{"id":26683,"date":"2016-04-25T00:34:42","date_gmt":"2016-04-25T00:34:42","guid":{"rendered":"https:\/\/www.institutodeengenharia.org.br\/?p=26683"},"modified":"2016-04-25T15:45:55","modified_gmt":"2016-04-25T15:45:55","slug":"o-segredo-dos-edificios-que-nao-cairam-durante-o-terremoto-no-equador","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.institutodeengenharia.org.br\/site\/2016\/04\/25\/o-segredo-dos-edificios-que-nao-cairam-durante-o-terremoto-no-equador\/","title":{"rendered":"O segredo dos edif\u00edcios que n\u00e3o ca\u00edram durante o terremoto no Equador"},"content":{"rendered":"<p><em>&#8220;Um terremoto sempre pode matar, e tamb\u00e9m se pode morrer atravessando a rua, mas voc\u00ea corre mais riscos se atravessar de olhos fechados.&#8221;&nbsp;<\/p>\n<p><\/em>O engenheiro Enrique Garc\u00eda, especialista em danos s\u00edsmicos consultado pela BBC Mundo, o servi\u00e7o em espanhol da BBC, se refere assim aos problemas no setor de constru\u00e7\u00e3o que tiveram consequ\u00eancia direta nas mais de 600 mortes causadas pelo abalo de magnitude 7,8 que atingiu o Equador no \u00faltimo dia 16.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s suas primeiras visitas \u00e0s regi\u00f5es afetadas, o presidente Rafael Correa reconheceu que muitos pr\u00e9dios haviam ca\u00eddo por &#8220;m\u00e1 constru\u00e7\u00e3o&#8221;.&nbsp;<\/p>\n<p>Correa disse que o pa\u00eds adotou, ap\u00f3s os terremotos recentes no Chile e no Haiti, normas de constru\u00e7\u00e3o &#8220;muito mais fortes&#8221;. Da\u00ed surgiu a chamada Norma Equatoriana de Constru\u00e7\u00e3o (NEC). <br \/>\nPara o engenheiro estrutural Fabi\u00e1n Carrasco, contudo, as regras equatorianas s\u00e3o boas, mas pouco cumpridas no pa\u00eds.&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;As permiss\u00f5es de constru\u00e7\u00e3o dependem de cada munic\u00edpio. Alguns exigem a interven\u00e7\u00e3o de um engenheiro estrutural a partir de um determinado n\u00famero de andares, outros n\u00e3o, mas isso ocorre apenas no estudo das plantas, ent\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m que supervisione a constru\u00e7\u00e3o&#8221;, afirmou.&nbsp;<\/p>\n<p>Para Enrique Garc\u00eda, esse \u00e9 um dos pecados da constru\u00e7\u00e3o no Equador. Outros s\u00e3o a informalidade (as constru\u00e7\u00f5es ficam a cargo de mestres de obra e n\u00e3o de engenheiros ou arquitetos), a falta de controle de qualidade de materiais e aus\u00eancia de projetos s\u00edsmicos adequados. <br \/>\nA BBC Mundo percorreu regi\u00f5es afetadas com um arquiteto para analisar erros dos edif\u00edcios destru\u00eddos e acertos de constru\u00e7\u00f5es que n\u00e3o ca\u00edram.<\/p>\n<p>Primeira parada: Manta&nbsp;<\/p>\n<p>O cen\u00e1rio no porto mais importante do Equador \u00e9 desolador, com pr\u00e9dios emblem\u00e1ticos em estado de ru\u00edna. Mas, para um engenheiro estrutural, o importante n\u00e3o s\u00e3o os danos irrepar\u00e1veis, mas que o edif\u00edcio n\u00e3o caia e n\u00e3o provoque mortes em um eventual colapso.&nbsp;<\/p>\n<p>Isso ocorreu com v\u00e1rias casas em Manta, que simplesmente ca\u00edram sobre si mesmas ou se inclinaram violentamente porque suas bases n\u00e3o suportaram os andares superiores.<\/p>\n<p>A reportagem analisou duas dessas constru\u00e7\u00f5es &#8211; uma casa particular e um ponto comercial &#8211; e consultou o arquiteto Fausto Cardoso sobre poss\u00edveis causas do colapso.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c0 primeira vista, h\u00e1 um peso muito grande na parte superior e as estruturas n\u00e3o s\u00e3o suficientemente s\u00f3lidas para sustent\u00e1-la. O senso comum em zonas s\u00edsmicas indica que elementos mais pesados devem ficar embaixo, e conforme a constru\u00e7\u00e3o se eleva \u00e9 preciso ir aliviando o peso&#8221;, diz Cardoso.&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;Aqui vemos o contr\u00e1rio: colocam-se lajes de concreto acima, estruturas fr\u00e1geis abaixo e colunas pequenas no meio que cumprem uma fun\u00e7\u00e3o apenas est\u00e9tica, e n\u00e3o de suporte. Gasta-se muito em ornamentos, mas a seguran\u00e7a fica sem cuidado.