{"id":25921,"date":"2015-09-01T00:24:17","date_gmt":"2015-09-01T00:24:17","guid":{"rendered":"https:\/\/www.institutodeengenharia.org.br\/?p=25921"},"modified":"2015-09-01T10:23:26","modified_gmt":"2015-09-01T10:23:26","slug":"como-tirar-os-fios-da-sua-cidade-fazendo-sua-propria-energia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.institutodeengenharia.org.br\/site\/2015\/09\/01\/como-tirar-os-fios-da-sua-cidade-fazendo-sua-propria-energia\/","title":{"rendered":"Como tirar os fios da sua cidade? Fazendo sua pr\u00f3pria energia"},"content":{"rendered":"<p>O que \u00e9? Voc\u00ea j\u00e1 ouviu falar em energia piezoel\u00e9trica? \u00c9 uma das coisas que o Leonardo Rossatto vai explicar. De forma muito resumida, a energia piezoel\u00e9trica \u00e9 gerada por dispositivos que geram energia quando s\u00e3o submetidos a press\u00e3o ou tor\u00e7\u00e3o. Como funcionam dispositivos assim? Eles geram energia cin\u00e9tica com base na intermit\u00eancia da press\u00e3o exercida. Na pr\u00e1tica, um caminh\u00e3o na estrada pode gerar energia. Uma corrida de rua pode criar energia. E essa energia pode dar uma baita for\u00e7a para as cidades. <\/p>\n<p>Uma das principais quest\u00f5es hoje, para qualquer cidade grande, \u00e9 como garantir o fornecimento de energia. As fontes s\u00e3o distantes e o risco de interrup\u00e7\u00e3o \u00e9 razo\u00e1vel. Al\u00e9m disso, essa energia precisa vir por fios. Cidades ricas simplesmente pagam a conta e enterram \u2013 mas cidades sem tanto dinheiro ficam com aqueles malditos fios (como diz a \u00f3tima campanha) enfeiando as ruas e amea\u00e7ando as pessoas com acidentes. <\/p>\n<p>Por isso, deixe de lado o seu preconceito com energia el\u00e9trica. Vem com a gente. Porque voc\u00ea pode ajudar a tirar os fios da sua cidade. <\/p>\n<p>O que nos move <\/p>\n<p>Voc\u00ea deve estar se perguntando por que est\u00e1 lendo sobre isso aqui. Afinal, esse \u00e9 um espa\u00e7o para discutir cidades. Mas eu trouxe o exemplo da energia piezoel\u00e9trica \u00e0 tona porque ela pode servir de alternativa para a gera\u00e7\u00e3o de energia em espa\u00e7os urbanos. Em 2010, uma equipe da Unesp desenvolveu um dispositivo que gera energia piezoel\u00e9trica por meio da passagem de ve\u00edculos por uma placa de cer\u00e2mica sob o asfalto. Outro modelo, constru\u00eddo pela empresa Pavegen, \u00e9 uma esp\u00e9cie de tapete que gera 7 watts a cada pisada. Os dois modelos t\u00eam os mesmos desafios: produzir energia dentro das cidades, a partir da rotina delas, para abastec\u00ea-las. <\/p>\n<p>Muitos fatores contribu\u00edram para a verticaliza\u00e7\u00e3o e para o crescimento vertiginoso das cidades no s\u00e9culo 20. No entanto, n\u00e3o \u00e9 exagero nenhum dizer que um dos fatores mais decisivos foi a energia el\u00e9trica, com todas as inova\u00e7\u00f5es posteriores que ela trouxe.