{"id":79723,"date":"2021-04-15T15:57:07","date_gmt":"2021-04-15T18:57:07","guid":{"rendered":"https:\/\/www.institutodeengenharia.org.br\/site\/?p=79723"},"modified":"2021-05-13T15:16:38","modified_gmt":"2021-05-13T18:16:38","slug":"ie-na-midia-um-desafio-disruptivo-para-a-engenharia-brasileira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.institutodeengenharia.org.br\/site\/2021\/04\/15\/ie-na-midia-um-desafio-disruptivo-para-a-engenharia-brasileira\/","title":{"rendered":"IE NA M\u00cdDIA &#8211; \u201cUm desafio disruptivo para a engenharia brasileira\u201d"},"content":{"rendered":"<p>&#8220;Um desafio disruptivo para a engenharia brasileira.\u201d \u00c9 assim, em poucas palavras, que o cientista e engenheiro Carlos Nobre, colaborador do Instituto de Estudos Avan\u00e7ados (IEA) da USP e portador de um curr\u00edculo quilom\u00e9trico, nacional e internacional, em temas principalmente ligados a quest\u00f5es ambientais, classifica o estudo pioneiro <i>Amaz\u00f4nia e Bioeconomia \u2013<\/i> Sustentada<i> em ci\u00eancia, tecnologia e inova\u00e7\u00e3o<\/i><b>,\u00a0<\/b>do qual foi coordenador t\u00e9cnico(*), recentemente lan\u00e7ado pelo Instituto de Engenharia (IE).<\/p>\n<p>O desafio \u00e9 construir a Terceira Via Amaz\u00f4nica, caminho que\u00a0 representa a oportunidade de \u201cdesenvolver uma \u2018economia verde\u2019 que aproveite todo o valor de uma \u2018floresta produtiva permanente\u2019 para, com a ajuda de novas tecnologias f\u00edsicas, digitais e biol\u00f3gicas j\u00e1 dispon\u00edveis ou em evolu\u00e7\u00e3o, estabelecer um novo modelo de desenvolvimento econ\u00f4mico socialmente inclusivo\u201d, prega Carlos Nobre.<\/p>\n<p>E acrescenta: \u201cDurante pelo menos duas ou tr\u00eas d\u00e9cadas, apenas duas vertentes eram pensadas como poss\u00edveis, a primeira via, que afirma que h\u00e1 a necessidade de isolar completamente e garantir a preserva\u00e7\u00e3o de grandes extens\u00f5es da floresta, e a segunda via, baseada em uso intensivo de recursos naturais, por meio das atividades e servi\u00e7os da pecu\u00e1ria, agricultura, minera\u00e7\u00e3o e gera\u00e7\u00e3o de energia\u201c.<\/p>\n<p>O conselheiro do IE, tamb\u00e9m coordenador t\u00e9cnico do estudo, George Paulus, acrescenta:<b>\u00a0<\/b>\u201cO modelo de desenvolvimento do Pa\u00eds dos \u00faltimos 500 anos fatalmente comprometer\u00e1 nossa biodiversidade. Precisamos encontrar um novo modelo que garanta o acesso \u00e0 sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o e habita\u00e7\u00e3o, sem comprometer as oportunidades das gera\u00e7\u00f5es futuras. A meu ver, isso pode ser alcan\u00e7ado com o desenvolvimento cient\u00edfico e tecnol\u00f3gico no campo da bioeconomia circular\u201d.<\/p>\n<section class=\"elementor-section elementor-top-section elementor-element elementor-element-96dc1f4 elementor-section-boxed elementor-section-height-default elementor-section-height-default\" data-id=\"96dc1f4\" data-element_type=\"section\">\n<div class=\"elementor-container elementor-column-gap-default\">\n<div class=\"elementor-row\">\n<div class=\"elementor-column elementor-col-100 elementor-top-column elementor-element elementor-element-423067e\" data-id=\"423067e\" data-element_type=\"column\" data-settings=\"{&quot;background_background&quot;:&quot;classic&quot;}\">\n<div class=\"elementor-column-wrap elementor-element-populated\">\n<div class=\"elementor-widget-wrap\">\n<div class=\"elementor-element elementor-element-3fee05d elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"3fee05d\" data-element_type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n<div class=\"elementor-widget-container\">\n<div class=\"elementor-text-editor elementor-clearfix\">\n<p>Por que a proposta do IE \u00e9 um desafio disruptivo para a engenharia brasileira?