{"id":26377,"date":"2016-01-20T00:30:51","date_gmt":"2016-01-20T00:30:51","guid":{"rendered":"https:\/\/www.institutodeengenharia.org.br\/?p=26377"},"modified":"2016-01-20T10:20:32","modified_gmt":"2016-01-20T10:20:32","slug":"euclides-da-cunha-a-150-anos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.institutodeengenharia.org.br\/site\/2016\/01\/20\/euclides-da-cunha-a-150-anos\/","title":{"rendered":"Euclides da Cunha \u2013 150 anos"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;&nbsp;<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" width=\"129\" height=\"173\" src=\"\/site\/userfiles\/Euclides da Cunha.JPG\" \/><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" width=\"250\" height=\"46\" src=\"\/site\/userfiles\/assinatura euclides.JPG\" \/><br \/>\nEuclides Rodrigues Pimenta da Cunha foi uma &#8220;mente brilhante\u201d &#8211; engenheiro, jornalista, historiador, poeta, escritor &#8211; a quem se pode atribuir o t\u00edtulo de \u201cpol\u00edmata\u201d, ou seja: \u201caquele que aprendeu muito\u201d, cuja erudi\u00e7\u00e3o e cultura o aproximavam do \u201chomem universal\u201d ou \u201chomem renascentista\u201d que se sobressai numa variedade de \u00e1reas do conhecimento. <\/p>\n<p>Nasceu em Cantagalo, RJ, em 20 de janeiro de 1866, primeiro filho de Manuel Rodrigues Pimenta da Cunha, baiano, guarda-livros e poeta<strong>&nbsp;\u00b9<\/strong>&nbsp;e de Eud\u00f3xia Moreira da Cunha, fluminense, filha de um pequeno plantador de caf\u00e9 do Vale do Para\u00edba. Seus av\u00f3s paternos foram Manuel da Cunha, portugu\u00eas, estabelecido na Bahia nos come\u00e7os do s\u00e9culo XIX, propriet\u00e1rio do veleiro \u201cPestana\u201d, utilizado para o trafico de escravos, casado com a cabocla sertaneja Teresa Maria de Jesus, dos quais Euclides herdou alguns dos tra\u00e7os que o faziam se autodefinir com ironia como \u201cUm misto de celta, tapuia e grego\u201d(&#8230;) ou \u201cDa face de um tapuia, espantad\u00edssima\u201d(&#8230;) ou ainda \u201cO mais triste, o mais p\u00e1lido e o mais feio\u201d(&#8230;). Aos tr\u00eas anos de idade perdeu a m\u00e3e, tuberculosa, doen\u00e7a que mais tarde tamb\u00e9m o afligiu em v\u00e1rias ocasi\u00f5es. Viveu, junto com a irm\u00e3 Ad\u00e9lia, num p\u00e9riplo n\u00f4made entre as resid\u00eancias de tios e av\u00f3s, freq\u00fcentando diferentes escolas em Teres\u00f3polis, S.Fidelis, Salvador e Rio de Janeiro onde, finalmente, ingressou no Col\u00e9gio Aquino. Ali escreveu seus primeiros poemas, publicou o primeiro artigo no jornal do col\u00e9gio e foi aluno de Benjamin Constant, republicano hist\u00f3rico que exerceu importante influ\u00eancia em sua forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e cultural. <\/p>\n<p>&#8211; Com 19 anos ingressou na Escola Polit\u00e9cnica do Rio de Janeiro que cursou durante um ano e por motivos econ\u00f4micos, no ano seguinte transferiu-se para a Escola Militar da Praia Vermelha, onde recebia soldo, alojamento e alimenta\u00e7\u00e3o. \u00c9 dessa \u00e9poca o poema \u201cAmor alg\u00e9brico\u201d em que o jovem estudante de engenharia se queixa das agruras dos exerc\u00edcios de c\u00e1lculo infinitesimal (que engenheiro n\u00e3o sofreu com eles?) dizendo em ir\u00f4nicos versos: \u201cAcabo de arrancar a fronte minha ardente\/Das p\u00e1ginas cru\u00e9is de um livro de Bertrand\u201d <strong>\u00b2<\/strong> &#8230;\u201dAcabo de estudar e p\u00e1lido, cansado\/D\u2019umas dez equa\u00e7\u00f5es os v\u00e9us hei arrancado\/\u201d&#8230; <\/p>\n<p>&#8211; Frequentou os cursos de Estado-Maior e Engenharia Militar, tendo como colegas, entre outros, C\u00e2ndido Rondon e Lauro Muller e onde voltou a ser aluno de Benjamin Constant que o atraiu para os seus ideais positivistas<strong>&nbsp;\u00b3<\/strong>&nbsp;de dever, honra e \u201cordem que gera o progresso\u201d. Al\u00e9m das disciplinas cient\u00edficas como C\u00e1lculo, Qu\u00edmica, Astronomia, Geod\u00e9sia, F\u00edsica, Mineralogia e outras, eram lecionadas mat\u00e9rias de cunho t\u00e9cnico como Topografia, Geologia, Pontes, Caminhos e Cal\u00e7adas (estradas), Hidr\u00e1ulica, Canais e Portos, Diques e Comportas, Arquitetura Civil, Materiais de Constru\u00e7\u00e3o e Or\u00e7amentos de obras. Ao longo da vida, Euclides foi um leitor voraz dos cl\u00e1ssicos, entre outros, dos tr\u00e1gicos gregos, \u00c9squilo, S\u00f3focles e Eur\u00edpides, da Divina Com\u00e9dia de Dante, al\u00e9m dos dramas de Shakespeare, do romance de cavalaria, Ivanho\u00e9 (1820), do escoc\u00eas Walter Scott, e da obra hist\u00f3rica do ingl\u00eas Thomas Carlyle: \u201cA Revolu\u00e7\u00e3o Francesa\u201d (1837), em que s\u00e3o criticados os abusos do poder revolucion\u00e1rio. Leu tamb\u00e9m os livros escritos sobre o Brasil, como as obras de Varnhagen, Morize, Caminho\u00e1, Silvio Romero, Capistrano de Abreu, Teodoro Sampaio, Derby, Liais. Conheceu os trabalhos de naturalistas, exploradores, fil\u00f3sofos e historiadores como: Humboldt, Darwin, Martius, Spix, St.Hilaire, Hegel, Taine. <\/p>\n<p>&#8211; Em 1888, contagiado pelo ardor republicano, fez protesto solit\u00e1rio durante revista \u00e0s tropas, arrojando sua espada aos p\u00e9s do ent\u00e3o Ministro da Guerra Tom\u00e1s Coelho, membro do \u00faltimo gabinete conservador da monarquia. Submetido ao Conselho de Disciplina e embora anistiado por D.Pedro II, teve sua matr\u00edcula trancada e foi desligado do Ex\u00e9rcito sob o pretexto de incapacidade f\u00edsica. <\/p>\n<p>&#8211; Convidado, passa a escrever no jornal \u201cA Prov\u00edncia de S\u00e3o Paulo\u201d, hoje \u201cO Estado de S\u00e3o Paulo\u201d e juntamente com outros partid\u00e1rios