{"id":20176,"date":"2011-03-29T23:10:03","date_gmt":"2011-03-29T23:10:03","guid":{"rendered":"https:\/\/www.institutodeengenharia.org.br\/?p=20176"},"modified":"2011-03-29T10:17:22","modified_gmt":"2011-03-29T10:17:22","slug":"temporada-de-caca-a-cientistas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.institutodeengenharia.org.br\/site\/2011\/03\/29\/temporada-de-caca-a-cientistas\/","title":{"rendered":"Temporada de ca\u00e7a a cientistas"},"content":{"rendered":"<p>O Brasil foi escolhido sede da Copa e das Olimp\u00edadas ap\u00f3s acirrada batalha com outros pa\u00edses. Tamb\u00e9m saiu na frente em outra competi\u00e7\u00e3o que, embora menos badalada, deixar\u00e1 um legado at\u00e9 mais importante: a disputa para atrair superlaborat\u00f3rios, centros de pesquisa e desenvolvimento (P&amp;D) que j\u00e1 mobilizam os sistemas educacional e de ci\u00eancia e tecnologia do Pa\u00eds. <\/p>\n<p>\nAproximar-se das universidades, formadoras da m\u00e3o de obra para pesquisa, tem sido o caminho natural para empresas que apostaram no Pa\u00eds. S\u00f3 em 2010 foram anunciados investimentos da ordem de R$ 500 milh\u00f5es no Parque Tecnol\u00f3gico da UFRJ, no Rio. \u00c9 l\u00e1 que Petrobr\u00e1s e ao menos seis multinacionais est\u00e3o instalando ou ampliando laborat\u00f3rios. No Rio e em S\u00e3o Paulo, gigantes como IBM e DuPont j\u00e1 puseram em opera\u00e7\u00e3o centros de ponta. E a Vale est\u00e1 criando polos tecnol\u00f3gicos em tr\u00eas Estados. <\/p>\n<p>Nesses centros v\u00e3o trabalhar profissionais que antes tinham como op\u00e7\u00e3o fazer ci\u00eancia fora do Pa\u00eds, como Bruno Betoni, de 33 anos, \u00fanico brasileiro no Centro de Pesquisas Global da General Electric, na Alemanha. &#8220;Ser\u00e1 uma grande oportunidade em termos acad\u00eamicos e de neg\u00f3cios.&#8221; <\/p>\n<p>Para quem pretende trabalhar nos superlaborat\u00f3rios, Betoni adverte que a pesquisa em empresas tem um ritmo diferente e \u00e9 preciso se preparar desde o in\u00edcio da forma\u00e7\u00e3o. &#8220;No dia a dia, uso coisas que aprendi na forma\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, que muitos t\u00eam por in\u00fatil. Meu ferramental vai do primeiro ano da gradua\u00e7\u00e3o at\u00e9 o fim do doutorado.&#8221; <\/p>\n<p>Analistas atribuem a vinda dos superlaborat\u00f3rios ao cen\u00e1rio de estabilidade do Brasil. Outros atrativos s\u00e3o o in\u00edcio da explora\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo no pr\u00e9-sal e os sucessivos recordes na forma\u00e7\u00e3o de pesquisadores. <\/p>\n<p>O n\u00famero de doutores diplomados cresceu de 554, em 1981, para cerca de 12 mil, no ano passado. &#8220;\u00c9 pouco, mas, se voc\u00ea analisar esse dado em perspectiva, ver\u00e1 o tamanho do avan\u00e7o&#8221;, diz o oficial de Ci\u00eancia e Tecnologia da Unesco no Brasil, Ary Mergulh\u00e3o. &#8220;\u00c9 um momento excelente, s\u00f3 que \u00e9 preciso investir, elevando de 1% para 3% o porcentual do PIB aplicado em P&amp;D.&#8221; Para ele, a vinda dos laborat\u00f3rios mostra que a pesquisa no Pa\u00eds atingiu reconhecimento &#8220;razo\u00e1vel&#8221;. &#8220;O problema \u00e9 que ela n\u00e3o se traduz em patentes. O caminho mais curto para melhorar isso \u00e9 colocar engenheiros e doutores nas empresas.