{"id":23554,"date":"2013-06-28T23:53:00","date_gmt":"2013-06-28T23:53:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.institutodeengenharia.org.br\/?p=23554"},"modified":"2013-06-28T10:52:42","modified_gmt":"2013-06-28T10:52:42","slug":"por-dentro-da-brasiliana-usp-como-funciona-a-digitalizacao-de-uma-biblioteca-de-raridades","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.institutodeengenharia.org.br\/site\/2013\/06\/28\/por-dentro-da-brasiliana-usp-como-funciona-a-digitalizacao-de-uma-biblioteca-de-raridades\/","title":{"rendered":"Por dentro da Brasiliana USP: como funciona a digitaliza\u00e7\u00e3o de uma biblioteca de raridades"},"content":{"rendered":"<p>Dentro da Universidade de S\u00e3o Paulo, a Biblioteca Brasiliana Guita e Jos\u00e9 Mindlin foi criada em 2005. O pr\u00e9dio constru\u00eddo especialmente para receber o acervo do Dr. Jos\u00e9 Mindlin, que tem mais de 40 mil volumes, s\u00f3 ficou pronto no come\u00e7o de 2013, mas a digitaliza\u00e7\u00e3o de seu acervo come\u00e7ou bem antes: em 2008, foi formada a equipe que seria respons\u00e1vel pelo projeto da Brasiliana USP, a vers\u00e3o digital da Mindlin, que foi ao ar em julho de 2009. A empreitada inclu\u00eda tamb\u00e9m a cria\u00e7\u00e3o de uma plataforma de software para disponibilizar o conte\u00fado, al\u00e9m de providenciar a parte de hardware, como scanners, servidores e storage. Fomos conhecer de perto o processo de digitaliza\u00e7\u00e3o de tantos volumes raros e hist\u00f3ricos.&nbsp;<\/p>\n<p>A Plataforma Corisco, nome do software open source da biblioteca, foi criada a partir do DSpace, projeto tamb\u00e9m de c\u00f3digo aberto do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, o conhecido MIT, com recursos da HP para custear o projeto. \u201c\u00c9 um software extremamente bem sucedido, com talvez centenas de institui\u00e7\u00f5es ao redor do mundo utilizando-o. Ele \u00e9 escrito em Java, portanto tem uma tecnologia moderna voltada para a Web\u201d, diz Edson Satoshi Gomi, coordenador de tecnologia da informa\u00e7\u00e3o da Biblioteca Brasiliana. <iframe loading=\"lazy\" height=\"315\" src=\"\/\/www.youtube.com\/embed\/7WojdQCohs0\" frameborder=\"0\" width=\"560\" allowfullscreen=\"\"><\/iframe><\/p>\n<p>\nGomi, que tamb\u00e9m \u00e9 professor do Departamento de Engenharia da Computa\u00e7\u00e3o da Escola Polit\u00e9cnica da USP, explica o que a Plataforma Corisco tem a mais em rela\u00e7\u00e3o ao DSpace puro. \u201cO que n\u00f3s fizemos adicionalmente foi colocar algumas camadas que n\u00e3o existem no original. A primeira camada que colocamos foi uma interface web, que permite uma customiza\u00e7\u00e3o da cara, e o segundo componente que agregamos foi o que chamamos de visualizador de itens do acervo, sejam eles livros, imagens ou mapas.\u201d&nbsp;<\/p>\n<p>Outras duas camadas ainda ser\u00e3o implementadas: uma ferramenta para gerir todo o processo de digitaliza\u00e7\u00e3o e registrar metadados e outra para a preserva\u00e7\u00e3o digital das imagens em alta resolu\u00e7\u00e3o. \u201cO volume de imagens que estamos produzindo \u00e9 relativamente grande e o que \u00e9 mais caro nesse processo todo \u00e9 este trabalho de digitaliza\u00e7\u00e3o. Portanto, julgamos importante manter este conjunto de imagens de uma forma \u00edntegra que n\u00e3o se perca isso ao longo dos anos.