do ideal republicano, frequenta o efervescente ambiente da casa do major ga\u00facho Frederico S\u00f3lon Sampaio Ribeiro(1839-1900), onde conhece a filha, Ana Ribeiro, nascida em 1875 na cidade fronteiri\u00e7a de Jaguar\u00e3o (RS) no pampa riograndense. Coincidentemente Saninha, assim era chamada, era hom\u00f4nima de outra Ana Ribeiro (a catarinense Anita Garibaldi) e ambas, em suas \u00e9pocas, foram mulheres corajosas, independentes, voluntariosas e apaixonadas que acabado o amor e transgredindo as leis e costumes da \u00e9poca, seguiram os impulsos do cora\u00e7\u00e3o rompendo seus v\u00ednculos conjugais. Pagaram por isso um elevado pre\u00e7o: Anita, a vida nos alagadi\u00e7os de Ravena, na It\u00e1lia e Saninha, o vilip\u00eandio e a condena\u00e7\u00e3o de parte da sociedade e da imprensa brasileiras. <\/p>\n<p>&#8211; Proclamada a Rep\u00fablica, em que o major S\u00f3lon Ribeiro tem atua\u00e7\u00e3o singular<strong> 4<\/strong> , Euclides da Cunha \u00e9 reintegrado \u00e0 Escola Militar da Praia Vermelha, gra\u00e7as ao apoio de seu mestre e novo Ministro da Guerra, Benjamin Constant, de Rondon e de seus colegas de turma. No ano seguinte, casa-se, talvez prematuramente, com Ana Ribeiro, ele com 24 anos, ela menina-mo\u00e7a com 14 anos. Euclides, na ocasi\u00e3o, j\u00e1 inconformado com os rumos da pol\u00edtica, escreve no poema D.Quixote: \u201cPorque h\u00e1 cousa pior: \u00e9 o ir-se a pouco e pouco\/ Perdendo qual perdeste um ideal ardente\/ E ardentes ilus\u00f5es e n\u00e3o se ficar louco\u201d. <\/p>\n<p>&#8211; Com a eclos\u00e3o da 1\u00aa revolta da Armada, liderada pelo Almirante Cust\u00f3dio de Melo contra o fechamento do Congresso, determinado por Deodoro, que renuncia, assume o poder seu Vice, o tamb\u00e9m alagoano, Floriano Peixoto, denominado o \u201cMarechal de Ferro\u201d ou o \u201cConsolidador da Rep\u00fablica\u201d. <\/p>\n<p>&#8211; Euclides da Cunha graduou-se em 1892 como bacharel em Matem\u00e1ticas, Ci\u00eancias F\u00edsicas e Naturais obtendo, al\u00e9m da patente de 1\u00ba tenente, o cargo de Assistente de Ensino na mesma Escola Militar e rec\u00e9m-formado, recusa cargos p\u00fablicos oferecidos pelo Mal.Floriano, aceitando apenas o previsto em lei -: o est\u00e1gio de um ano na Estrada de Ferro Central do Brasil \u2014 trecho paulista da ferrovia, entre a capital e a cidade de Ca\u00e7apava, onde depois trabalharia como engenheiro. <\/p>\n<p>&#8211; Por ocasi\u00e3o da 2\u00aa revolta da Armada sob o comando de Saldanha da Gama, contra o continuismo do Mal.Floriano, o major S\u00f3lon, depois general, sogro de Euclides, foi preso por suposto envolvimento na rebeli\u00e3o. O pr\u00f3prio Euclides, dentro do clima de suspic\u00e1cia vigente e em virtude de ter escrito cartas publicadas na \u201cGazeta de Not\u00edcias\u201d, do Rio, de protesto contra os pedidos de execu\u00e7\u00e3o sum\u00e1ria dos prisioneiros pol\u00edticos, proposta pelo senador florianista Jo\u00e3o Cordeiro, do Cear\u00e1, foi transferido para a pequena cidade mineira de Campanha (MG) para dirigir a constru\u00e7\u00e3o de um quartel <strong>5<\/strong>. <\/p>\n<p>&#8211; Desencantado com a Rep\u00fablica e seus l\u00edderes, em 1896, contrariando as expectativas de seu sogro, abandonou a carreira militar e foi reformado como primeiro-tenente. No mesmo ano foi contratado pela Superintend\u00eancia de Obras P\u00fablicas do Estado de S\u00e3o Paulo, onde trabalhou por cerca de sete anos como engenheiro-ajudante de 1\u00aa classe e fiscal de obras, entre as quais uma ponte met\u00e1lica em S.Jos\u00e9 do Rio Pardo, projeto do engenheiro Artur de Montmorency <strong>6<\/strong>. Essa ponte, fabricada na Alemanha, chegou e foi montada no decorrer de 1897, ruindo 50 dias ap\u00f3s a inaugura\u00e7\u00e3o, em raz\u00e3o de excepcional cheia do Rio Pardo, no in\u00edcio de 1898.&nbsp;<\/p>\n<p>Euclides, havia se licenciado da Superintend\u00eancia de Obras para acompanhar o desenrolar da Guerra de Canudos no sert\u00e3o da Bahia, como rep\u00f3rter do jornal \u201cO Estado de S\u00e3o Paulo, para quem escrevera artigos de apoio \u00e0 a\u00e7\u00e3o militar (A nossa Vend\u00e9ia)&nbsp;<strong>7<\/strong>.<\/p>\n<p>&#8211; Euclides encontrou em Salvador o amigo, engenheiro de minas e historiador Henrique Praguer<strong> 8<\/strong>, profundo conhecedor da geologia do sert\u00e3o nordestino, chegando ao arraial de Canudos ou Monte Santo em 16 de setembro de 1897, convencido de que a rebeli\u00e3o comandada pelo \u201cfan\u00e1tico\u201d Antonio Conselheiro<strong> 9<\/strong> tinha o prop\u00f3sito de restaurar a monarquia como apregoavam as autoridades e a maior parte da imprensa do pa\u00eds. Deu-se conta do engano e mudou de opini\u00e3o ao verificar \u201cin loco\u201d a mis\u00e9ria daquela pobre gente desde sempre explorada e desassistida, de descobrir a resili\u00eancia do sertanejo, de ouvir os relatos dos participantes da triste refrega e testemunhar a morte do Conselheiro, o massacre dos sobreviventes <strong>10<\/strong>, o assalto e a destrui\u00e7\u00e3o finais do vilarejo, a queima da igreja e das 5000 casas de Monte Santo. Ali surgiu a id\u00e9ia de escrever \u201cOs Sert\u00f5es\u201d \u201co livro vingador\u201d ou como relataria mais tarde ao amigo Francisco de Escobar&nbsp;<strong>11<\/strong>&nbsp;&#8220;(&#8230;) Serei um vingador e terei desempenhado um grande papel na vida &#8211; o de advogado dos pobres sertanejos assassinados por uma sociedade pulha e sanguin\u00e1ria\u201d.