&#8221; <\/p>\n<p>O governo admite que a taxa de inova\u00e7\u00e3o nas empresas \u00e9 &#8220;t\u00edmida&#8221;. &#8220;Um n\u00famero inexpressivo de pesquisadores atua em empresas. Falta cultura de inova\u00e7\u00e3o no ambiente empresarial e h\u00e1 pouca articula\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas industrial e de ci\u00eancia e tecnologia, apesar dos esfor\u00e7os recentes&#8221;, diz Ronaldo Mota, secret\u00e1rio de Desenvolvimento Tecnol\u00f3gico e Inova\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio da Ci\u00eancia e Tecnologia. <\/p>\n<p>Espa\u00e7o. O pr\u00e9-sal pode ajudar a mudar essa realidade, como mostra o c\u00e2mpus da UFRJ na Ilha do Fund\u00e3o, polo da corrida tecnol\u00f3gica para explora\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo em \u00e1guas ultraprofundas. A procura por espa\u00e7o foi t\u00e3o grande nos \u00faltimos dois anos que s\u00f3 restam tr\u00eas terrenos livres. Estima-se que ser\u00e3o gerados no local 4 mil empregos at\u00e9 2014, quando os novos polos de pesquisa devem estar prontos. <\/p>\n<p>A francesa Schlumberger foi a primeira m\u00falti a inaugurar um centro no Fund\u00e3o, em novembro. Tamb\u00e9m anunciaram investimentos l\u00e1 as americanas FMC Technologies, Baker Hughes e Halliburton. A espanhola Repsol est\u00e1 construindo um laborat\u00f3rio para investiga\u00e7\u00e3o em petr\u00f3leo e g\u00e1s. A GE vai erguer, no parque, seu quinto Centro de Pesquisas Global. Far\u00e1 pesquisas sobre combust\u00edveis f\u00f3sseis, mas tamb\u00e9m energias renov\u00e1veis, minera\u00e7\u00e3o, transporte ferrovi\u00e1rio e avia\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>Segundo o diretor executivo do parque, Maur\u00edcio Guedes, as empresas que querem se instalar no Fund\u00e3o passam por uma avalia\u00e7\u00e3o da universidade. &#8220;\u00c9 fundamental que elas estabele\u00e7am coopera\u00e7\u00e3o com grupos de pesquisa da UFRJ&#8221;, explica. &#8220;Empresas n\u00e3o procuram s\u00f3 engenheiros e doutores, mas tamb\u00e9m estudantes para ser estagi\u00e1rios em grupos de pesquisa.&#8221; <\/p>\n<p>A Petrobr\u00e1s \u00e9 a grande respons\u00e1vel por tanto investimento na UFRJ. Desembolsou R$ 1,2 bilh\u00e3o para aumentar de 180 mil para 300 mil metros quadrados o tamanho de seu polo tecnol\u00f3gico no Fund\u00e3o. A nova estrutura do Centro de Pesquisas e Desenvolvimento (Cenpes), inaugurada em outubro, tem cerca de 1.600 profissionais trabalhando na \u00e1rea de P&amp;D e engenharia de projetos inovadores. O n\u00famero de laborat\u00f3rios passou de 137 para aproximadamente 200. <\/p>\n<p>O gerente executivo do Cenpes, Carlos Tadeu Fraga, compara o momento atual da explora\u00e7\u00e3o petrol\u00edfera l com o que ocorreu nos anos 1980. Naquela d\u00e9cada, marcada pelas bruscas eleva\u00e7\u00f5es do pre\u00e7o do petr\u00f3leo, o Brasil investiu para aumentar sua produ\u00e7\u00e3o interna. &#8220;A maior parte das novas tecnologias, naqueles anos, foi desenvolvida no exterior. A diferen\u00e7a \u00e9 que agora, com o pr\u00e9-sal, \u00e9 poss\u00edvel incentivar fornecedores a fazer isso no Brasil.&#8221; <\/p>\n<p>Recrutamento. Uma das empresas que mais investir\u00e3o no Fund\u00e3o \u00e9 a GE. As obras do centro devem acabar at\u00e9 fins de 2012, com investimento inicial da ordem de US$ 100 milh\u00f5es. <\/p>\n<p>O laborat\u00f3rio dever\u00e1 empregar 200 pesquisadores e engenheiros. Segundo o presidente da GE no Brasil, Jo\u00e3o Geraldo Ferreira, a m\u00falti vai come\u00e7ar a contratar em maio e quer encerrar o ano com 70 cientistas em atividade nas estruturas j\u00e1 prontas. Para recrut\u00e1-los, planeja atuar em tr\u00eas frentes: atrair doutorandos antes mesmo que terminem os estudos, selecionar pesquisadores em universidades e \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos e at\u00e9 repatriar