{"id":83310,"date":"2021-07-26T15:59:20","date_gmt":"2021-07-26T18:59:20","guid":{"rendered":"https:\/\/www.institutodeengenharia.org.br\/site\/?p=83310"},"modified":"2021-07-27T15:16:23","modified_gmt":"2021-07-27T18:16:23","slug":"por-francisco-christovam-cmtc-e-carris-a-historia-se-repete","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.institutodeengenharia.org.br\/site\/2021\/07\/26\/por-francisco-christovam-cmtc-e-carris-a-historia-se-repete\/","title":{"rendered":"Por Francisco Christovam &#8211; CMTC e Carris: a hist\u00f3ria se repete"},"content":{"rendered":"<p>Em 19 de junho de 1872, gra\u00e7as a uma autoriza\u00e7\u00e3o do imperador\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Dom_Pedro_II\">Dom Pedro II<\/a>, a companhia Carris de Ferro Porto-Alegrense foi autorizada a funcionar. Inicialmente, a empresa operava\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Bonde\">bondes<\/a>\u00a0puxados a\u00a0burro e, em\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/1908\">1908<\/a>, inaugurou o servi\u00e7o de bondes el\u00e9tricos, que seria desativado em\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/1970\">1970<\/a>. Em\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/1930\">1930<\/a>, a empresa passou a oferecer tamb\u00e9m o transporte por\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/%C3%94nibus\">\u00f4nibus<\/a>, principalmente,\u00a0para as localidades onde as linhas de bonde n\u00e3o chegavam. Em\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/1954\">1954<\/a>, a Carris foi encampada pela prefeitura. A Companhia Carris Porto-Alegrense \u00e9 a mais antiga empresa de\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Transporte_coletivo\">transporte coletivo<\/a>\u00a0em atividade, no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Em meados do \u00faltimo m\u00eas de junho, o prefeito de Porto Alegre, Sebasti\u00e3o Melo, enviou o PL N\u00ba 013\/2021 para a C\u00e2mara de Vereadores. O projeto de lei autoriza a prefeitura a <em>\u201calienar ou transferir, total ou parcialmente, a sociedade, os seus ativos, a participa\u00e7\u00e3o societ\u00e1ria, direta ou indireta, inclusive o controle acion\u00e1rio, transformar, fundir, cindir, incorporar, dissolver, extinguir ou desativar, parcial ou totalmente, a Companhia Carris Porto-Alegrense (Carris), por quaisquer das formas de desestatiza\u00e7\u00e3o estabelecidas na legisla\u00e7\u00e3o p\u00e1tria &#8230;\u201d.<\/em><\/p>\n<p>A iniciativa do prefeito de Porto Alegre nos remete a uma decis\u00e3o emanada da Prefeitura de S\u00e3o Paulo, em 1993, que culminou com a \u201cprivatiza\u00e7\u00e3o\u201d da Companhia Municipal de Transportes Coletivos \u2013 CMTC, sociedade de economia mista, criada em 1947, com o prop\u00f3sito de assumir os servi\u00e7os de transporte realizados por 730 bondes, operados pela <em>\u201cThe S\u00e3o Paulo Tramway, Light and Power Company\u201d<\/em>, bem como operar uma frota de 770 \u00f4nibus, a maioria proveniente de empresas privadas que foram encampadas. Quando a CMTC passou a operar, em julho de 1947, o seu quadro de pessoal era de 7.362 empregados e, em 31 de dezembro daquele mesmo ano, esse n\u00famero j\u00e1 tinha subido para 7.987 empregados.<\/p>\n<p>Ao longo de mais de 45 anos, \u00e0 semelhan\u00e7a do que aconteceu com a Carris, a empresa passou por bons e maus momentos, muito em fun\u00e7\u00e3o da orienta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica dos prefeitos, da disposi\u00e7\u00e3o de reajustar tarifas para cobrir os custos de produ\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os e da disponibilidade de recursos financeiros para a aquisi\u00e7\u00e3o de novos ve\u00edculos, manuten\u00e7\u00e3o da frota existente e para a conserva\u00e7\u00e3o das instala\u00e7\u00f5es fixas (garagens, oficinas, abrigos, pontos de parada e redes el\u00e9tricas).