&nbsp;<\/p>\n<p>No retorno a Salvador visita a fam\u00edlia Henrique Praguer e escreve no dia 14\/10\/1897, no \u00e1lbum da filha, a m\u00e9dica Francisca Praguer, o poema \u201cP\u00e1gina vazia\u201d, onde expressa o seu horror \u00e0 chacina de Canudos que acabara de presenciar: \u201cQuem volta da regi\u00e3o assustadora\/De onde eu venho, revendo inda na mente\/Muitas cenas do drama comovente\/Da guerra despiedada e aterradora(&#8230;).\u201d Anos mais tarde (1905) fazendo parte da Comiss\u00e3o do Alto Purus, envia de Manaus ao amigo Dr.Praguer o poema \u201cSe acaso uma alma se fotografasse\u201d que em publica\u00e7\u00e3o do \u201cEstado de S\u00e3o Paulo\u201d apresenta uma \u201cins\u00f3lita surpresa\u201d <strong>12<\/strong> pela diverg\u00eancia inexplicada entre as vers\u00f5es manuscrita e editada do mesmo. <\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" width=\"320\" height=\"202\" src=\"\/site\/userfiles\/img_1 euclides.JPG\" \/><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"324\" src=\"\/site\/userfiles\/imag_2 euclides(2).jpg\" \/><\/p>\n<p><strong>Ponte e canteiro de obras de Euclides da Cunha em S.Jos\u00e9 do Rio Pardo&nbsp;<\/p>\n<p><\/strong>&#8211; Retomando as suas fun\u00e7\u00f5es na Superintend\u00eancia de Obras, Euclides, em come\u00e7os de 1898, deixa temporariamente a vida de \u201cengenheiro errante\u201d e fixa resid\u00eancia em S.Jos\u00e9 do Rio Pardo, uma pacata cidade do interior de S\u00e3o Paulo, onde permanecer\u00e1 com a mulher Anna e os filhos S\u00f3lon (6) e Euclides F\u00ba (4), pelos pr\u00f3ximos tr\u00eas anos, aceitando o seu &#8220;triste of\u00edcio de engenheiro&#8221;, rigoroso consigo e com os seus, dividido entre os trabalhos de reconstru\u00e7\u00e3o da ponte e a reda\u00e7\u00e3o de \u201cOs Sert\u00f5es\u201d. Escreveu tamb\u00e9m para \u201cO Estado de S\u00e3o Paulo, uma resenha sobre o desenvolvimento do pa\u00eds entre 1800 e 1900, publicado no jornal na edi\u00e7\u00e3o de 31\/12\/1900 sob o t\u00edtulo \u201cO Brasil no s\u00e9culo XIX\u201d. Conclu\u00eddos o livro e a ponte e promovido a Chefe de Distrito de Obras P\u00fablicas em 1901, Euclides muda-se com a fam\u00edlia, agora acrescida do filho Manuel Afonso, para Guaratinguet\u00e1 e depois Lorena onde durante o tri\u00eanio seguinte escreve artigos publicados nos jornais \u201cO Estado de S\u00e3o Paulo\u201d e \u201cO Pa\u00eds\u201d alguns dos quais reunidos em livro (\u201cContrastes e confrontos\u201d) e desenvolve intensa atividade no campo da engenharia.&nbsp;<\/p>\n<p>&#8211; Segundo o historiador Jos\u00e9 Luiz Pasin, um dos principais pesquisadores da passagem do escritor pelo Vale do Para\u00edba, o acervo de realiza\u00e7\u00f5es de Euclides da Cunha \u201cinclui um total de 76 obras, entre pontes, escolas, cadeias e pr\u00e9dios municipais\u201d das quais apenas duas s\u00e3o tombadas pelo Condephaat: as escolas Alfredo Pujol, em Pindamonhangaba e Flam\u00ednio Lessa, em Guaratinguet\u00e1. Outros trabalhos que tiveram participa\u00e7\u00e3o de Euclides foram: o pr\u00e9dio escolar Lopes Chaves, de Taubat\u00e9, a ponte met\u00e1lica de Santa Branca, as estradas que ligam Cunha \u00e0 Guaratinguet\u00e1, Lorena ao Estado de Minas Gerais e Silveiras \u00e0 Cachoeira Paulista.&nbsp;<\/p>\n<p>&#8211; A grande batalha travada por Euclides da Cunha, na \u00e9poca, foi encontrar uma editora para a publica\u00e7\u00e3o de seu livro, j\u00e1 que para a imprensa o assunto perdera atualidade e interesse jornal\u00edstico e o volume da obra precursora (637 p\u00e1ginas) poderia representar um risco comercial apreci\u00e1vel mesmo contando com carta de recomenda\u00e7\u00e3o do engenheiro Garcia Redondo, da Escola Polit\u00e9cnica de S\u00e3o Paulo e do apoio do influente cr\u00edtico Jos\u00e9 Ver\u00edssimo.&nbsp;<\/p>\n<p>Apenas a Editora Laemmert, do Rio de Janeiro aceitou o desafio de dividir metade do custo da primeira edi\u00e7\u00e3o com o pr\u00f3prio Euclides, o qual, perfeccionista, al\u00e9m de empenhar seus parcos recursos, assumiu a ingente tarefa de corrigir \u00e0 m\u00e3o, durante quase um ano, minuciosa e meticulosamente, todos os 1200 volumes iniciais. A obra veio \u00e0 luz em fins de 1902 e para surpresa de todos: autor, editor e cr\u00edticos liter\u00e1rios, obteve um sucesso extraordin\u00e1rio trazendo fama instant\u00e2nea a Euclides da Cunha, que no dizer de S\u00edlvio Romero \u201cdormiu obscuro e acordou c\u00e9lebre\u201d. Os Sert\u00f5es se tornou um enorme sucesso de p\u00fablico e de cr\u00edtica no Brasil com repercuss\u00f5es no exterior, com mais de 50 edi\u00e7\u00f5es em l\u00edngua portuguesa e tradu\u00e7\u00f5es em pelo menos nove idiomas.&nbsp;<\/p>\n<p>&#8211; Em 1903, aos 37 anos, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras e tomou posse no Instituto Hist\u00f3rico e Geogr\u00e1fico de S\u00e3o Paulo. No ano seguinte deixa a Superintend\u00eancia de Obras e passa a escrever artigos para os jornais abordando temas de atualidade, com a proposi\u00e7\u00e3o de uma \u201cguerra dos cem anos\u201d contra as secas para erradica\u00e7\u00e3o da mis\u00e9ria no nordeste. O tema permanece atual, pois passado mais de um s\u00e9culo e depois de recursos p\u00fablicos aos milh\u00f5es malbaratados na \u201cind\u00fastria da seca\u201d e na manuten\u00e7\u00e3o dos \u201ccurrais eleitorais\u201d das sesmarias pol\u00edticas heredit\u00e1rias, o \u201cn\u00facleo duro da pobreza no Brasil\u201d ainda persiste end\u00eamico no sert\u00e3o profundo e nas favelas das grandes metr\u00f3poles pela inc\u00faria dos governos, a cupidez dos pol\u00edticos e a in\u00e9pcia cong\u00eanita das autarquias oficiais e seus apadrinhados dirigentes.