&#8221;&nbsp;<\/p>\n<p>Outro elemento chave \u00e9 o uso adequado de materiais: uma boa quantidade de ferro para a coes\u00e3o da estrutura e o uso de areia de minas ou rios, nunca do mar.&nbsp;<\/p>\n<p>Muitos vizinhos da casa derrubada em Manta disseram que a maioria das resid\u00eancias na regi\u00e3o usavam areia de praia.&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;A areia do mar n\u00e3o \u00e9 boa para construir porque o sal danifica o concreto e termina corroendo o ferro&#8221;, afirma o arquiteto.&nbsp;<\/p>\n<p>Julio Berm\u00fadez, um dos especialistas que observavam as constru\u00e7\u00f5es, disse, a partir de sua experi\u00eancia como trabalhador na constru\u00e7\u00e3o civil, que n\u00e3o h\u00e1 t\u00e9cnica adequada nas obras no Equador.<\/p>\n<p>&#8220;Um terremoto como esse derrubaria casas em qualquer parte do mundo, mas h\u00e1 constru\u00e7\u00f5es que aguentaram porque foram erguidas de forma mais consciente. Muitas pessoas, para poupar dinheiro, economizam materiais. Ou os mestres de obra s\u00e3o inescrupulosos e usam materiais de menor qualidade. Isso ocorre n\u00e3o apenas em Manta, mas em todo o Equador.&#8221;&nbsp;<\/p>\n<p>Segunda parada: Ba\u00eda de Car\u00e1quez <br \/>\nNa entrada do cal\u00e7ad\u00e3o dessa cidade costeira h\u00e1 uma casa antiga que estava a ponto de ser tombada como patrim\u00f4nio hist\u00f3rico e ainda se mant\u00e9m de p\u00e9. Seus materiais? Madeira e bambu.<\/p>\n<p>&#8220;Cada lugar desenvolve uma tecnologia de acordo com o material que tem. Esses elementos t\u00eam a vantagem de ser muito leves. Movem-se com o terremoto e voltam \u00e0 posi\u00e7\u00e3o original, dissipando a energia&#8221;, assinala o arquiteto Cardoso, que tamb\u00e9m \u00e9 restaurador.&nbsp;<\/p>\n<p>Ele lamenta ao perceber como a derrubada de uma casa de cimento e concreto a poucos metros dali afetou paredes de casas de madeira vizinhas.&nbsp;<\/p>\n<p>O arquiteto afirma, no entanto, que n\u00e3o se trata de &#8220;satanizar&#8221; o cimento, j\u00e1 que toda tecnologia pode ser usada de forma respons\u00e1vel. Cita como exemplo o museu da cidade, que teve danos na fachada mas manteve a estrutura intacta.&nbsp;<\/p>\n<p>Cardoso diz acreditar que a informalidade na constru\u00e7\u00e3o civil ir\u00e1 continuar ap\u00f3s os efeitos do terremoto serem esquecidos. Para ele, o Estado deveria incentivar a retomada da chamada arquitetura vern\u00e1cula, com materiais pr\u00f3prios da regi\u00e3o, em vez de autorizar constru\u00e7\u00f5es perigosas de cimento que n\u00e3o cumprem regras adequadas.&nbsp;<\/p>\n<p>Mas isso n\u00e3o seria suficiente. Engenheiros estruturais lembram que erguer casas em locais inadequados como margens de rios, ravinas (buracos de eros\u00e3o) e encostas acaba anulando o efeito positivo do uso de materiais leves.&nbsp;<\/p>\n<p>Terceira parada: San Vicente <br \/>\nA pequena cidade em frente \u00e0 Bah\u00eda de Car\u00e1quez est\u00e1 unida ao munic\u00edpio vizinho por uma ponte que parece n\u00e3o ter sofrido danos pelo terremoto.&nbsp;<\/p>\n<p>Uma constru\u00e7\u00e3o chama a aten\u00e7\u00e3o do arquiteto. Dela saem ferros como jatos de \u00e1gua numa fonte. S\u00e3o os &#8220;ferros da esperan\u00e7a&#8221;, diz Cardoso. <br \/>\n&#8220;\u00c9 um fen\u00f4meno equatoriano e latinoamericano. As pessoas come\u00e7am uma obra com a esperan\u00e7a de acrescentar novos andares no futuro.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Em seguida, eles constroem as funda\u00e7\u00f5es com uma pequena estrutura de concreto, fazem paredes fechadas, fundem uma laje no piso t\u00e9rreo para usar como cobertura e lan\u00e7am um conjunto de ferros para andares futuros.&#8221;&nbsp;<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que a maresia na costa oxida os ferros, danificando a conex\u00e3o que esses diferentes andares ter\u00e3o no futuro.&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;O mundo imobili\u00e1rio me parece med\u00edocre e mesquinho&#8221;, diz Alejandro Aravena, chileno que ganhou o Nobel de Arquitetura.