brasileiros. <\/p>\n<p>Em abril, a GE abre um ciclo de palestras em 17 universidades. &#8220;Queremos nos aproximar das universidades e, a longo prazo, sugerir mudan\u00e7as no curr\u00edculo da gradua\u00e7\u00e3o para atender a demandas espec\u00edficas do nosso centro&#8221;, diz Jo\u00e3o Geraldo. <\/p>\n<p>O pr\u00e9-sal \u00e9 um dos temas de interesse da IBM, que dividiu seu laborat\u00f3rio entre Rio e S\u00e3o Paulo. A companhia definiu quatro \u00e1reas de pesquisa: recursos naturais, dispositivos inteligentes, sistemas humanos (que cuidar\u00e1, entre outras coisas, de solu\u00e7\u00f5es para eventos como Copa e Olimp\u00edada), e sistemas e servi\u00e7os, cujo objetivo \u00e9 melhorar a efici\u00eancia de todo tipo de servi\u00e7o, do banc\u00e1rio ao de sa\u00fade. <\/p>\n<p>Anunciado em meados do ano passado, o laborat\u00f3rio tem 20 pesquisadores, mas a empresa pretende chegar a 100. Para liderar as \u00e1reas, a IBM repatriou brasileiros de seus centros no exterior. \u00c9 o caso do ge\u00f3logo Ulisses Mello, de 52, cuja equipe j\u00e1 trabalha, por exemplo, com a prefeitura do Rio para melhorar a precis\u00e3o geogr\u00e1fica da previs\u00e3o do tempo. Hoje a resolu\u00e7\u00e3o \u00e9 de 18 quil\u00f4metros quadrados. A meta \u00e9 baixar para 2 ou 3 km\u00b2. Assim, em vez de dizer genericamente que vai chover na zona sul, ser\u00e1 poss\u00edvel especificar o bairro afetado e tomar medidas preventivas. &#8220;Talvez no futuro a gente consiga desenvolver algoritmos usando radar, sensoriamento remoto, para prever com anteced\u00eancia de 48 horas chuvas ou risco de deslizamento.&#8221; <\/p>\n<p>O engenheiro Sergio Borger, de 45, \u00e9 outro repatriado. Est\u00e1 animado com as possibilidades criadas por eventos como a Copa. &#8220;Queremos fazer experimentos em est\u00e1dios para ver como fornecer servi\u00e7os de melhor qualidade.&#8221; Um dos focos \u00e9 seguran\u00e7a. A IBM tem softwares que permitem identificar em v\u00eddeo pessoas espec\u00edficas no meio da torcida. &#8220;Mas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 isso. O ingresso pode ser a informa\u00e7\u00e3o biom\u00e9trica do seu rosto, por exemplo: pessoal e intransfer\u00edvel.&#8221; <\/p>\n<p>Perfil. O matem\u00e1tico Claudio Pi\u00f1anez, de 47, que voltou ao Brasil em 2008 para ajudar a montar o centro da IBM, ficou surpreso com a qualidade dos curr\u00edculos recebidos, mas defende ajustes nos programas de doutorado. &#8220;O importante \u00e9 trabalhar com universidade e governo para formar doutores com perfil voltado para a ind\u00fastria. Tem gente com essa caracter\u00edstica que hoje n\u00e3o se sente atra\u00edda pelo doutorado, que diz: &#8220;N\u00e3o quero dar aula.&#8221;&#8221; <\/p>\n<p>As parcerias com universidades pesaram na op\u00e7\u00e3o da americana DuPont por Paul\u00ednia (SP) como sede do seu Centro de Tecnologia e Inova\u00e7\u00e3o, inaugurado em 2009 &#8211; USP, Unicamp e Unesp est\u00e3o num raio de 180 km do laborat\u00f3rio. Vinte pesquisadores trabalham no CTI. Eles buscam promover inova\u00e7\u00e3o e gerar patentes nas \u00e1reas de pol\u00edmeros, blindagens e biotecnologia. <\/p>\n<p>Nat\u00e1lia Barros, de 26 anos, come\u00e7ou na empresa como estagi\u00e1ria, durante a gradua\u00e7\u00e3o em Engenharia Qu\u00edmica nas Faculdades Oswaldo Cruz. Foi estimulada pela DuPont a entrar no mestrado &#8211; j\u00e1 iniciado, na Unicamp. &#8220;O tema da disserta\u00e7\u00e3o \u00e9 ligado ao que fa\u00e7o aqui. Assim, agrego valor ao mestrado e contribuo com a pesquisa da empresa&#8221;, afirma Nat\u00e1lia, que desenvolve embalagens para alimentos. &#8220;O sonho de todo pesquisador \u00e9 que sua ideia seja comprada por uma empresa e aplicada.