<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<section class=\"elementor-section elementor-top-section elementor-element elementor-element-9e450fb elementor-section-boxed elementor-section-height-default elementor-section-height-default\" data-id=\"9e450fb\" data-element_type=\"section\">\n<div class=\"elementor-container elementor-column-gap-default\">\n<div class=\"elementor-row\">\n<div class=\"elementor-column elementor-col-66 elementor-top-column elementor-element elementor-element-e8647e1\" data-id=\"e8647e1\" data-element_type=\"column\" data-settings=\"{&quot;background_background&quot;:&quot;classic&quot;}\">\n<div class=\"elementor-column-wrap elementor-element-populated\">\n<div class=\"elementor-widget-wrap\">\n<div class=\"elementor-element elementor-element-b66ce18 elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"b66ce18\" data-element_type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n<div class=\"elementor-widget-container\">\n<div class=\"elementor-text-editor elementor-clearfix\">\n<p>A resposta est\u00e1 no estudo: \u201cA bioeconomia se baseia na utiliza\u00e7\u00e3o de conhecimento e recursos de base biol\u00f3gica, da engenharia e da manufatura. \u00c9 uma economia que por defini\u00e7\u00e3o prop\u00f5e o desenvolvimento baseado numa industrializa\u00e7\u00e3o que depende da sa\u00fade das florestas e dos rios. Portanto, atuar no movimento de reindustrializa\u00e7\u00e3o da economia \u2013 com base na biodiversidade \u2013 para o desenvolvimento de uma ind\u00fastria avan\u00e7ada, competitiva globalmente e com maior margem para os produtos \u00e9 uma pauta fundamental para o Pa\u00eds, que depende diretamente de v\u00e1rias \u00e1reas e, em especial, da engenharia. A pobreza na regi\u00e3o \u00e9 uma amea\u00e7a real \u00e0 floresta e com forte potencial de inviabilizar uma solu\u00e7\u00e3o em escala que traga valor \u00e0 floresta \u2018em p\u00e9\u2019. A multiplica\u00e7\u00e3o de empregos, que \u00e9 intr\u00ednseca \u00e0 atividade de engenharia, beneficia e gera o desenvolvimento das popula\u00e7\u00f5es locais e combate a pobreza.<\/p>\n<p>O pioneirismo do estudo do Instituto de Engenharia est\u00e1 em organizar uma proposta ampla, articulada e multidisciplinar para o desenvolvimento sustent\u00e1vel da Amaz\u00f4nia. Muito se tem falado sobre o problema das queimadas na Amaz\u00f4nia, sobre os problemas que causam ao Pa\u00eds no seu relacionamento internacional e sobre o potencial biotecnol\u00f3gico desprezado na regi\u00e3o. O estudo mostra como dar um passo \u00e0 frente nesse debate, trabalhando com o conceito ampliado de bioeconomia, que engloba a biotecnologia, os biocombust\u00edveis e a bioecologia. E ressalta os passos essenciais para a sua consecu\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>1) O reconhecimento da centralidade estrat\u00e9gica da bioeconomia para o Brasil,<\/p>\n<p>2) A necessidade de governan\u00e7a voltada para o projeto,<\/p>\n<p>3) O desenvolvimento do sistema de CT&amp;I,<\/p>\n<p>4) O fortalecimento das institui\u00e7\u00f5es de ensino e pesquisa,<\/p>\n<p>5) A cria\u00e7\u00e3o de hub de excel\u00eancia em CT&amp;I da Amaz\u00f4nia,<\/p>\n<p>6) O acompanhamento da evolu\u00e7\u00e3o populacional.