{"id":27415,"date":"2017-03-13T00:44:38","date_gmt":"2017-03-13T00:44:38","guid":{"rendered":"https:\/\/www.institutodeengenharia.org.br\/?p=27415"},"modified":"2017-03-13T15:43:09","modified_gmt":"2017-03-13T15:43:09","slug":"eles-cresceram-sob-chuva-acida-e-hoje-lutam-como-engenheiros-pelo-meio-ambiente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.institutodeengenharia.org.br\/site\/2017\/03\/13\/eles-cresceram-sob-chuva-acida-e-hoje-lutam-como-engenheiros-pelo-meio-ambiente\/","title":{"rendered":"Eles cresceram sob chuva \u00e1cida e hoje lutam como engenheiros pelo meio ambiente"},"content":{"rendered":"<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"400\" height=\"500\" frameborder=\"0\" src=\"http:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/brasil-39186927\/embed\"><\/iframe><\/p>\n<p>\nMe lembro de come\u00e7ar a chover e eu ver uma crian\u00e7a na Vila Parisi correndo e gritando: &#039;\u00c9 a chuva que morde!&#039;. Eu n\u00e3o sabia o que era. Depois me explicaram que era a chuva \u00e1cida&#8221;, relembra.<\/p>\n<p>Nessa \u00e9poca, a Vila Parisi, bairro pobre em meio ao complexo industrial de Cubat\u00e3o, no interior de S\u00e3o Paulo, tornou-se refer\u00eancia mundial nos efeitos da polui\u00e7\u00e3o atmosf\u00e9rica no ambiente e na popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em 1977, a emiss\u00e3o de componentes qu\u00edmicos t\u00f3xicos como mon\u00f3xido de carbono, benzeno, \u00f3xidos de enxofre e nitrog\u00eanio, hidrocarbonetos e material particulado (part\u00edculas de poluentes suspensas no ar) liberados em Cubat\u00e3o ultrapassava mil toneladas por dia.<\/p>\n<p>&nbsp;cidade tinha altos \u00edndices de doen\u00e7as respirat\u00f3rias e, em 1981, dezenas de crian\u00e7as nasceram com anencefalia e outras malforma\u00e7\u00f5es do sistema nervoso. Muitas delas naquele bairro.<\/p>\n<p>A chuva \u00e1cida, que era frequente na cidade onde cerca de 20 ind\u00fastrias pesadas eliminavam gases como \u00f3xidos de nitrog\u00eanio e de enxofre na atmosfera, n\u00e3o chegava a queimar imediatamente a pele, mas contribu\u00eda com a degrada\u00e7\u00e3o da vegeta\u00e7\u00e3o e das estruturas da cidade.<\/p>\n<p>&#8220;Quando eu era crian\u00e7a, a imagem que mais me chocava era a da Serra do Mar, que era toda aberta e rasgada por causa da polui\u00e7\u00e3o&#8221;, diz Jord\u00e3o \u00e0 BBC Brasil.<\/p>\n<p>&#8220;Eu cresci em outro bairro industrial, mas ia muito \u00e0 Vila Parisi para visitar amigos dos meus pais e av\u00f3s. E comecei a perceber que eu gostaria de atuar na \u00e1rea ambiental.&#8221;<\/p>\n<p>Contribui\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>Por causa da fama de &#8220;cidade mais polu\u00edda do mundo&#8221; e do subsequente reconhecimento, pela ONU, como um caso de recupera\u00e7\u00e3o ambiental nos anos 1990, Cubat\u00e3o tornou-se atraente para quem tem interesse em trabalhar com meio ambiente e saneamento b\u00e1sico.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da oferta de empregos na ind\u00fastria, a cidade tamb\u00e9m abriga o Centro de Capacita\u00e7\u00e3o e Pesquisa em Meio Ambiente da USP (Cepema), que re\u00fane pesquisadores interessados em desenvolver tecnologia contra a polui\u00e7\u00e3o.<br \/>\nFoi l\u00e1 que o engenheiro eletricista Mauro Braga, de 42 anos, descobriu tamb\u00e9m a voca\u00e7\u00e3o para o trabalho ambientalista.<br \/>\nAp\u00f3s se especializar em desenvolvimento de sensores \u00f3pticos, ele criou um nariz e uma l\u00edngua eletr\u00f4nicos que podem detectar poluentes no ar e na \u00e1gua.