<\/p>\n<p>Em 1993, a CMTC operava uma frota de cerca de 2.250 \u00f4nibus e 480 tr\u00f3lebus e, como monopolista do transporte coletivo em S\u00e3o Paulo, contratava 47 empresas privadas para operar outros 7.250 \u00f4nibus. A sua frota pr\u00f3pria era distribu\u00edda em 11 garagens localizadas, na sua maioria, bem pr\u00f3ximas da regi\u00e3o central da cidade. A empresa possu\u00eda um quadro de pessoal da ordem de 27.300 empregados, que haviam acumulado, ao longo dos anos, v\u00e1rios benef\u00edcios e vantagens trabalhistas.<\/p>\n<p>Para cobrir a diferen\u00e7a entre o volume de recursos necess\u00e1rios para manter a companhia funcionando e a receita auferida com a opera\u00e7\u00e3o da sua frota de \u00f4nibus e tr\u00f3lebus, a Prefeitura precisava transferir para a empresa, mensalmente, cerca de U$ 41 milh\u00f5es, a t\u00edtulo de subven\u00e7\u00e3o. Vale registrar que nenhum centavo desse montante se destinava a subsidiar os passageiros do sistema de \u00f4nibus que operava \u00e0 \u00e9poca.<\/p>\n<p>Assim, com uma frota envelhecida e composta por 28 modelos de \u00f4nibus e tr\u00f3lebus, estoque de reposi\u00e7\u00e3o com cerca de 28 mil itens cadastrados, garagens mal localizadas, do ponto de vista operacional, e um quadro de pessoal inchado, gerando um d\u00e9ficit or\u00e7ament\u00e1rio di\u00e1rio de cerca de U$ 1,4 milh\u00e3o, tornou-se mais do que necess\u00e1rio adotar alguma provid\u00eancia, a curt\u00edssimo prazo, para reorientar o modelo de neg\u00f3cio e reduzir a enorme depend\u00eancia financeira que a empresa tinha de recursos p\u00fablicos.<\/p>\n<p>Na tentativa de salvar a CMTC, foi realizado um estudo detalhado de reengenharia, cujo objetivo era analisar as possibilidades de manuten\u00e7\u00e3o das suas atividades, fossem elas do ponto de vista institucional, empresarial ou operacional. Dentre as v\u00e1rias op\u00e7\u00f5es apresentadas para melhorar o desempenho da empresa, analisou-se a possibilidade da opera\u00e7\u00e3o de linhas troncais em corredores segregados, a opera\u00e7\u00e3o exclusiva de linhas alimentadoras de terminais de integra\u00e7\u00e3o e at\u00e9 uma opera\u00e7\u00e3o seletiva, utilizando somente ve\u00edculos el\u00e9tricos ou de grande porte.<\/p>\n<p>Como nenhuma hip\u00f3tese mostrou ser vi\u00e1vel, pass\u00edvel de ser implantada num prazo razo\u00e1vel e capaz de reduzir, drasticamente, o preju\u00edzo gerado aos cofres p\u00fablicos, na condi\u00e7\u00e3o de acionista majorit\u00e1ria, a Prefeitura determinou o encerramento das atividades da companhia.<\/p>\n<p>Considerando as quest\u00f5es jur\u00eddico-administrativas, a situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mico-financeira e o passivo trabalhista da empresa, optou-se por um processo diferenciado de privatiza\u00e7\u00e3o. Assim, para atingir o resultado esperado, decidiu-se transferir para a iniciativa privada, via processo licitat\u00f3rio, a opera\u00e7\u00e3o das garagens, das linhas e da frota e n\u00e3o o controle acion\u00e1rio da empresa.