<\/p>\n<p>Pergunta o estudo: \u201cEstima-se que hoje 29,3 milh\u00f5es de pessoas vivam na Amaz\u00f4nia Legal brasileira, com parte significativa abaixo da linha da pobreza. Como ser\u00e1 a regi\u00e3o quando chegar aos 40 milh\u00f5es, 50 milh\u00f5es de habitantes? Replicaremos os movimentos de faveliza\u00e7\u00e3o de outras regi\u00f5es? Qual desenvolvimento os amaz\u00f4nidas querem para a regi\u00e3o?<\/p>\n<p>\u201cO nosso pa\u00eds precisa imaginar, discutir e escolher que desenvolvimento quer e pode fazer acontecer, principalmente usando de forma sustent\u00e1vel os recursos encontrados na Amaz\u00f4nia\u201d, diz Eduardo Lafraia, at\u00e9 recentemente presidente do IE.<\/p>\n<h2 class=\"elementor-heading-title elementor-size-default\">\u201c O Brasil tem potencial para ser um dos pa\u00edses mais competitivos globalmente\u201d<\/h2>\n<p>Com mais de um s\u00e9culo de exist\u00eancia, o Instituto de Engenharia tem em seu DNA o compromisso de promover o desenvolvimento e, por consequ\u00eancia, a engenharia e o avan\u00e7o cient\u00edfico e tecnol\u00f3gico do Pa\u00eds. Com este\u00a0<a href=\"https:\/\/d335luupugsy2.cloudfront.net\/cms\/files\/159293\/1616524097IE-Amazonia_e_Biodiversidade_-_final.pdf\">caderno especial<\/a>\u00a0o Instituto de Engenharia busca indicar caminhos e condi\u00e7\u00f5es para que o Brasil amplie seu protagonismo na nova bioeconomia. Este desenvolvimento ser\u00e1 resultado da industrializa\u00e7\u00e3o derivada do conhecimento, da tecnologia e da biodiversidade brasileira, em especial a encontrada na floresta amaz\u00f4nica.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, torna-se importante observar que h\u00e1 diferentes defini\u00e7\u00f5es de bioeconomia. A FAO (Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para Alimenta\u00e7\u00e3o e Agricultura) define bioeconomia de uma maneira ampla como produ\u00e7\u00e3o, utiliza\u00e7\u00e3o e conserva\u00e7\u00e3o de recursos biol\u00f3gicos, incluindo conhecimento associado, ci\u00eancia, tecnologia e inova\u00e7\u00e3o, para o fornecimento de informa\u00e7\u00f5es, produtos, processos e servi\u00e7os para todos os setores econ\u00f4micos visando uma economia sustent\u00e1vel.<\/p>\n<p>Atualmente o Minist\u00e9rio da Ci\u00eancia, Tecnologia e Inova\u00e7\u00f5es define bioeconomia como \u201co conjunto de atividades econ\u00f4micas baseadas na utiliza\u00e7\u00e3o sustent\u00e1vel e inovadora de recursos biol\u00f3gicos renov\u00e1veis (biomassa), em substitui\u00e7\u00e3o \u00e0s mat\u00e9rias-primas f\u00f3sseis, para a produ\u00e7\u00e3o de alimentos, ra\u00e7\u00f5es, materiais, produtos qu\u00edmicos, combust\u00edveis e energia produzidos por meio de processos biol\u00f3gicos, qu\u00edmicos, termoqu\u00edmicos ou f\u00edsicos, promovendo a sa\u00fade, o desenvolvimento sustent\u00e1vel, o crescimento nacional e o bem-estar da popula\u00e7\u00e3o\u201d<\/p>\n<p>No caso espec\u00edfico do Brasil, cuja matriz energ\u00e9tica \u00e9 comparativamente menos emissora de gases de efeito estufa, a aten\u00e7\u00e3o deve estar prioritariamente voltada para elimina\u00e7\u00e3o completa do desmatamento e para inova\u00e7\u00f5es que permitam 1) a restaura\u00e7\u00e3o florestal, e 2) a moderniza\u00e7\u00e3o das pr\u00e1ticas de agricultura e pecu\u00e1ria de forma a aumentar a produ\u00e7\u00e3o com a diminui\u00e7\u00e3o da \u00e1rea plantada.