&nbsp;<\/p>\n<p>&#8211; Euclides escreveu tamb\u00e9m sobre a quest\u00e3o dos conflitos de fronteira defendendo uma solu\u00e7\u00e3o diplom\u00e1tica para defini\u00e7\u00e3o dos limites territoriais do Acre, no Alto Purus, em raz\u00e3o do que foi convidado pelo Bar\u00e3o do Rio Branco, Ministro das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores, para chefiar, pelo lado brasileiro, a Comiss\u00e3o mista que demarcou de forma definitiva a fronteira do Brasil com o Peru. A miss\u00e3o ao alto Amazonas durou cerca de um ano e meio, at\u00e9 fevereiro de 1906, quando Euclides retorna ao Rio de Janeiro debilitado pela mal\u00e1ria tornando-se adido ao Gabinete de Rio Branco. Escreve notas complementares sobre a hist\u00f3ria e geografia do Purus e sobre o conflito Peru-Bol\u00edvia e publica em Portugal o livro \u201cContrastes e Confrontos\u201d. Trabalha nas especifica\u00e7\u00f5es da ferrovia Madeira-Mamor\u00e9, mas recusa, com justa raz\u00e3o, o convite para fiscalizar a respectiva constru\u00e7\u00e3o. Com a morte de Machado de Assis, preside temporariamente a Academia Brasileira de Letras, transferindo em seguida o cargo a Rui Barbosa. Por interfer\u00eancia de Coelho Neto e do Bar\u00e3o do Rio Branco junto ao Presidente Nilo Pe\u00e7anha \u00e9 nomeado professor de L\u00f3gica no col\u00e9gio Pedro II do Rio de Janeiro, onde leciona por um curto per\u00edodo.&nbsp;<\/p>\n<p>&#8211; No dia 15 de agosto de 1909, aos 43 anos, morre o engenheiro Euclides da Cunha, um dos maiores nomes da literatura brasileira de todos os tempos, num confronto temer\u00e1rio e fatal com o tenente Dilermando de Assis <strong>13<\/strong>&nbsp;, amante de sua mulher, em cuja casa ela e os filhos se haviam refugiado. Invertendo o conceito de que \u201ca arte imita a vida\u201d a biografia de Euclides foi uma saga cujo roteiro a faz assemelhar-se a uma trag\u00e9dia de \u00c9squilo, no sentido original do teatro cl\u00e1ssico grego. Teve in\u00edcio com a perda da m\u00e3e na inf\u00e2ncia, seguida pela resist\u00eancia her\u00f3ica \u00e0s vicissitudes da sa\u00fade fr\u00e1gil, os desencontros pol\u00edticos e desafios profissionais, a gl\u00f3ria liter\u00e1ria e a quase idolatria de seus admiradores, a incompreens\u00e3o de muitos, o respeito e orgulho da na\u00e7\u00e3o, o drama pessoal e enfim, o amargo desfecho novelesco, sempre explorado pela m\u00eddia, com as terr\u00edveis seq\u00fcelas que os fados lhe impuseram <strong>14<\/strong>. Os homens s\u00e3o fal\u00edveis, a vida \u00e9 ef\u00eamera, mas as obras de arte s\u00e3o eternas e por serem sempre atuais, sobrevivem e perenizam a mem\u00f3ria de seus criadores e realizadores.&nbsp;<\/p>\n<p><strong>\u201cOs sert\u00f5es\u201d <br \/>\n<\/strong>Os Sert\u00f5es \u00e9 a magnum opus ou opera magna de Euclides da Cunha, que significa a obra m\u00e1xima ou a maior e mais renomada de um autor. De forma an\u00e1loga poderiam ser citadas como as magnum opus de v\u00e1rios autores c\u00e9lebres: O Pr\u00edncipe de Maquiavel, a \u00f3pera O Guarani de Carlos Gomes, o filme Deus e o Diabo na Terra do Sol de Glauber Rocha(tamb\u00e9m baseado na trag\u00e9dia de Canudos), os Lus\u00edadas de Cam\u00f5es, a Gioconda de Leonardo da Vinci, a Divina Com\u00e9dia, de Dante Alighieri e outras mais.&nbsp;<\/p>\n<p>Segundo Roberto Ventura <strong>15<\/strong>&nbsp;, em pesquisa feita em 1994, com 15 intelectuais pelo jornalista Rinaldo Gama, da revista Veja, o livro foi apontado como o mais importante da cultura brasileira. A obra de Euclides recebeu um total de 15 votos, seguida de Casa-Grande &amp; Senzala (1933), de Gilberto Freyre, com 14, e Macuna\u00edma (1928), de M\u00e1rio de Andrade, com 11. Machado de Assis foi, por\u00e9m, o escritor mais votado, e o \u00fanico a figurar na lista com duas obras: Mem\u00f3rias P\u00f3stumas de Br\u00e1s Cubas (1881) e Dom Casmurro (1899).&nbsp;<\/p>\n<p>&#8211; Traduzido para o ingl\u00eas como \u201cRebellion in the Backlands\u201d dele diz a Encyclop\u00e6dia Britannica: \u201cTalvez o livro mais importante da literatura brasileira (&#8230;) que \u00e9 ao mesmo tempo um relato hist\u00f3rico da rebeli\u00e3o de um grupo de fan\u00e1ticos religiosos contra a rec\u00e9m proclamada rep\u00fablica e um brilhante estudo do \u00e1rido sert\u00e3o nordestino\u201d. Comenta ainda a EB: \u201cOs turbulentos anos que se seguiram \u00e0 aboli\u00e7\u00e3o da escravatura no Brasil, em 1888 e a proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica em 1889, trouxeram \u00e0 tona, na virada do s\u00e9culo, a uma s\u00e9rie de angustiantes quest\u00f5es para as quais os brasileiros mais esclarecidos buscavam respostas, na an\u00e1lise da problem\u00e1tica de sua p\u00e1tria como o derivativo natural de um extraordin\u00e1rio am\u00e1lgama entre o homem, a terra e o clima. Coube a um engenheiro militar e jornalista, Euclides da Cunha (1866-1909) desvendar os verdadeiros fundamentos da brasilidade criando com o indescrit\u00edvel \u00e9pico \u201cOs Sert\u00f5es\u201d uma obra que \u00e9 considerada a b\u00edblia da nacionalidade brasileira. O autor e sua obra se transformaram em \u00edcones da na\u00e7\u00e3o\u201d. E mais sobre a obra pioneira: \u201cFoi a primeira manifesta\u00e7\u00e3o escrita em favor do Brasil dos exclu\u00eddos \u2013 a pedra angular de todos os estudos que &#8211; independentemente da forma &#8211; a sucederam, buscando revelar as potencialidades e debilidades da na\u00e7\u00e3o. Euclides da Cunha centralizou o foco de &#8211; Os Sert\u00f5es &#8211; na figura que emerge do Brasil profundo, o sertanejo\u201d.