<\/p>\n<p>Para realizar a transfer\u00eancia da opera\u00e7\u00e3o das linhas, nos moldes da legisla\u00e7\u00e3o vigente \u00e0 \u00e9poca \u2013 Lei Municipal N\u00ba 11.037\/91 \u2013, o processo licitat\u00f3rio foi dividido em tr\u00eas etapas. Na primeira, foram abertas vinte concorr\u00eancias p\u00fablicas, para a contrata\u00e7\u00e3o de empresas privadas para a opera\u00e7\u00e3o das linhas de \u00f4nibus, com novos ve\u00edculos, pertencentes \u00e0s empresas vencedoras do certame licitat\u00f3rio. Ap\u00f3s a assinatura dos contratos com as 17 empresas vencedoras da licita\u00e7\u00e3o, cerca de mil novos \u00f4nibus foram introduzidos no sistema, substituindo ve\u00edculos velhos da CMTC, que foram desativados e leiloados como sucata.<\/p>\n<p>Numa segunda etapa, foram realizadas outras quatro concorr\u00eancias p\u00fablicas, cujo objeto foi a opera\u00e7\u00e3o das linhas de \u00f4nibus; por\u00e9m, utilizando cerca de 1.500 \u00f4nibus ainda de propriedade da CMTC. Quando algum ve\u00edculo dessa frota atingia o limite da sua vida \u00fatil ou perdia as condi\u00e7\u00f5es de operacionalidade era, ent\u00e3o, substitu\u00eddo por \u00f4nibus novos, de propriedade da empresa privada.<\/p>\n<p>Numa terceira etapa, foram realizadas mais tr\u00eas concorr\u00eancias p\u00fablicas, para a transfer\u00eancia da opera\u00e7\u00e3o das linhas das tr\u00eas garagens que operavam ve\u00edculos el\u00e9tricos, do tipo tr\u00f3lebus. Nesse caso, adotou-se o conceito de opera\u00e7\u00e3o de frota p\u00fablica, ou seja, a empresa privada deveria operar as linhas com ve\u00edculos pertencentes \u00e0 empresa p\u00fablica, pagando aluguel pela utiliza\u00e7\u00e3o da frota e das instala\u00e7\u00f5es fixas \u2013 garagem, p\u00e1tio e oficinas \u2013 que continuaram de propriedade da CMTC.<\/p>\n<p>A opera\u00e7\u00e3o da frota pr\u00f3pria das empresas privadas, dos \u00f4nibus de propriedade da empresa p\u00fablica, com posterior substitui\u00e7\u00e3o por ve\u00edculos novos, e dos ve\u00edculos da frota p\u00fablica s\u00f3 foi poss\u00edvel porque a remunera\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os contratados se dava com base no custo efetivo de produ\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os, acrescido de uma taxa de administra\u00e7\u00e3o, nos termos da citada Lei Municipal N\u00ba 11.037\/91.<\/p>\n<p>No processo de terceiriza\u00e7\u00e3o das atividades operacionais, especial aten\u00e7\u00e3o foi dada aos empregados da CMTC, que foram sendo desligados, \u00e0 medida em que as empresas privadas assumiam os servi\u00e7os, antes realizados pela empresa p\u00fablica. Todos os empregados demitidos tiveram seus direitos trabalhistas respeitados, suas verbas rescis\u00f3rias devidamente pagas e boa parte deles foi admitida pelas empresas vencedoras dos certames licitat\u00f3rios. Houve, ainda, uma parte significativa do pessoal demitido que frequentou cursos ministrados pelo Servi\u00e7o Brasileiro de Apoio \u00e0s Micro e Pequenas Empresas \u2013 SEBRAE, para aprender a gerir os seus pr\u00f3prios neg\u00f3cios, quando deixassem a empresa p\u00fablica.<\/p>\n<p>Assim que encerradas as atividades da Companhia Municipal de Transportes Coletivos \u2013 CMTC, em 8 de mar\u00e7o de 1995, nascia a S\u00e3o Paulo Transporte S\/A \u2013 SPTrans que, com um pouco mais de mil empregados, todos oriundos da extinta CMTC, se propunha a ser uma empresa de intelig\u00eancia na sua \u00e1rea de atua\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para que a SPTrans pudesse cumprir a sua miss\u00e3o e realizar os seus objetivos estrat\u00e9gicos era preciso que a nova empresa abdicasse da sua longa experi\u00eancia adquirida na opera\u00e7\u00e3o e na manuten\u00e7\u00e3o de \u00f4nibus. Os novos desafios, agora, deveriam estar concentrados no planejamento dos sistemas de transporte, no aperfei\u00e7oamento dos sistemas de gest\u00e3o, no desenvolvimento de novas tecnologias e no aprimoramento da qualidade dos servi\u00e7os prestados \u00e0 popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Como era de se esperar, essa transforma\u00e7\u00e3o envolvia n\u00e3o apenas a altera\u00e7\u00e3o do seu escopo de trabalho; mas, principalmente, uma nova compreens\u00e3o do seu papel institucional e uma dr\u00e1stica mudan\u00e7a no comportamento dos t\u00e9cnicos, dos especialistas e at\u00e9 do pessoal de dire\u00e7\u00e3o da empresa.