<\/p>\n<p>\u00c9 importante destacar que uma das raz\u00f5es porque o Brasil tem uma economia de baixa emiss\u00e3o (relativamente a pa\u00edses industrializados) \u00e9 por usar um elemento da bioeconomia em escala nunca usado no mundo, o etanol de cana-de-a\u00e7\u00facar, como combust\u00edvel automotivo. Em 1975, quando o mundo ainda n\u00e3o falava de bioeconomia, o planejamento governamental ousado, a engenharia e a ci\u00eancia brasileiras criaram o maior programa do mundo de substitui\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo, o Pro\u00e1lcool. Com o avan\u00e7o dessa nova bioeconomia, que busca a descarboniza\u00e7\u00e3o, o Brasil tem potencial para ser um dos pa\u00edses mais competitivos globalmente. No cen\u00e1rio pessimista, essas inova\u00e7\u00f5es ser\u00e3o feitas por empresas, institutos de pesquisa e universidades internacionais sem a participa\u00e7\u00e3o efetiva da ind\u00fastria e da ci\u00eancia brasileira. Caso isso ocorra, mais uma vez restar\u00e1 ao Brasil o papel de exportar<i>\u00a0commodities<\/i>\u00a0e importar tecnologia, servi\u00e7os e produtos de alto valor agregado.<\/p>\n<p>No contexto ecol\u00f3gico da Amaz\u00f4nia, considerando sua imensa biodiversidade, o conceito da FAO de bioeconomia deve ser expandido para considerar o uso sustent\u00e1vel dos recursos biol\u00f3gicos com a floresta em p\u00e9 visando \u00e0 preserva\u00e7\u00e3o dos ecossistemas terrestres e aqu\u00e1ticos, incluindo a valoriza\u00e7\u00e3o dos conhecimentos tradicionais. Ao mesmo tempo, devemos, juntamente com a implementa\u00e7\u00e3o de uma bioeconomia voltada para as caracter\u00edsticas \u00fanicas da Amaz\u00f4nia, tamb\u00e9m faz\u00ea-la ser circular desde o in\u00edcio, isto \u00e9, uma inovadora bioeconomia circular baseada na rica biodiversidade da floresta amaz\u00f4nica. \u00c9 essencial e necess\u00e1rio que a sociedade e o governo brasileiro estejam cientes de que, em linha com os Objetivos de Desenvolvimento Sustent\u00e1vel da ONU, praticamente todos os pa\u00edses desenvolvidos est\u00e3o criando as condi\u00e7\u00f5es para que significativos investimentos sejam feitos para o desenvolvimento de conhecimento e tecnologias inovadoras no setor da bioeconomia. \u00c9 relativamente simples prever que em poucos anos os resultados mais importantes estar\u00e3o nas na\u00e7\u00f5es que tiverem sido mais r\u00e1pidas em formular e colocar em pr\u00e1tica suas estrat\u00e9gias para a bioeconomia.<\/p>\n<p><em>(*<b>)\u00a0<u>O estudo<\/u><\/b><u>\u00a0<\/u>foi coordenado pelo cientista e engenheiro Carlos Nobre e pelo conselheiro e engenheiro do IE, George Paulus, e teve a participa\u00e7\u00e3o do reitor da Universidade de S\u00e3o Paulo, Vahan Agopyan; Carlos Brito Cruz, VP s\u00eanior da Elsevier e ex-reitor da Unicamp; Tatiana Schor, secret\u00e1ria-executiva de Ci\u00eancia, Tecnologia e Inova\u00e7\u00e3o do Amazonas; Ana Euler, pesquisadora da Embrapa Amap\u00e1; Adalberto Jos\u00e9 Val, pesquisador do Inpa e um dos integrantes do Conselho da Amaz\u00f4nia; Ary Plonski, diretor do IEA-USP; Ricardo Kenzo, VP de Rela\u00e7\u00f5es Externas do IE, e Victor Brecheret, conselheiro do IE.