&nbsp;<\/p>\n<p>Os aspectos liter\u00e1rios, estil\u00edsticos, lingu\u00edsticos, ficcionais, psicol\u00f3gicos e cient\u00edficos de \u201cOs Sert\u00f5es\u201d foram analisados por cr\u00edticos e especialistas competentes que ao longo dos \u00faltimos 100 anos se debru\u00e7aram sobre essa obra precursora e est\u00e3o dispon\u00edveis na vast\u00edssima bibliografia existente, n\u00e3o sendo objeto desta resenha.&nbsp;<\/p>\n<p>Euclides, no pre\u00e2mbulo do livro, definiu o fio original da obra e as premissas de sua estrutura como um libelo e uma retrata\u00e7\u00e3o de um erro hist\u00f3rico similar ao \u201cJ\u2019accuse\u201d (1898) de \u00c9mile Zola <strong>16<\/strong>&nbsp;: \u201cAquela campanha lembra um refluxo para o passado. E foi, na significa\u00e7\u00e3o integral da palavra, um crime. Denunciemo-lo.\u201d E o faz buscando contar a hist\u00f3ria verdadeira de Canudos, diversa das vers\u00f5es oficiais propaladas pela m\u00eddia: \u201dE tanto quanto o permitir a firmeza do nosso esp\u00edrito fa\u00e7amos jus ao admir\u00e1vel conceito de Taine <strong>17<\/strong>&nbsp;sobre o narrador sincero que encara a hist\u00f3ria como ela o merece (em tradu\u00e7\u00e3o livre)-\u201cele se irrita contra as meias verdades que s\u00e3o meias mentiras, contra os autores que n\u00e3o modificam sequer uma data ou uma genealogia, mas deturpam os sentimentos e os costumes, que preservam o contorno dos acontecimentos e lhes alteram a cor, que copiam os fatos e lhes desfiguram a alma: ele quer sentir-se como b\u00e1rbaro entre os b\u00e1rbaros e anci\u00e3o entre os anci\u00f5es.\u201d\u201d- (Os Sert\u00f5es, Nota Preliminar). Conclui preconizando uma solu\u00e7\u00e3o para o resgate da mis\u00e9ria que desde sempre assola o sert\u00e3o: \u201d Decididamente era indispens\u00e1vel que a campanha de Canudos tivesse um objetivo superior \u00e0 fun\u00e7\u00e3o est\u00fapida e bem pouco gloriosa de destruir um povoado dos sert\u00f5es. Havia um inimigo mais s\u00e9rio a combater, em guerra mais demorada e digna. Toda aquela campanha seria um crime in\u00fatil e b\u00e1rbaro, se n\u00e3o se aproveitassem os caminhos abertos \u00e0 artilharia para uma propaganda tenaz, cont\u00ednua e persistente, visando trazer para o nosso tempo e incorporar \u00e0 nossa exist\u00eancia aqueles rudes compatriotas retardat\u00e1rios\u201d.&nbsp;<\/p>\n<p>Segundo o m\u00e9todo de Taine que consistia em fazer hist\u00f3ria e compreender o homem \u00e0 luz de tr\u00eas fatores: meio ambiente, ra\u00e7a e momento hist\u00f3rico, Euclides da Cunha dividiu \u201cOs Sert\u00f5es\u201d em 10 cap\u00edtulos e tr\u00eas partes:&nbsp;<\/p>\n<p>A terra (58 pgs.)&nbsp;<\/p>\n<p>Nela descreve de forma cient\u00edfica e \u00e1s vezes po\u00e9tica, sempre buscando o adjetivo ins\u00f3lito e a palavra exata, a flora, as caatingas, a forma\u00e7\u00e3o e evolu\u00e7\u00e3o geol\u00f3gica, a hidrografia e a conforma\u00e7\u00e3o orogr\u00e1fica do sert\u00e3o nordestino. Estuda a influ\u00eancia do tempo, da chuva \u00e1cida e do clima da regi\u00e3o expondo uma teoria sobre as secas, a forma\u00e7\u00e3o de desertos e sugere maneiras de combat\u00ea-los. <\/p>\n<p>O homem (149 pgs.) <\/p>\n<p>P\u00f5e em evid\u00eancia o autoctonismo do \u201chomo americanus\u201d e considera a influ\u00eancia da variabilidade mesol\u00f3gica nos tr\u00eas elementos essenciais de nossa forma\u00e7\u00e3o \u00e9tnica, o branco, o negro e o \u00edndio, dando origem \u00e0s sub-ra\u00e7as mesti\u00e7as do Brasil. Da\u00ed a heterogeneidade racial brasileira acentuada pela vinda dos emigrantes que vieram substituir o trabalho escravo. Mostra a g\u00eanesis dos v\u00e1rios tipos de brasileiros como o jagun\u00e7o, os vaqueiros que se insularam nas regi\u00f5es do interior, o sertanejo, o ga\u00facho e a religiosidade mesti\u00e7a que alimentam. Conclui que as agita\u00e7\u00f5es sertanejas s\u00e3o baseadas no fanatismo que seria o caso de Canudos. Ele escreve: \u201cO sertanejo \u00e9, antes de tudo, um forte\u201d e em rela\u00e7\u00e3o aos cr\u00edticos que o acusavam de incoer\u00eancia dizendo de um lado \u201d N\u00e3o temos unidade de ra\u00e7a. N\u00e3o a teremos, talvez nunca\u201d (p\u00e1g. 70) e a proposi\u00e7\u00e3o de que \u201cem Canudos se atacava a rocha viva de nossa ra\u00e7a&#8221; (p\u00e1g. 616) responde, no pref\u00e1cio da 2\u00aa edi\u00e7\u00e3o: \u201cQuer dizer que neste composto indefin\u00edvel &#8212; o brasileiro &#8212; encontrei alguma coisa que \u00e9 est\u00e1vel, um ponto de resist\u00eancia recordando a mol\u00e9cula integrante das cristaliza\u00e7\u00f5es iniciadas. E era natural que, admitida a arrojada e animadora conjetura de que estamos destinados \u00e0 integridade nacional, eu visse naqueles rijos caboclos o n\u00facleo de for\u00e7a da nossa constitui\u00e7\u00e3o futura, a rocha viva da nossa ra\u00e7a.\u201d&nbsp;<\/p>\n<p>A luta (439 pgs.) <\/p>\n<p>Relata em v\u00e1rios cap\u00edtulos as 5 expedi\u00e7\u00f5es do Ex\u00e9rcito contra o arraial de Canudos envolvendo cerca de 18000 soldados, por um per\u00edodo de aproximadamente um ano (10\/1896-09\/1897), num crescendo de viol\u00eancia e vandalismo conclu\u00eddos com a morte do Conselheiro e a destrui\u00e7\u00e3o total de Monte Santo. Reunindo seus conhecimentos militares e aptid\u00f5es po\u00e9tico-liter\u00e1rias Euclides analisa as estrat\u00e9gias e t\u00e1ticas das lutas, descreve o teatro das opera\u00e7\u00f5es e as rea\u00e7\u00f5es dos combatentes, e mant\u00e9m a tens\u00e3o da narrativa que culmina com seu \u00e9pico e tr\u00e1gico final. <\/p>\n<p><strong>Euclides da Cunha e a ecologia <br \/>\n<\/strong><br \/>\nA perenidade e atualidade de Euclides ficam patentes em \u201cOs Sert\u00f5es\u201d ao abordar a a\u00e7\u00e3o do homem como agente modificador da natureza, a influ\u00eancia do desmatamento