&#8221; <\/p>\n<p>Aos 22 anos, o engenheiro qu\u00edmico Luiz Biazzi, rec\u00e9m-formado pela USP, j\u00e1 conseguiu realizar esse sonho. Est\u00e1 empolgado por ter seu nome no dep\u00f3sito da primeira patente desenvolvida integralmente no CTI &#8211; uma descoberta para o mercado sucroalcooleiro. &#8220;O trabalho na ci\u00eancia \u00e9 muito dif\u00edcil. H\u00e1 muita incerteza, pois voc\u00ea n\u00e3o sabe se vai der certo sua pesquisa&#8221;, diz. <\/p>\n<p>Segunda maior empresa do Brasil, a Vale est\u00e1 criando centros de P&amp;D para pensar como ser\u00e1 a &#8220;minera\u00e7\u00e3o do futuro&#8221;. Vai instalar laborat\u00f3rios em Ouro Preto (MG), Bel\u00e9m (PA) e S\u00e3o Jos\u00e9 dos Campos (SP), cada um focado em uma \u00e1rea: minera\u00e7\u00e3o, desenvolvimento sustent\u00e1vel e energia, respectivamente. Quer mudar o perfil de sua pesquisa, concentrada em atender a demandas imediatas das minas, como analisar o perfil do solo de um dep\u00f3sito de min\u00e9rios. <\/p>\n<p>MIT. Quem est\u00e1 por tr\u00e1s da iniciativa \u00e9 o ex-pr\u00f3-reitor de Gradua\u00e7\u00e3o da Unifesp, Luiz Eug\u00eanio Ara\u00fajo de Moraes Mello, chamado em 2009 para dirigir o Instituto Tecnol\u00f3gico Vale. Para administrar as unidades, escolheu profissionais com doutorado no exterior. &#8220;A pesquisa a longo prazo envolve risco muito maior e n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel ser feita nas estruturas atuais da Vale&#8221;, diz Mello, que pretende montar cursos de p\u00f3s nos novos centros, para qualificar a m\u00e3o de obra da pr\u00f3pria empresa. Enquanto n\u00e3o vem a aprova\u00e7\u00e3o da Capes, faz conv\u00eanios com universidades do Brasil e do exterior, como o Massachusetts Institute of Technology (MIT). &#8220;Sou ambicioso.&#8221; <\/p>\n<p>Noutra frente, a Vale tem feito parcerias com as Funda\u00e7\u00f5es de Amparo \u00e0 Pesquisa de S\u00e3o Paulo, Minas e Par\u00e1 para apoiar projetos com bolsas. Um dos beneficiados \u00e9 o aluno do doutorado em Engenharia El\u00e9trica na Federal do Par\u00e1 Marcos Seruffo, de 27, que investiga diferentes formas de comunica\u00e7\u00e3o de dados em ambientes industriais &#8211; ou seja, vai aplicar o que desenvolveu em laborat\u00f3rio no mundo real das minas de bauxita. <\/p>\n<p>&#8220;Os resultados que obtenho s\u00e3o da Vale, pois ela \u00e9 a fonte financiadora. S\u00f3 podem ser utilizados com finalidade cient\u00edfica&#8221;, diz Marcos, que pretende perpetuar a parceria. &#8220;Ainda n\u00e3o sei o que vai acontecer depois do doutorado. Mas sei que farei parte de um pequeno contingente da popula\u00e7\u00e3o bastante assediado, tanto pela academia quanto pelas ind\u00fastrias.&#8221; <\/p>\n<p><b>Autor: O Estado de S.Paulo<\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estabilidade do Pa\u00eds, desafio do pr\u00e9-sal e recordes na forma\u00e7\u00e3o de pesquisadores [br]atraem investimentos milion\u00e1rios em superlaborat\u00f3rios de multinacionais, que estreitam rela\u00e7\u00f5es com universidades<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[6,35],"tags":[],"class_list":{"0":"post-20176","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","6":"category-noticias","7":"category-pesquisa-e-desenvolvimento"},"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.7 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Temporada de ca\u00e7a a cientistas - 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