<\/em><\/p>\n<h2 class=\"elementor-heading-title elementor-size-default\">\u201cProduzir para conservar, conservar para produzir\u201d<\/h2>\n<p>Tive a oportunidade de voar de helic\u00f3ptero sobre a floresta amaz\u00f4nica quando fiz uma reportagem sobre as minas de ferro de Caraj\u00e1s, da Vale do Rio Doce em 1981. \u00c9 um mar de verde a perder de vista, por mais que se voe sobre ela. Gigantescas tamb\u00e9m s\u00e3o as escavadeiras que retiram das minas o min\u00e9rio de ferro, que o Brasil tanto exporta. Voc\u00ea se sente um pigmeu ao lado dos pneus das escavadeiras. Me lembro que me senti um explorador ingl\u00eas no Oriente, daqueles que usam bermudas, meias compridas e capacetes, ao tomar coquet\u00e9is enfeitados com frutas, num arranjo bem tropical, no hotel para h\u00f3spedes em Caraj\u00e1s.<\/p>\n<p>Lembrei-me dessa hist\u00f3ria ao conversar por uma hora, por telefone, com o cientista Carlos Nobre, para me informar mais sobre o estudo\u00a0<i>Amaz\u00f4nia e Bioeconomia<\/i>, do Instituto de Engenharia, do qual ele foi um dos coordenadores. Com sua fala mansa, Nobre, que mora em S\u00e3o Jos\u00e9 dos Campos, no interior de S\u00e3o Paulo, descreve as mazelas que assolam e destroem a nossa Amaz\u00f4nia e, com entusiasmo, o potencial econ\u00f4mico e social que a regi\u00e3o tem se a bioeconomia passar a ser o instrumento para seu desenvolvimento. E conta fatos e hist\u00f3rias que pouco circulam fora do mundo dos especialistas em Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p>Fiquei sabendo, por exemplo, que o presidente da Col\u00f4mbia, o advogado com especializa\u00e7\u00e3o em Filosofia e Humanidades, Iv\u00e1n Duque Marqu\u00e9z, \u00e9 adepto da bioeconomia para o desenvolvimento da Amaz\u00f4nia colombiana. Na \u00faltima reuni\u00e3o de Davos, ao tratar da regi\u00e3o amaz\u00f4nica, Marqu\u00e9z defendeu o lema \u201cProduzir para conservar, conservar para produzir\u201d, criado pela respeitada ge\u00f3grafa brasileira Berta Becker, em 2008, dentro do conceito por ela defendido de agregar valor ao cora\u00e7\u00e3o da floresta \u2013 que diferen\u00e7a das ideias que circulam pelo Planalto Central\u2026<\/p>\n<p>Nobre me perguntou se eu sabia quais eram os maiores pa\u00edses exportadores de madeira. Claro, eu n\u00e3o sabia. Pois o primeiro \u00e9 a Su\u00e9cia, onde \u00e1rvores demoram at\u00e9 70 anos para amadurecer em fun\u00e7\u00e3o do clima frio. S\u00e3o produtos industrializados de madeira, mercado em que uma empresa como a Ikea, tem presen\u00e7a global. O segundo \u00e9 a It\u00e1lia, que importa a madeira que industrializa, especialmente sob a forma de m\u00f3veis com o criativo design da pen\u00ednsula.<\/p>\n<p>Enquanto isso, o Brasil exporta toras de madeira, extra\u00eddas num processo que ele caracteriza como \u201ccriminoso\u201d, em que 80% do volume derrubado \u00e9 ilegal. Quanto o Pa\u00eds ganharia se essa madeira fosse industrializada pelo pr\u00f3prio Brasil? Nobre relata que h\u00e1 modelos sustent\u00e1veis para a explora\u00e7\u00e3o comercial da madeira, como o conhecido por \u201cmosaico\u201d em que as esp\u00e9cies que ser\u00e3o derrubadas s\u00e3o cercadas por mata preservada, ou o modelo agroflorestal de alta densidade, com esp\u00e9cies de maior volume com capacidade para rebrotar.