<\/p>\n<p>E qual foi a estrutura constru\u00edda para isso? Usinas hidrel\u00e9tricas, termoel\u00e9tricas ou nucleares geram uma quantidade enorme de energia. Essa energia toda chega nas cidades por linhas de transmiss\u00e3o em alta voltagem at\u00e9 as subesta\u00e7\u00f5es de energia. L\u00e1, os transformadores convertem a energia em voltagens mais baixas, distribu\u00eddas pelos fios el\u00e9tricos at\u00e9 os consumidores finais \u2013 resid\u00eancias, ind\u00fastrias, com\u00e9rcios e espa\u00e7os p\u00fablicos. <\/p>\n<p>Na maioria dos lugares do mundo, o crescimento urbano no s\u00e9culo 20 foi r\u00e1pido e desordenado. Isso fez com que a preocupa\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o a energia el\u00e9trica fosse \u201cfazer ela chegar\u201d, n\u00e3o importando como. E, bem, a energia chegou, mas os postes de ilumina\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m serviram para levar os fios e montar nossa paisagem urbana t\u00edpica, cheia de fios a c\u00e9u aberto. Era o jeito mais barato. Mas tamb\u00e9m o mais perigoso e o que deixa a cidade mais feia. <\/p>\n<p>O grande problema \u00e9 que mudar essa estrutura, j\u00e1 montada, \u00e9 car\u00edssimo. Para se ter uma ideia: a prefeitura de S\u00e3o Paulo projetou gastar mais de R$ 7 bilh\u00f5es em manuten\u00e7\u00e3o e moderniza\u00e7\u00e3o da ilumina\u00e7\u00e3o p\u00fablica nas pr\u00f3ximas duas d\u00e9cadas. O aterramento dos fios da cidade, que seria a solu\u00e7\u00e3o mais \u00f3bvia, nem est\u00e1 contemplado nessa licita\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>Segundo estimativas da AES Eletropaulo, o trabalho de aterrar os fios na cidade, incluindo os de telefonia, custaria R$ 5,8 milh\u00f5es por quil\u00f4metro. O c\u00e1lculo n\u00e3o \u00e9 exatamente confi\u00e1vel, considerando que a AES Eletropaulo \u00e9 parte&nbsp;(n\u00e3o) interessada no processo. Mas, se considerarmos o c\u00e1lculo verdadeiro, o gasto para aterrar os 27 mil quil\u00f4metros de fios a\u00e9reos da Regi\u00e3o Metropolitana de S\u00e3o Paulo seria de absurdos R$ 156 bilh\u00f5es.<\/p>\n<p>\u00e1 existem cerca de 3 mil quil\u00f4metros de fios aterrados na Regi\u00e3o Metropolitana de S\u00e3o Paulo. A maioria deles em \u00e1reas nobres, como a Rua Oscar Freire, e nos entornos dos Pa\u00e7os Municipais das cidades do ABC paulista. Mas o processo de enterramento de fios vai mal: em 2005, foi promulgada uma Lei Municipal determinando o aterramento anual de 250 quil\u00f4metros de fios el\u00e9tricos em S\u00e3o Paulo. No entanto, a AES Eletropaulo, que seria a respons\u00e1vel pela execu\u00e7\u00e3o desses aterramentos, conseguiu uma liminar em junho desse ano suspendendo os efeitos dessa lei. <\/p>\n<p>Nessas alturas, j\u00e1 est\u00e1 claro que a quest\u00e3o dos enterramentos de fios n\u00e3o tem solu\u00e7\u00e3o f\u00e1cil. Mas tamb\u00e9m \u00e9 necess\u00e1rio frisar que nem de longe essa \u00e9 a \u00fanica quest\u00e3o que deve ser abordada sobre a tem\u00e1tica da energia nas metr\u00f3poles. Hoje em dia, \u00e9 quase imposs\u00edvel falar sobre o tema sem falar de smart grids <\/p>\n<p>Os circuitos <\/p>\n<p>Smart grids s\u00e3o circuitos inteligentes de energia el\u00e9trica. Elas controlam o fornecimento de energia el\u00e9trica e enviam dados, em tempo real, para quem opera o sistema. Os medidores anal\u00f3gicos, existentes em cada resid\u00eancia, s\u00e3o trocados por medidores digitais. Esses medidores t\u00eam sensores, capazes de identificar