1vel Uacari (Amazonas) e Rio Iratapuru (Amap\u00e1) e a reserva extrativista do M\u00e9dio Juru\u00e1 (Amazonas).<\/p>\n<p>O programa p\u00f5e em a\u00e7\u00e3o diversos pontos associados por pesquisadores \u00e0 bioeconomia, com destaque para o investimento em pesquisa de ponta e a parceria com produtores locais e co-operativas agroextrativistas. O principal s\u00edmbolo do investimento em pesquisa cient\u00edfica \u00e9 o complexo industrial Ecoparque, instalado no munic\u00edpio paraense de Benevides, em uma \u00e1rea de 172 hectares. Al\u00e9m da fabrica\u00e7\u00e3o de sabonete em barra, o centro pesquisa o desenvolvimento de novas cadeias produtivas a partir de esp\u00e9cies vegetais ainda n\u00e3o aproveitadas. Outras empresas tamb\u00e9m se instalaram no local para fazer pesquisa, como a alem\u00e3 Symrise.<\/p>\n<p>O complexo est\u00e1 vinculado ao N\u00facleo de Inova\u00e7\u00e3o Natura na Amaz\u00f4nia (Nina), que mant\u00e9m parcerias com entidades como a Universidade Federal do Amazonas (Ufam), o Instituto Nacional de Pesquisas da Amaz\u00f4nia (Inpa), a Funda\u00e7\u00e3o de Amparo \u00e0 Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam) e a Empresa Brasileira de Agropecu\u00e1ria (Embrapa).<\/p>\n<p>Em 2020, a Natura anunciou um volume de neg\u00f3cios vinculados \u00e0 sociobiodiversidade da ordem de R$ 2,14 bilh\u00f5es. Segundo a empresa, seus produtos empregam 38 bioingredientes, com 17,8% dos insumos oriundos da Amaz\u00f4nia, em parceria com comunidades fornecedoras que somam 7.039 fam\u00edlias. O primeiro contrato foi com a Cooperativa Mista dos Produtores e Extrativistas do Rio Iratapuru (Comaru), do munic\u00edpio de Laranjal do Jari, no Amap\u00e1. A cooperativa maneja a castanha e o breu branco, usados na linha Ekos. Em todo o pa\u00eds, a empresa contabiliza parcerias em 40 comunidades nas cadeias produtivas da sociobiodiversidade, envolvendo 8.300 fam\u00edlias.<\/p>\n<p>No ano passado, a Natura anunciou a iniciativa \u201cN\u00f3s da Floresta\u201d com a Rede Jirau Agroecologia e as organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o governamentais Sa\u00fade e Alegria e Conex\u00f5es Sustent\u00e1veis (Conexsus), visando fortalecer o ecossistema de inova\u00e7\u00e3o e empreendedorismo na regi\u00e3o. A iniciativa identifica tr\u00eas desafios que devem ser superados para promover o avan\u00e7o da bioeconomia: fomentar a cria\u00e7\u00e3o de neg\u00f3cios locais, solucionar impasses em cadeias produtivas e aumentar o faturamento de organiza\u00e7\u00f5es comunit\u00e1rias.<\/p>\n<\/div>\n<p><a href=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/riqueza-que-vem-da-vida\/\"><em><strong>Fonte: Pesquisa FAPESP<\/strong><\/em><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A fonte mais promissora de gera\u00e7\u00e3o de riqueza e valor no Brasil das pr\u00f3ximas d\u00e9cadas pode estar bem debaixo dos nossos p\u00e9s e diante dos nossos olhos. 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