sobre o clima, a chuva \u00e1cida como resultado das queimadas, a varia\u00e7\u00e3o dos ciclos hidrol\u00f3gicos dos rios. Ou\u00e7amo-lo: <\/p>\n<p>\u201cEsquecemo-nos, todavia, de um agente geol\u00f3gico not\u00e1vel &#8212; o homem. Este, de fato, n\u00e3o raro reage brutalmente sobre a terra e entre n\u00f3s, nomeadamente, assumiu, em todo o decorrer da hist\u00f3ria, o papel de um terr\u00edvel fazedor de desertos. Come\u00e7ou isto por um desastroso legado ind\u00edgena. Na agricultura primitiva dos silv\u00edcolas era instrumento fundamental &#8212; o fogo. Cultivavam-na. Renovavam o mesmo processo na esta\u00e7\u00e3o seguinte, at\u00e9 que, de todo exaurida, aquela mancha da terra fosse, imprest\u00e1vel, abandonada em caapuera &#8212; mato extinto &#8212; como o denuncia a etimologia tupi, jazendo dali por diante irremediavelmente est\u00e9ril(&#8230;) Veio depois o colonizador e copiou o mesmo proceder. Engravesceu-o ainda com o adotar, exclusivo, no centro do pa\u00eds, fora da estreita faixa dos canaviais da costa, o regime francamente pastoril. Abriram-se desde o alvorecer do s\u00e9culo 17, nos sert\u00f5es abusivamente sesmados, enorm\u00edssimos campos, comp\u00e1scuos sem divisas, estendendo-se pelas chapadas em fora. Abria-os, de id\u00eantico modo, o fogo livremente aceso, sem aceiros, avassalando largos espa\u00e7os, solto nas lufadas violentas do nordeste. Aliou-se-lhe ao mesmo tempo o sertanista ganancioso e bravo, em busca do silv\u00edcola e do ouro. Ora, estas selvatiquezas atravessaram toda a nossa hist\u00f3ria. Imaginem-se os resultados de semelhante processo aplicado, sem variantes, no decorrer de s\u00e9culos&#8230;\u201d&nbsp;<\/p>\n<p>Como um dos primeiros ecologistas, intelectualmente honestos, que buscam consciente e cientificamente a causa dos problemas e as maneiras corretas de mitig\u00e1-los ele escreve:&nbsp;<\/p>\n<p><em>\u201c Como se extingue o deserto.&nbsp;<\/p>\n<p>Quem atravessa as plan\u00edcies elevadas da Tun\u00edsia, entre Beja e Biserta, \u00e0 ourela do Saara, encontra ainda, no desembocar dos vales, atravessando normalmente o curso caprichoso e em torcicolos dos oueds <strong>18<\/strong>&nbsp;, restos de antigas constru\u00e7\u00f5es romanas. Os romanos depois da tarefa da destrui\u00e7\u00e3o de Cartago tinham posto ombros \u00e0 empresa incomparavelmente mais s\u00e9ria de vencer a natureza antagonista. E ali deixaram bel\u00edssimo tra\u00e7o de sua expans\u00e3o hist\u00f3rica. Perceberam com seguran\u00e7a o v\u00edcio original da regi\u00e3o, est\u00e9ril menos pela escassez das chuvas do que pela sua p\u00e9ssima distribui\u00e7\u00e3o adstrita aos relevos topogr\u00e1ficos. Corrigiram-no. O regime torrencial que ali aparece intens\u00edssimo em certas quadras, determinando alturas pluviom\u00e9tricas maiores que as de outros pa\u00edses f\u00e9rteis e exuberantes, era, como nos sert\u00f5es do nosso pa\u00eds, al\u00e9m de in\u00fatil, nefasto.\u201d&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cAs ravinas recortando-se em g\u00e2nglios estagnados dividiram-se em a\u00e7udes abarreirados pelas muralhas que trancavam os vales, e os oueds, parando, intumesciam-se entre os morros, conservando largo tempo as grandes massas l\u00edquidas, at\u00e9 ent\u00e3o perdidas, ou levando-as, no transbordarem, em canais laterais aos lugares pr\u00f3ximos mais baixos, onde se abriam em sangradouros e levadas, irradiantes por toda a parte, e embebendo o solo. De sorte que este sistema de represas, al\u00e9m de outras vantagens, criara um esfor\u00e7o de irriga\u00e7\u00e3o geral. Ademais, todas aquelas superf\u00edcies l\u00edquidas esparsas em grande n\u00famero e n\u00e3o resumidas a um Quixad\u00e1 \u00fanico &#8212; monumental e in\u00fatil &#8212; expostas \u00e0 evapora\u00e7\u00e3o, acabaram reagindo sobre o clima, melhorando-o. Foi o celeiro da It\u00e1lia; a fornecedora quase exclusiva, de trigo, dos romanos.\u201d&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o h\u00e1 alvitrar-se outro recurso. As cisternas, po\u00e7os artesianos e raros, ou longamente espa\u00e7ados lagos como o de Quixad\u00e1, t\u00eam um valor local, inapreci\u00e1vel. Visam de um modo geral, atenuar a \u00faltima das conseq\u00fc\u00eancias da seca &#8212; a sede; e o que h\u00e1 a combater e a debelar nos sert\u00f5es do Norte &#8212; \u00e9 o deserto. O mart\u00edrio do homem, ali, \u00e9 reflexo de tortura maior, mais ampla, abrangendo a economia geral da Vida.\u201d&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cNasce do mart\u00edrio secular da terra\u2026\u201d&nbsp;<\/p>\n<p><\/em>Em artigo do jornalista Washington Novaes no jornal \u201cO Estado de S\u00e3o Paulo\u201d (30\/10\/2009) sob o t\u00edtulo \u201cA verdade \u00fanica da transposi\u00e7\u00e3o\u201d o mesmo comenta que \u201co problema de \u00e1gua nas regi\u00f5es a serem beneficiadas n\u00e3o era de escassez, e sim de m\u00e1 gest\u00e3o \u2013 pois existem ali, em 70 mil a\u00e7udes, nada menos que 37 bilh\u00f5es de metros c\u00fabicos (m\u00b3) de \u00e1gua (sem redes que os distribuam) quando a transposi\u00e7\u00e3o levar\u00e1 2,1 bilh\u00f5es de m\u00b3, mas tamb\u00e9m sem redes de distribui\u00e7\u00e3o para as \u00e1reas isoladas, mais carentes. Nada menos que 70% da \u00e1gua se destinar\u00e1 a projetos de irriga\u00e7\u00e3o e 26% ao abastecimento de cidades\u201d. \u201cAl\u00e9m do mais, a disponibilidade de \u00e1gua no Nordeste setentrional \u00e9 de 220 m\u00b3 por segundo, para um consumo humano e industrial de 22m\u00b3\/s; e ser\u00e1 de 131m\u00b3\/segundo o consumo na irriga\u00e7\u00e3o previsto no projeto (226 mil hectares).