o padr\u00e3o de consumo de cada resid\u00eancia. Isso evita desperd\u00edcios, previne sobrecargas e torna o sistema mais seguro. <\/p>\n<p>Mas essa \u00e9 s\u00f3 uma parte do sistema. \u00c9 bom lembrar daquela que \u00e9 uma das maiores vulnerabilidades do sistema el\u00e9trico: historicamente, a gera\u00e7\u00e3o de eletricidade \u00e9 concentrada em algumas poucas grandes usinas. Problemas pontuais na gera\u00e7\u00e3o ou na distribui\u00e7\u00e3o podem derrubar todo o sistema. Um exemplo cl\u00e1ssico dessa vulnerabilidade foi o blecaute de 11 de mar\u00e7o de 1999, que atingiu Brasil e Paraguai e foi provocado por um rel\u00e2mpago em uma subesta\u00e7\u00e3o de energia em Bauru, interior de S\u00e3o Paulo. <\/p>\n<p>Os smart grids atacam essa vulnerabilidade. Ao colocar sensores em todos os pontos de entrada e sa\u00edda de energia do sistema e monitorar a carga de energia em cada ponto, abre-se uma nova possibilidade: a da inser\u00e7\u00e3o de geradores individuais de energia no sistema el\u00e9trico. E isso \u00e9 bom por v\u00e1rios motivos. <\/p>\n<p>As empresas de energia el\u00e9trica ficam menos dependentes da gera\u00e7\u00e3o de uma \u00fanica grande usina. Al\u00e9m disso, podem fiscalizar com precis\u00e3o as fraudes cometidas por consumidores. Por outro lado, pessoas e empresas podem se tornar pequenos produtores de energia, revendendo o excedente para as empresas el\u00e9tricas sem grandes problemas. Afinal, cada ponto de monitoramento do sistema tamb\u00e9m pode virar um ponto de produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Afinal, incentivos podem funcionar \u2013 mas sempre trazem consigo algumas armadilhas. De qualquer forma, o caminho j\u00e1 havia sido trilhado. Em 9 de junho de 2014, o pa\u00eds virou a chave. Mais de 50% da energia el\u00e9trica produzida na Alemanha veio de pain\u00e9is solares. <\/p>\n<p>Por toda essa gama de motivos, o investimento em smart grids est\u00e1 crescendo significativamente no Brasil. Cidades como Aparecida, Sete Lagoas e Barueri j\u00e1 est\u00e3o adotando infraestruturas tecnol\u00f3gicas do tipo, bancadas por diferentes operadoras. Mas esse investimento todo tamb\u00e9m \u00e9 um trabalho de preven\u00e7\u00e3o. As operadoras est\u00e3o percebendo, aos poucos, que precisam prestar o melhor servi\u00e7o poss\u00edvel, por um motivo simples: em breve, talvez elas n\u00e3o sejam mais t\u00e3o necess\u00e1rias. <\/p>\n<p>\u00c9 bem prov\u00e1vel que, em um futuro pr\u00f3ximo, uma grande quantidade de pessoas produza e armazene energia em casa, sem intermedi\u00e1rios, sem depender de um sistema de distribui\u00e7\u00e3o externo. <\/p>\n<p>J\u00e1 existem, no mercado, sistemas que conciliam um equipamento de gera\u00e7\u00e3o de energia e um de armazenamento em escala residencial. A ideia de juntar uma c\u00e9lula fotovoltaica e uma bateria em um equipamento residencial nem \u00e9 t\u00e3o nova. Em janeiro de 2012, a Kyocera lan\u00e7ou um sistema do tipo, com o objetivo inicial de prevenir interrup\u00e7\u00f5es de energia em situa\u00e7\u00f5es extremas como a do tsunami que abalou o Jap\u00e3o em mar\u00e7o de 2011.