\u201d&nbsp;<\/p>\n<p>\n<strong>Maria Bonita e suas irm\u00e3s<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"448\" height=\"251\" alt=\"\" src=\"\/site\/userfiles\/livro_2.jpg\" \/><\/p>\n<p><\/strong>E este volume de imagens \u00e9 realmente enorme: a Maria Bonita e suas irm\u00e3s, apelido dado pela equipe da biblioteca \u00e0s m\u00e1quinas fabricadas pela canadense Kirtas, s\u00e3o equipadas com c\u00e2meras Canon de 21 megapixels \u2013 os modelos da linha Kabis t\u00eam duas c\u00e2meras em x, cada uma virada para uma p\u00e1gina do livro; j\u00e1 o modelo Skyview, voltado para a digitaliza\u00e7\u00e3o de mapas, cartazes e jornais, tem apenas uma, que se desloca em dois eixos para varrer toda a extens\u00e3o do material. Cada c\u00e2mera \u00e9 ligada num computador que, por sua vez, \u00e9 ligado a um servidor. As imagens aparecem em tempo real no monitor do scanner.&nbsp;<\/p>\n<p>Cada p\u00e1gina \u201cbruta\u201d, por assim dizer, \u00e9 uma fotografia com defini\u00e7\u00e3o consider\u00e1vel (ainda que a imagem antes do recorte inclua tamb\u00e9m uma parte consider\u00e1vel do suporte em que o livro \u00e9 colocado). \u201cAs imagens que nossos scanners produzem\u201d, explica Gomi, \u201cs\u00e3o imagens de alt\u00edssima resolu\u00e7\u00e3o. Tipicamente, cada imagem pode ocupar uma dezena de megabytes de tamanho. Se multiplicarmos isso pela quantidade de p\u00e1ginas, n\u00e3o \u00e9 incomum um livro ter v\u00e1rios gigabytes de tamanho.\u201d&nbsp;<\/p>\n<p>O livro \u00e9 posto aberto numa mesa e o scanner vira as p\u00e1ginas atrav\u00e9s de uma esp\u00e9cie de aspirador de p\u00f3, que gruda as folhas por suc\u00e7\u00e3o e as vira. O processo \u00e9 autom\u00e1tico, mas tem que ser acompanhado por um funcion\u00e1rio, que ajusta a posi\u00e7\u00e3o do livro vez ou outra, para as imagens n\u00e3o ficarem tortas. A velocidade m\u00e1xima \u00e9 de 2.500 p\u00e1ginas por hora.&nbsp;<\/p>\n<p><strong>20 terabytes de raridades<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"448\" height=\"251\" alt=\"\" src=\"\/site\/userfiles\/livro_3.jpg\" \/><\/p>\n<p><\/strong>Engana-se quem pensa que \u00e9 arriscado colocar um livro raro numa m\u00e1quina dessas. \u201cExiste uma preocupa\u00e7\u00e3o nossa com a integridade dos livros\u201d, diz Gomi. \u201cMas \u00e9 importante chamar a aten\u00e7\u00e3o de que o fato de termos um livro raro n\u00e3o significa que ele est\u00e1 em mal estado ou fragilizado, muito pelo contr\u00e1rio. Muitas vezes, livros antigos est\u00e3o em estado t\u00e3o bom que s\u00e3o relativamente robustos.\u201d&nbsp;<\/p>\n<p>A digitaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o come\u00e7o de todo o processo. O que se segue \u00e9 bem trabalhoso: o processo de recorte e tratamento da imagem. Segundo Gomi, j\u00e1 foram digitalizados 20 terabytes de material, mas nem tudo est\u00e1 dispon\u00edvel para acesso justamente porque falta esta etapa, que \u00e9 um gargalo no fluxo de trabalho.&nbsp;<\/p>\n<p>O objetivo \u00e9 reduzir ao m\u00e1ximo o tamanho do arquivo e, ao mesmo tempo, garantir a legibilidade. Por isso, os arquivos em .pdf, cada um deles com cerca de 10MB, podem n\u00e3o ter exatamente a mesma cor das p\u00e1ginas do livro original, al\u00e9m de o contraste ser muito mais marcante.<\/p>\n<p>A \u00faltima etapa \u00e9 o reconhecimento dos caracteres. Se voc\u00ea j\u00e1 sofreu com um programa de OCR, sabe o quanto \u00e9 dif\u00edcil. Aqui o problema \u00e9 ainda maior, como explica Gomi. \u201cO OCR \u00e9 ainda, digamos, um problema em aberto. Para textos impressos com caracteres modernos, ele reconhece com uma certa precis\u00e3o, mas n\u00f3s estamos aqui tratando de textos antigos, al\u00e9m de muitos manuscritos.