\u201d \u201c&#8230;.a transposi\u00e7\u00e3o atender\u00e1 a menos de 20% da popula\u00e7\u00e3o do Semi\u00e1rido e 40% continuar\u00e3o sem \u00e1gua. Para esses milh\u00f5es de pessoas em \u00e1reas isoladas, a alternativa ideal est\u00e1 nas cisternas de placa <strong>19<\/strong>&nbsp;, das quais j\u00e1 se constru\u00edram mais de 200 mil, a um custo muito menor.\u201d&nbsp;<\/p>\n<p>Se vivo fosse, Euclides da Cunha certamente n\u00e3o aprovaria o projeto de Transposi\u00e7\u00e3o do rio S\u00e3o Francisco nos moldes em que est\u00e1 sendo realizado. <\/p>\n<p><strong>Miracyr Assis Marcato <br \/>\n01\/2016&nbsp;<\/p>\n<p>OBSERVA\u00c7\u00d5ES<\/strong><\/p>\n<p>1 &#8211; O pai, Manuel da Cunha era admirador do conterr\u00e2neo Castro Alves e teve um de seus poemas publicados juntamente com a 2\u00aa edi\u00e7\u00e3o de \u201cEspumas Flutuantes\u201d do vate baiano. <\/p>\n<p>2 &#8211;&nbsp;Joseph Bertrand \u2013 matem\u00e1tico franc\u00eas (1822-1900). <\/p>\n<p>3 &#8211; &nbsp;Doutrina de orienta\u00e7\u00e3o cientificista do fil\u00f3sofo franc\u00eas Augusto Comte (1798-1857). <\/p>\n<p>4 &#8211; Diz-se que buscando antecipar e garantir a participa\u00e7\u00e3o do Mal.Deodoro, que se encontrava acamado, na iniciativa de deflagrar a Proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica, o major S\u00f3lon, por inspira\u00e7\u00e3o de Quintino Bocai\u00fava e outros republicanos, consegue esse objetivo divulgando falsos boatos da iminente pris\u00e3o do pr\u00f3prio Marechal e de Benjamin Constant e da inten\u00e7\u00e3o do Imperador de nomear como 1\u00ba Ministro a Silveira Martins, desafeto do Mal.Deodoro desde a juventude, quando ambos disputaram o amor de uma bela vi\u00fava, a Baronesa do Triunfo. O major S\u00f3lon foi tamb\u00e9m o portador, no dia 16\/11\/1889, da carta de ex\u00edlio de D.Pedro II e segundo alguns, da oferta do Governo (Rui Barbosa) de uma indeniza\u00e7\u00e3o de 5 mil contos de reis, recusada pelo mesmo, que pediu apenas uma almofada preenchida com terra do Brasil para \u201crepousar a cabe\u00e7a quando morresse\u201d. O Imperador faleceu em Paris a 5\/12\/1891. <\/p>\n<p>5 &#8211; Segundo o ex- Ministro da Defesa, Nelson Jobim, em depoimento no Senado, a Marinha, desde ent\u00e3o, teria \u201cficado confinada nos fundos da baia da Guanabara\u201d, fato que estaria sendo corrigido com o plano de reaparelhamento da frota que previa, entre outras aquisi\u00e7\u00f5es, a implanta\u00e7\u00e3o de um novo estaleiro e uma base para submarinos no litoral fluminense. O acordo estabelecido com a Fran\u00e7a inclui a transfer\u00eancia de tecnologia para constru\u00e7\u00e3o do casco do futuro submarino nuclear brasileiro(US$ 1 bilh\u00e3o) previsto para entrar em servi\u00e7o a partir de 2020, cujos sistemas de propuls\u00e3o e eletr\u00f4nica embarcada est\u00e3o em fase de desenvolvimento e atualiza\u00e7\u00e3o no Centro Experimental de Aramar da Marinha em Iper\u00f3 (SP). <\/p>\n<p>6 &#8211; Artur de Montmorency , nascido no Rio de Janeiro, era um engenheiro civil experiente, formado na Universidade de Gand (B\u00e9lgica) que havia trabalhado com Ramos de Azevedo e na Companhia Mogiana de Estradas de Ferro em S\u00e3o Paulo. <\/p>\n<p>7&nbsp; &#8211; Revolta de 1793 dos camponeses cat\u00f3licos das regi\u00f5es da Vend\u00e9ia (Poitou), Bretanha e Anjou (Fran\u00e7a) contra a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, relatada no romance \u201cNoventa e tr\u00eas\u201d (1874) de Victor Hugo e na \u201cHist\u00f3ria da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa\u201d de Jules Michelet. <\/p>\n<p>8 &#8211; Heinrich Haberfeld, (1837-1906) foi um engenheiro de origem judaica, nascido em Zagreb (Cro\u00e1cia), que fugindo de persegui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, emigrou para o Brasil e adotando o nome de Henrique Praguer , estabeleceu-se na Bahia, onde iniciou a prospec\u00e7\u00e3o de jazidas de pedras preciosas e outros minerais: merc\u00fario, mangan\u00eas, caulim, etc., executou in\u00fameras obras p\u00fablicas (edif\u00edcios, ferrovias, portos) e casou-se em 1867 com Francisca Rosa Barreto, natural de Cachoeira (BA), uma precursora do feminismo na Bahia. Sua filha, Francisca Barreto Praguer,(1872-1931) uma das primeiras m\u00e9dicas formadas no Estado (1893), foi tamb\u00e9m uma feminista e defensora dos direitos de sa\u00fade da mulher. Casou-se, em 1899, com Jo\u00e3o Am\u00e9rico Garcez Fr\u00f3es, seu ex-colega de Faculdade, adotando o nome de Francisca Praguer Froes. <\/p>\n<p>9 &#8211; Ant\u00f4nio Vicente Mendes Maciel (1830-1897), mais conhecido como Antonio Conselheiro era um cearense de Quixeramobim, que fora comerciante, professor, advogado pr\u00e1tico e que, tra\u00eddo pela mulher, perambulou pelo sert\u00e3o durante 25 anos, vestido com uma t\u00fanica de algod\u00e3o, barba e cabelos crescidos, cajado na m\u00e3o, tornando-se um pregador carism\u00e1tico, um taumaturgo messi\u00e2nico e um profeta \u201cdo fim do mundo\u201d que atraia as multid\u00f5es. Euclides comentou ironicamente em \u201cOs Sert\u00f5es\u201d a sua misoginia: \u201cA beleza era-lhes a face tentadora de Sat\u00e3. O Conselheiro extremou-se mesmo no mostrar por ela invenc\u00edvel horror. Nunca mais olhou para uma mulher. Falava de costas mesmo \u00e0s beatas velhas, feitas para amansarem s\u00e1tiros\u201d. Estabeleceu-se em Canudos (BA), um pequeno povoado \u00e0 margem do rio Vaza Barris em 1893, onde reuniu cerca de 25.000 seguidores. Passou a criticar a separa\u00e7\u00e3o entre Igreja e Estado, a cobran\u00e7a for\u00e7ada de impostos, o casamento civil e as injusti\u00e7as sociais causando