<br \/>\nMuito antes disso, Braga, filho de mineiros que foram para Cubat\u00e3o trabalhar na ind\u00fastria sider\u00fargica, queria ser m\u00e9dico.<\/p>\n<p>&#8220;Quando a crise come\u00e7ou, eu j\u00e1 tinha uns 5 ou 6 anos e ouvia muito sobre a regi\u00e3o em que meu pai trabalhava, que era do lado da Vila Parisi. Diziam que as pessoas que moravam pr\u00f3ximo da regi\u00e3o industrial tinham problemas respirat\u00f3rios. Eu queria ir para a \u00e1rea m\u00e9dica para ajudar&#8221;, relembra.<\/p>\n<p>A aptid\u00e3o para engenharia el\u00e9trica, no entanto, o levou para a ind\u00fastria e, em seguida, para as salas de aula. Anos depois, ele decidiu novamente usar os conhecimentos para lidar com a polui\u00e7\u00e3o em Cubat\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;No mestrado, eu acabei indo para a \u00e1rea de desenvolvimento de sensores e, com um centro de pesquisas ambientais aqui, vi que era um nicho no qual eu podia contribuir. Para n\u00f3s que somos do munic\u00edpio, isso \u00e9 muito importante.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Quis desenvolver uma estrat\u00e9gia de monitoramento para que as pessoas soubessem o quanto a polui\u00e7\u00e3o poderia estar afetando a vida delas.&#8221;<\/p>\n<p>O sistema de sensores, feito em parceria com uma empresa alem\u00e3, pode identificar e quantificar a presen\u00e7a de metais pesados nos rios e mangues da cidade. Uma adapta\u00e7\u00e3o permite que ele tamb\u00e9m seja usado para interagir com gases t\u00f3xicos liberados na atmosfera pelas f\u00e1bricas.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 uma solu\u00e7\u00e3o relativamente barata, comparada aos m\u00e9todos de an\u00e1lise tradicionais de laborat\u00f3rio. E poderia ser um apoio ao que j\u00e1 existe&#8221;, diz Mauro.<\/p>\n<p>&#8220;Uma rede de sensores instalados em diversos pontos, pr\u00f3ximo das fontes de polui\u00e7\u00e3o, pode dar uma ideia mais precisa do que est\u00e1 acontecendo. At\u00e9 para ter um plano de evacua\u00e7\u00e3o, em caso de acidente, isso \u00e9 importante.&#8221;<\/p>\n<p>O sistema j\u00e1 foi testado e ainda aguarda financiamento de \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos ou privados para come\u00e7ar a ser utilizado na cidade.<\/p>\n<p>Qualidade do ar<\/p>\n<p>Depois de chamar a aten\u00e7\u00e3o do mundo nos anos 1980, Cubat\u00e3o colocou em pr\u00e1tica um plano para controlar as emiss\u00f5es de poluentes na atmosfera, que lhe valeu reconhecimento durante a confer\u00eancia ambiemtal da ONU Eco-92, no Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Atualmente, o munic\u00edpio perdeu o posto de cidade mais polu\u00edda do mundo &#8211; e at\u00e9 mesmo do Brasil, segundo dados de 2014 da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade.<\/p>\n<p>O \u00f3rg\u00e3o mede a concentra\u00e7\u00e3o de dois tipos de material particulado na atmosfera, o PM10 e o PM2,5, cuja diferen\u00e7a est\u00e1 no tamanho das part\u00edculas poluidoras &#8211; como sulfato, nitratos e carbono &#8211; que penetram nos pulm\u00f5es e no sistema cardiovascular. As mais finas, PM2,5, s\u00e3o consideradas mais perigosas.<br \/>\nNa cidade paulista, os valores de PM10 e PM2,5 de 2014 ficaram abaixo, mas muito pr\u00f3ximos dos limites m\u00e1ximos de seguran\u00e7a estabelecidos pelo \u00f3rg\u00e3o &#8211; \u00edndices em que j\u00e1 h\u00e1 cerca de 15% mais chances de mortes prematuras.