\u201d <br \/>\nParalelamente, s\u00e3o cadastrados os metadados de cada material, padronizados segundo o esquema Dublin Core, o mesmo do DSpace.&nbsp;<\/p>\n<p>Quando est\u00e1 tudo pronto, o livro fica dispon\u00edvel no site da Brasiliana Digital. Ele pode ser visualizado na pr\u00f3pria p\u00e1gina sem a necessidade de plug-ins, para facilitar o uso escolar, ou baixado \u2013 \u00e9 um arquivo .pdf, ent\u00e3o talvez n\u00e3o fique muito bom no seu e-reader.&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Aberto para todos&nbsp;<br \/>\n<\/strong><br \/>\nMas a disponibiliza\u00e7\u00e3o do acervo para o p\u00fablico n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico produto do projeto: o c\u00f3digo-fonte da Plataforma Corisco est\u00e1 aberto para quem quiser usar. O Instituto Paulo Freire, por exemplo, j\u00e1 adotou o sistema. Mas open source n\u00e3o quer dizer de gra\u00e7a: j\u00e1 foram gastos mais de R$ 3 milh\u00f5es no projeto, com recursos de entidades como o BNDES e a Fapesp.&nbsp;<\/p>\n<p>Uma parte consider\u00e1vel desse valor foi para bolsas de inicia\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, mestrado e doutorado. A Plataforma Corisco, al\u00e9m de tudo, \u00e9 um projeto de pesquisa: para chegar onde est\u00e1 hoje, foram precisos erros e acertos. A primeira vers\u00e3o da edi\u00e7\u00e3o original do livro de Hans Staden, por exemplo, foi disponibilizada com 1 gigabyte de tamanho (!) e isso s\u00f3 foi percebido porque um professor do grupo de desenvolvedores n\u00e3o conseguia baix\u00e1-lo.&nbsp;<\/p>\n<p>A postura de ir resolvendo cada um dos problemas encontrados parece ser intr\u00ednseca \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de bibliotecas digitais, como explica Gomi. \u201cN\u00e3o faz muito sentido se criar um padr\u00e3o de como se constr\u00f3i uma biblioteca digital. Certamente, h\u00e1 a necessidade de se ter uma liberdade nesse sentido, porque os tipos de acervo que podem ser constru\u00eddos s\u00e3o muito variados. Podemos ter bibliotecas digitais de livros, de m\u00fasicas, at\u00e9 de arquitetura, porque hoje \u00e9 poss\u00edvel fazer digitaliza\u00e7\u00e3o 3D.\u201d&nbsp;<\/p>\n<p>Outro ponto a ser notado \u00e9 o respeito aos direitos autorais: os mais de 3 mil itens dispon\u00edveis que est\u00e3o em dom\u00ednio p\u00fablico. Segundo Gomi, s\u00e3o mais de 1500 acessos \u00fanicos por dia e visitantes de v\u00e1rios pa\u00edses, inclusive daqueles que n\u00e3o falam portugu\u00eas. Definitivamente, a Brasiliana USP leva o acervo do Dr. Jos\u00e9 Mindlin para muito mais longe do que uma biblioteca f\u00edsica.&nbsp;<\/p>\n<p>Abaixo, mais imagens das m\u00e1quinas utilizadas na Brasiliana USP.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"235\" height=\"448\" alt=\"\" src=\"\/site\/userfiles\/livro_4.jpg\" \/><\/p>\n<p>\n<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"448\" height=\"251\" alt=\"\" src=\"\/site\/userfiles\/livro_5.jpg\" \/><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"448\" height=\"251\" alt=\"\" src=\"\/site\/userfiles\/livro_6.jpg\" \/><\/p>\n<p><b>Autor: GizModo<\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dentro da Universidade de S\u00e3o Paulo, a Biblioteca Brasiliana Guita e Jos\u00e9 Mindlin foi criada em 2005. 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