rea\u00e7\u00f5es contr\u00e1rias de pol\u00edticos, latifundi\u00e1rios, Igreja e imprensa que o qualificaram como \u201cperigoso monarquista&#8221; a servi\u00e7o de pot\u00eancias estrangeiras. <\/p>\n<p>10 &#8211;&nbsp;A hedionda degola dos prisioneiros, usual nas pelejas e entreveros da Revolu\u00e7\u00e3o Farroupilha, nas lutas em defesa das fronteiras sulinas do pa\u00eds, n\u00e3o foi primazia dos batalh\u00f5es ga\u00fachos, pois segundo o escritor L. F.Ver\u00edssimo e contrariando o c\u00f3digo de honra dos cavaleiros medievais, foi tamb\u00e9m praticada pelos ingleses contra os franceses ap\u00f3s a batalha de Agincourt (1415) como referido na pe\u00e7a Henrique V de Shakespeare. Por outro lado a barb\u00e1rie continua presente nas guerras e guerrilhas modernas com o absurdo incremento das fatalidades entre civis, mulheres e crian\u00e7as indefesas (que eram de 5% nas \u201cguerras her\u00f3icas\u201d e hoje somam 95%), como se observa nos conflitos recentes que ainda assolam o nosso mundo atual. <\/p>\n<p>11- Francisco Escobar(1865-1924) foi um advogado, administrador, pol\u00edtico, intelectual e senador mineiro, natural de Camanducaia, dono de vast\u00edssima erudi\u00e7\u00e3o e cultura, leitor dos cl\u00e1ssicos greco-latinos no original, possuidor de uma biblioteca com um acervo de mais de 7000 volumes. Foi intendente municipal de S\u00e3o Jos\u00e9 do Rio Pardo entre 1896 a 1899, per\u00edodo em que conheceu Euclides da Cunha com quem estabeleceu s\u00f3lida amizade e do qual foi incentivador sol\u00edcito, ouvinte atento e conselheiro atencioso nas leituras que o pr\u00f3prio Euclides lhe fazia, de trechos dos \u201cSert\u00f5es\u201d que ent\u00e3o estava escrevendo. <\/p>\n<p>12 &#8211; No Caderno 2 \u2013 Cultura &#8211; em homenagem a Euclides da Cunha, edi\u00e7\u00e3o Especial do \u201cEstad\u00e3o\u201dde 23\/08\/2009 foi publicada, na parte superior da p\u00e1gina H8, tendo como fonte a Editora Unesp, a c\u00f3pia manuscrita do cart\u00e3o original do mesmo contendo os versos \u201cMeu caro Doutor Praguer! Com certeza\/Te assaltaria a m\u00e1xima surpresa\/\u201d (&#8230;) que na vers\u00e3o editada, na parte inferior da mesma p\u00e1gina, aparece como: \u201cPoeta! Tu terias com certeza\/A mais completa e ins\u00f3lita surpresa\u201d(&#8230;) desaparecendo a cita\u00e7\u00e3o ao Dr.Praguer, o amigo de Euclides. Quem e por qual raz\u00e3o teria modificado os versos originais? Fica a pergunta e a d\u00favida. <\/p>\n<p>13 &#8211;&nbsp;Dilermando de Assis era um jovem e louro cadete ga\u00facho de 17 anos que conheceu Saninha, ent\u00e3o com 30 anos, na pens\u00e3o Monat, no Rio, onde ela e os 3 filhos viveram durante a longa viagem de Euclides ao Alto Amazonas. Apaixonaram-se. Na volta Euclides encontrou Saninha gr\u00e1vida de um filho de Dilermando, Mauro, que faleceu rec\u00e9m-nascido, de inani\u00e7\u00e3o, segundo se conta. Em novembro de 1907 nasce o filho Luiz que anos mais tarde mudaria o sobrenome para Assis. No fat\u00eddico dia 15\/08\/1909 Euclides, transtornado, invade a casa de Dilermando e descarrega a arma que portava contra ele e o irm\u00e3o Dinorah, atleta que ficou parapl\u00e9gico e mais tarde se suicidou. Dilermando ferido revidou e atingiu Euclides, mortalmente. Foi julgado e absolvido em 1911 casando-se em seguida com Ana. Tiveram mais tr\u00eas filhos.&nbsp;<\/p>\n<p>14 &#8211;&nbsp;Em maio de 1916, S\u00f3lon, o filho mais velho de Euclides, afilhado do Mal.Rondon e delegado no Acre, foi assassinado numa tocaia, na floresta. Em julho do mesmo ano, Euclides Filho, querendo vingar a morte do pai, alveja Dilermando que em resposta tamb\u00e9m o mata, sendo novamente absolvido. Em 1926, Ana separou-se de Dilermando ao surpreend\u00ea-lo com outra mulher e passa a servir marmitas e quitandas para manter a fam\u00edlia. Voltaram a ver-se somente no leito de morte de Ana que faleceu de c\u00e2ncer pulmonar no dia 12 de maio de 1951, aos 76 anos. Dilermando, ent\u00e3o general, esteve presente nos seus momentos finais e morreu de infarto nesse mesmo ano. R.I.P.&nbsp;<\/p>\n<p>15 &#8211; Roberto Ventura foi professor de teoria liter\u00e1ria e literatura comparada na USP. Especializado na obra de Euclydes da Cunha, o pesquisador morreu em 2002, aos 45 anos, em um acidente de carro. <\/p>\n<p>16 &#8211; Emile Zola (1840-1902), escritor franc\u00eas, l\u00edder da escola naturalista, denunciou o erro hist\u00f3rico do julgamento do oficial franco-israelita Alfred Dreyfus, condenado em 1894 sob a acusa\u00e7\u00e3o de espionagem, libertado em 1899 depois de violenta campanha da imprensa e finalmente reabilitado em 1906. <\/p>\n<p>17- &nbsp;Hippolyte Taine (1828-1893), fil\u00f3sofo, historiador e cr\u00edtico franc\u00eas. <\/p>\n<p>18 &#8211; Oued \u2013 Palavra de origem \u00e1rabe que significa \u201ccurso d\u2019\u00e1gua\u201d. Nas regi\u00f5es \u00e1ridas \u00e9 um curso d\u2019\u00e1gua tempor\u00e1rio que pode se transformar em torrente. <\/p>\n<p>19 &#8211; Cisterna cil\u00edndrica semi-enterrada constitu\u00edda de calotas curvas de concreto. <\/p>\n<p><b>Autor: Miracyr Assis Marcato<\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp;&nbsp; Euclides Rodrigues Pimenta da Cunha foi uma &#8220;mente brilhante\u201d &#8211; engenheiro, jornalista, historiador, poeta, escritor &#8211; a quem se pode atribuir o t\u00edtulo de \u201cpol\u00edmata\u201d, ou seja: \u201caquele que aprendeu muito\u201d, cuja erudi\u00e7\u00e3o e cultura o aproximavam do \u201chomem universal\u201d ou \u201chomem renascentista\u201d que se sobressai numa variedade de \u00e1reas do conhecimento. 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