&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;Se acrescentarmos a isso os problemas de qualidade do material e o sal que entra no concreto ao utilizar areia do mar, estamos criando um coquetel de arquitetura extremamente perigoso quando existe risco s\u00edsmico, disse Cardoso.&nbsp;<\/p>\n<p>Quarta parada: Canoa&nbsp;<br \/>\nO estado da infraestrutura hoteleira \u00e9 fundamental para o futuro de um dos principais centros tur\u00edsticos da costa equatoriana, onde fica a cidade de Canoa.&nbsp;<\/p>\n<p>Mas um cen\u00e1rio pouco otimista se revela logo em um dos primeiros destinos: o hotel Royal Pacific perdeu todo o piso t\u00e9rreo devido ao colapso de sua estrutura &#8211; causando, segundo um vizinho, a morte de seis pessoas.&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o sabemos ao certo o que aconteceu. Nota-se que h\u00e1 um monte de ferro, mas ferro e concreto n\u00e3o funcionam juntos. O edif\u00edcio caiu em si, a estrutura permaneceu, mas a base n\u00e3o resistiu&#8221;, afirma Cardoso.<\/p>\n<p>A queda do Royal Pacific lembra o cl\u00e1ssico jogo Tetris, em que pe\u00e7as desaparecem ao atingir a superf\u00edcie. O primeiro piso foi completamente esmagado pelos andares superiores.&nbsp;<\/p>\n<p>Mas a dois quarteir\u00f5es desse hotel h\u00e1 outro sem rachaduras, como se o terremoto n\u00e3o tivesse ao menos ocorrido.&nbsp;<\/p>\n<p>Os dono do hotel Amalur s\u00e3o dois espanhois, Jos\u00e9 de San Diego e Lorena Rojo, e o segredo da constru\u00e7\u00e3o \u00e9 simples.&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;Levamos dois meses nas funda\u00e7\u00f5es, enquanto outros correm para come\u00e7ar o neg\u00f3cio mais r\u00e1pido e n\u00e3o fazem uma boa funda\u00e7\u00e3o&#8221;, disse Diego.&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;Muitas pessoas usam areia da praia e a maresia vai comendo o ferro. Usamos areia de rio, lavada e peneirada. Veja o tamanho de nossas colunas. E s\u00f3 levantamos um piso. A base do hotel \u00e9 de concreto e a parte de cima \u00e9 de madeira e bambu&#8221;, afirmou Lorena. <br \/>\nAmbos fazem uma descri\u00e7\u00e3o desoladora do que vinha ocorrendo com algumas constru\u00e7\u00f5es em Canoa. &#8220;Aqui apresentavam uma planta de um andar, constru\u00edam cinco e ningu\u00e9m ficava sabendo.&nbsp;<br \/>\nExistiam pr\u00e9dios que pareciam que iriam cair mesmo sem terremoto.&#8221;&nbsp;<\/p>\n<p>Isso ocorria mesmo ap\u00f3s um terremoto que atingiu Bah\u00eda de Car\u00e1quez e Canoa em 1998. <br \/>\nEmbora o presidente tenha manifestado inten\u00e7\u00e3o de aprender com os erros da &#8220;experi\u00eancia doloros\u00edssima&#8221;, o especialista Enrique Garc\u00eda se diz pessimista em rela\u00e7\u00e3o ao futuro.&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;Em 2008, houve um congresso em Bah\u00eda de Car\u00e1quez para determinar o que t\u00ednhamos aprendido com o terremoto de 1998, e veja o que aconteceu agora. Algumas medidas ir\u00e3o ser tomadas, mas acho que isso cair\u00e1 no esquecimento em um ano.&#8221;<\/p>\n<p><em><strong><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/noticias\/2016\/04\/160425_terremoto_segredo_tg\">Clique aqui<\/a> e confira mais imagens.<br \/>\n<\/strong><\/em><\/p>\n<p><b>Autor: BBC<\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Um terremoto sempre pode matar, e tamb\u00e9m se pode morrer atravessando a rua, mas voc\u00ea corre mais riscos se atravessar de olhos fechados.&#8221;&nbsp; O engenheiro Enrique Garc\u00eda, especialista em danos s\u00edsmicos consultado pela BBC Mundo, o servi\u00e7o em espanhol da BBC, se refere assim aos problemas no setor de constru\u00e7\u00e3o que tiveram consequ\u00eancia direta nas [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[26,6],"tags":[],"class_list":{"0":"post-26683","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","6":"category-infraestrutura","7":"category-noticias"},"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.5 - 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