<\/p>\n<p>A OMS considera que a exposi\u00e7\u00e3o anual dos cubatenses ao material particulado PM2,5 ainda \u00e9 tr\u00eas vezes maior do que a considerada desej\u00e1vel.<br \/>\nNa \u00e1rea residencial da cidade, a qualidade do ar \u00e9 considerada boa, segundo a Companhia Ambiental do Estado de S\u00e3o Paulo (Cetesb).<\/p>\n<p>Mas em 2013 um estudo de pesquisadores da USP concluiu que, mesmo em n\u00edveis aceit\u00e1veis, a polui\u00e7\u00e3o do ar em Cubat\u00e3o ainda tem s\u00e9rios efeitos na sa\u00fade da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O trabalho afirma que, para cada aumento de 10 microgramas por metro c\u00fabico de material particulado PM10 no ar da \u00e1rea residencial, aumentava em at\u00e9 5% a quantidade de interna\u00e7\u00f5es por doen\u00e7as respirat\u00f3rias, especialmente em crian\u00e7as menores de cinco anos, e de doen\u00e7as cardiovasculares em maiores de 39 anos.<br \/>\nMem\u00f3ria<\/p>\n<p>Cleiton Jord\u00e3o formou-se em engenharia ambiental e em gest\u00e3o p\u00fablica. No final do ano passado, atuou como secret\u00e1rio do Meio Ambiente em Cubat\u00e3o, e diz que a cidade precisa ser mais eficiente no combate \u00e0 polui\u00e7\u00e3o atmosf\u00e9rica.<\/p>\n<p>&#8220;Foi muito dif\u00edcil (ser secret\u00e1rio) porque o Meio Ambiente n\u00e3o \u00e9 um foco dos governos. Nunca foi prioridade das administra\u00e7\u00f5es estruturar a secretaria de Meio Ambiente. N\u00e3o temos o nosso c\u00f3digo ambiental da cidade, n\u00e3o temos fiscais de controle ambiental&#8221;, diz.<\/p>\n<p>&#8220;Conseguimos criar um fundo municipal de meio ambiente, mas ainda est\u00e1 em fase de implanta\u00e7\u00e3o. Cubat\u00e3o precisa investir mais no mundo acad\u00eamico para encontrar mais solu\u00e7\u00f5es inovadoras contra a polui\u00e7\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<p>Apesar da fama mundial, n\u00e3o h\u00e1 na cidade museus, arquivos ou memoriais sobre o per\u00edodo em que a polui\u00e7\u00e3o afetou centenas de fam\u00edlias &#8211; o n\u00famero exato de crian\u00e7as nascidas com malforma\u00e7\u00f5es nunca foi estabelecido, e pesquisadores que viveram a \u00e9poca falam em press\u00e3o do governo militar para ocult\u00e1-lo.<br \/>\nJord\u00e3o \u00e9 hoje professor de ci\u00eancias no Ensino M\u00e9dio, e se preocupa com o pouco conhecimento que os adolescentes t\u00eam sobre a trag\u00e9dia.<\/p>\n<p>&#8220;Pergunto a meus alunos sobre a polui\u00e7\u00e3o naquele tempo e eles mal sabem. S\u00f3 os mais velhos sabem. Esse resgate deve ser feito para que n\u00e3o se comentam erros passados.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 como um c\u00e2ncer. A pessoa pode se curar do c\u00e2ncer, mas, se n\u00e3o tiver preocupa\u00e7\u00e3o e tomar todos os cuidados, ele pode voltar&#8221;, afirma.<br \/>\n<em><br \/>\nEsta reportagem faz parte da s\u00e9rie da BBC #SoICanBreathe, dedicada a problemas causados pela polui\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p><b>Autor: BBC<\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No final dos anos 1980, quando o engenheiro ambiental Cleiton Jord\u00e3o, de 33 anos, ainda era um menino, ele aprendeu o que era a &#8220;chuva que morde&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[31,6],"tags":[],"class_list":{"0":"post-27415","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","6":"category-meio-ambiente","7":"category-noticias"},"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Eles cresceram sob chuva \u00e1cida e hoje lutam como engenheiros pelo meio ambiente - 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