<\/p>\n<p>O prazo para a execu\u00e7\u00e3o de todo o processo de privatiza\u00e7\u00e3o, com a transfer\u00eancia da opera\u00e7\u00e3o de todas as linhas da CMTC e dos ve\u00edculos ainda em condi\u00e7\u00f5es de uso \u00e0s empresas privadas, bem como o completo encerramento das atividades operacionais da companhia n\u00e3o durou mais do que 20 meses.<\/p>\n<p>Wolfgang Franz Josef Sauer, CEO da Volkswagen do Brasil e da Autolatina (\u201cjoint venture\u201d, criada com a fus\u00e3o da Volkswagen do Brasil e da Ford do Brasil, que perdurou de 1987 a 1996) e \u00faltimo presidente do Conselho de Administra\u00e7\u00e3o da CMTC disse: <em>\u201cCom orgulho acompanhamos o processo de privatiza\u00e7\u00e3o das atividades operacionais da CMTC, desenvolvido dentro das mais modernas regras da administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica. A privatiza\u00e7\u00e3o permitiu uma substancial economia de recursos municipais, antes gastos na subven\u00e7\u00e3o da empresa p\u00fablica, que, agora, dever\u00e3o ser aplicados em obras sociais.\u201d<\/em><\/p>\n<p>_______________________________________________________________________<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"td-animation-stack-type0-2\" src=\"https:\/\/www.institutodeengenharia.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/Francisco-Christovam-e1570795701677.jpg\" width=\"148\" height=\"222\" \/><\/p>\n<p>(*) Francisco Christovam \u00e9 assessor especial do Sindicato das Empresas de Transporte Coletivo Urbano de Passageiros de S\u00e3o Paulo \u2013 SPUrbanuss e, tamb\u00e9m, membro da Federa\u00e7\u00e3o das Empresas de Transportes de Passageiros do Estado de S\u00e3o Paulo \u2013 FETPESP, da Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Transportes P\u00fablicos \u2013 ANTP, do Conselho Diretor da Associa\u00e7\u00e3o Nacional das Empresas de Transportes Urbanos \u2013 NTU, da Confedera\u00e7\u00e3o Nacional dos Transportes \u2013 CNT e do Conselho Consultivo do Instituto de Engenharia.<\/p>\n<div class=\"td-pb-span8 td-main-content\" role=\"main\">\n<div class=\"td-ss-main-content\">\n<div class=\"clearfix\"><\/div>\n<article id=\"post-71688\" class=\"post-71688 post type-post status-publish format-standard has-post-thumbnail category-articulistas category-francisco-christovam\">\n<div class=\"td-post-content tagdiv-type\">\n<p>*<em>Os artigos publicados com assinatura, n\u00e3o traduzem necessariamente a opini\u00e3o do Instituto de Engenharia. Sua publica\u00e7\u00e3o obedece ao prop\u00f3sito de estimular o debate dos problemas brasileiros e de refletir as diversas tend\u00eancias do pensamento contempor\u00e2neo<\/em><\/p>\n<\/div>\n<\/article>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 19 de junho de 1872, gra\u00e7as a uma autoriza\u00e7\u00e3o do imperador\u00a0Dom Pedro II, a companhia Carris de Ferro Porto-Alegrense foi autorizada a funcionar. Inicialmente, a empresa operava\u00a0bondes\u00a0puxados a\u00a0burro e, em\u00a01908, inaugurou o servi\u00e7o de bondes el\u00e9tricos, que seria desativado em\u00a01970. 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