<\/p>\n<p>Marca hist\u00f3rica <\/p>\n<p>\u00c9 o que aconteceu na Alemanha. De 2000 a 2013, a Alemanha promoveu uma forte pol\u00edtica de subs\u00eddio \u00e0 instala\u00e7\u00e3o de pain\u00e9is fotovoltaicos, para aumentar a energia produzida a partir de energia solar. As empresas el\u00e9tricas eram obrigadas a comprar o excedente produzido pelos cidad\u00e3os, e esse excedente vinha na forma de uma sobretaxa nas contas de energia de todo o pa\u00eds. Parecia razo\u00e1vel. Todo mundo paga para todo mundo mudar a forma como o pa\u00eds produz energia.<\/p>\n<p>No entanto, no \u00faltimo m\u00eas de abril, Elon Musk exp\u00f4s de forma pomposa o seu Tesla Powerwall, sistema similar ao da Kyocera, por\u00e9m com design mais atraente e baterias melhoradas. Mais de 100 mil encomendas foram feitas, e j\u00e1 suplantaram a capacidade de produ\u00e7\u00e3o da Tesla at\u00e9 o final de 2016. Est\u00e1 bem claro que o investimento inicial ainda \u00e9 alto (US$ 3 mil para a bateria de 7 KWh, US$ 3.500 para a bateria de 10 kWh), mas o caminho parece claro. <\/p>\n<p>Como toda inova\u00e7\u00e3o, o Tesla Powerwall e seus concorrentes devem passar por um processo de desenvolvimento cont\u00ednuo, com a melhoria e o barateamento progressivo dos equipamentos. Com isso, o sistema deve ficar cada vez mais atrativo para quem tem capacidade de compr\u00e1-lo \u2013 ou est\u00e1 insatisfeito com a atual distribuidora de energia el\u00e9trica. <\/p>\n<p>E os pr\u00f3ximos passos? <\/p>\n<p>Tudo isso parece muito distante no cen\u00e1rio brasileiro atual \u2013 com limita\u00e7\u00f5es energ\u00e9ticas impostas pelo baixo n\u00edvel dos rios e pre\u00e7os em alta por uma s\u00e9rie de decis\u00f5es pol\u00edticas e econ\u00f4micas. Mas, mesmo no curto prazo, j\u00e1 existe alento: a energia e\u00f3lica, pela for\u00e7a dos ventos, j\u00e1 \u00e9 respons\u00e1vel por 6% do abastecimento de energia el\u00e9trica do pa\u00eds e por quase 25% da energia el\u00e9trica consumida na regi\u00e3o Nordeste. Com os smart grids, o consumo tamb\u00e9m deve diminuir bastante, com o fim dos desperd\u00edcios e roubos de energia. <\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, solu\u00e7\u00f5es em microescala, como a da energia piezoel\u00e9trica e a da produ\u00e7\u00e3o individual de energia, prometem deixar as cidades menos dependentes de uma fonte \u00fanica de energia, sujeita a falhas e vulnerabilidades. Talvez isso, em um futuro distante, ajude a resolver at\u00e9 mesmo a quest\u00e3o dos fios a\u00e9reos, ainda que tamb\u00e9m existam cabos de telefone e TV a cabo nos postes el\u00e9tricos. <\/p>\n<p>\u00c9 mais energia, mais constante \u2013 e com cidades mais bonitas. E isso, pessoal, me d\u00e1 uma esperan\u00e7a danada<\/p>\n<p><b>Autor: Outras Cidades <\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O que \u00e9? Voc\u00ea j\u00e1 ouviu falar em energia piezoel\u00e9trica? \u00c9 uma das coisas que o Leonardo Rossatto vai explicar. De forma muito resumida, a energia piezoel\u00e9trica \u00e9 gerada por dispositivos que geram energia quando s\u00e3o submetidos a press\u00e3o ou tor\u00e7\u00e3o. Como funcionam dispositivos assim? 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