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 continua\u00e7\u00e3o da explora\u00e7\u00e3o mineral, especialmente ouro, Nobre julga que ainda \u00e9 preciso estudar bem, pois \u00e9 uma atividade altamente poluidora, prejudicando bastante as \u00e1reas ind\u00edgenas. A pecu\u00e1ria, na regi\u00e3o, \u00e9 de baix\u00edssima produtividade, segundo ele, produz 90 kg de carne por ano enquanto no modelo intensivo, em outros pa\u00edses, se chega a 300 kg por ano. \u201cNa verdade, a presen\u00e7a do boi na regi\u00e3o serve mais para demarcar a propriedade, \u00e9 um s\u00edmbolo da posse da terra, pois o real propriet\u00e1rio vive bem longe de l\u00e1\u201d, relata.<\/p>\n<p>Nobre acredita que um programa de desenvolvimento baseado na bioeconomia elevar\u00e1 o n\u00edvel econ\u00f4mico da popula\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o, caracterizada por um IDH muito baixo. Cita a explora\u00e7\u00e3o do a\u00e7a\u00ed, que rende R$ 1 bilh\u00e3o por ano e elevou para a classe m\u00e9dia a popula\u00e7\u00e3o que vive em torno da atividade. E a possibilidade de explora\u00e7\u00e3o de frutas que o manancial da biodiversidade local oferece pode multiplicar enormemente essa transforma\u00e7\u00e3o social. Para ele, a explora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica das frutas da regi\u00e3o poder\u00e1 dar resultados mais rapidamente do que a produ\u00e7\u00e3o de f\u00e1rmacos via biotecnologia, pois esses processos s\u00e3o bem mais lentos.<\/p>\n<p>A destrui\u00e7\u00e3o da floresta amaz\u00f4nica j\u00e1 atingiu 808 mil km\u00b2, somando-se a essa \u00e1rea 400 mil km\u00b2 de \u00e1reas degradadas, chegando a uma perda de 1,2 milh\u00e3o de km\u00b2, nas contas de Nobre. J\u00e1 que comecei este texto falando de minhas aventuras em Caraj\u00e1s, volto ao tema. Nobre ressalva que a Vale toma o cuidado de recompor as \u00e1reas das minas de ferro depois de exauridas, mas ao longo de sua ferrovia Caraj\u00e1s a S\u00e3o Lu\u00eds, a capital do Maranh\u00e3o, brotam usinas de processamento de ferro que induzem ao desmatamento em seu contorno.<\/p>\n<p>Quem sabe, a m\u00e9dio prazo, a produ\u00e7\u00e3o na Amaz\u00f4nia, baseada na bioeconomia, particularmente no Estado do Amazonas, possa substituir com vantagens a da Zona Franca de Manaus, centrada em produtos eletroeletr\u00f4nicos, cujos componentes s\u00e3o importados, que gera 80 mil empregos, mas consome anualmente R$ 30 bilh\u00f5es em subs\u00eddios\u2026com a imensa vantagem de preservar a floresta.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornal.usp.br\/ciencias\/um-desafio-disruptivo-para-a-engenharia-brasileira\/\"><em><strong>Fonte: Jornal da USP<\/strong><\/em><\/a><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Um desafio disruptivo para a engenharia brasileira.\u201d \u00c9 assim, em poucas palavras, que o cientista e engenheiro Carlos Nobre, colaborador do Instituto de Estudos Avan\u00e7ados (IEA) da USP e portador de um curr\u00edculo quilom\u00e9trico, nacional e internacional, em temas principalmente ligados a quest\u00f5es ambientais, classifica o estudo pioneiro Amaz\u00f4nia e Bioeconomia \u2013 Sustentada em ci\u00eancia, 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