{"id":20168,"date":"2011-03-28T23:09:58","date_gmt":"2011-03-28T23:09:58","guid":{"rendered":"https:\/\/www.institutodeengenharia.org.br\/?p=20168"},"modified":"2011-03-28T10:05:31","modified_gmt":"2011-03-28T10:05:31","slug":"por-que-fukushima-daiichi-nao-sera-outra-chernobyl","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.institutodeengenharia.org.br\/site\/2011\/03\/28\/por-que-fukushima-daiichi-nao-sera-outra-chernobyl\/","title":{"rendered":"Por que Fukushima Daiichi n\u00e3o ser\u00e1 outra Chernobyl"},"content":{"rendered":"<p>\nDepois do terremoto que abalou o Jap\u00e3o e deixou milhares de mortos, a na\u00e7\u00e3o japonesa est\u00e1 agora lutando para evitar o desastre na usina nuclear de Fukushima Daiichi. Os eventos aconteceram r\u00e1pido, e os riscos s\u00e3o dif\u00edceis de avaliar. <\/p>\n<p>O pior acidente nuclear de hist\u00f3ria foi a explos\u00e3o de Chernobyl em 1986, onde hoje fica a Ucr\u00e2nia. Especialistas nucleares repetidamente disseram que a situa\u00e7\u00e3o japonesa n\u00e3o pode ficar t\u00e3o ruim quanto Chernobyl. A New Scientist explica o motivo. <\/p>\n<p><strong>O que aconteceu at\u00e9 agora no Jap\u00e3o? <\/p>\n<p><\/strong>Depois do terremoto de magnitude 9 na costa do Jap\u00e3o, os reatores nucleares de Fukushima Daiichi automaticamente desligaram \u2013 como era para acontecer. Entretanto, o sistema de resfriamento falhou repetidamente, fazendo os n\u00facleos de alguns dos reatores superaquecer. Isto indiretamente levou a explos\u00f5es causando danos tanto \u00e0 parte externa das constru\u00e7\u00f5es quanto \u00e0s partes do sistema de conten\u00e7\u00e3o feitas para prevenir que o material radioativo escapasse. Por causa das fendas abertas nas explos\u00f5es, uma parte do material chegou \u00e0 atmosfera. <\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, reservat\u00f3rios contendo as varas de combust\u00edvel usado estavam superaquecendo e potencialmente poderiam levar a mais contamina\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>N\u00f3s publicamos um resumo detalhado dos eventos que aconteceram at\u00e9 agora em 15 de Mar\u00e7o, e voc\u00ea pode seguir as \u00faltimas informa\u00e7\u00f5es em nosso blog Short Sharp Science (em ingl\u00eas). <\/p>\n<p><strong>O que aconteceu em Chernobyl? <\/p>\n<p><\/strong>Os funcion\u00e1rios da usina estavam fazendo testes para descobrir como eles poderiam lidar com um desligamento tempor\u00e1rio do sistema de resfriamento do reator. O teste deu errado e houve uma oscila\u00e7\u00e3o de energia. Os funcion\u00e1rios tentaram desligar o reator, mas ao inv\u00e9s disso a rea\u00e7\u00e3o nuclear acelerou rapidamente. <\/p>\n<p>\u201cPor alguns segundos, ele estava gerando milhares de vezes a potencia de energia normal,\u201d diz Michael Bluck do Imperial College London. O calor intenso da rea\u00e7\u00e3o nuclear causou a explos\u00e3o, que destruiu o telhado do reservat\u00f3rio do reator e da constru\u00e7\u00e3o onde ele estava \u2013 expondo o n\u00facleo do reator para o mundo exterior \u2013 e fazendo com que o material radioativo atingisse a atmosfera. <\/p>\n<p>Ent\u00e3o os inc\u00eandios come\u00e7aram. Alguns deles foram extintos em algumas horas, mas um deles no reator danificado durou muitos dias, espalhando o material radioativo ainda mais longe. <\/p>\n<p><strong>Qu\u00e3o grave foi Chernobyl? <\/p>\n<p><\/strong>Chernobyl foi o \u00fanico evento a receber a classifica\u00e7\u00e3o m\u00e1xima de 7 na Escala Internacional de Eventos Nucleares e Radiol\u00f3gicos, que mede a gravidade de acidentes nucleares. Isto significa que liberou uma grande quantidade de material radioativo e cobriu uma grande \u00e1rea. <\/p>\n<p>\u00c9 cedo demais para dizer como o incidente em Fukushima Daiichi ir\u00e1 se comparar. As autoridades japonesas provisoriamente colocaram o evento como n\u00edvel 4, um \u201cacidente local\u201d, e depois reajustou para 5. No come\u00e7o da semana, entretanto, a ag\u00eancia nuclear francesa classificou o desastre pelo menos com um n\u00edvel 5 ou 6. <\/p>\n<p><strong>O que \u00e9 diferente sobre o acidente em Fukushima Daiichi? <br \/>\n<\/strong><br \/>\nO reator em Chernobyl ainda estava funcionando \u2013 embora em baixa pot\u00eancia \u2013 no momento do acidente. Ao contr\u00e1rio dos reatores de Fukushima Daiichi que desligaram automaticamente assim que sentiram o terremoto, inserindo as barras de controle, ent\u00e3o as rea\u00e7\u00f5es nucleares em seus n\u00facleos come\u00e7aram a diminuir em segundos. Isso significa que, desde o in\u00edcio, a quantidade de calor produzida era muito menor do que em Chernobyl. <\/p>\n<p><strong>Ent\u00e3o por que a mesma rea\u00e7\u00e3o n\u00e3o poderia acontecer em Fukushima Daiichi? <\/p>\n<p><\/strong>O reator em Chernobyl tinha um projeto fundamentalmente diferente daqueles em Fukushima Daiichi. Chernobyl usava ur\u00e2nio n\u00e3o enriquecido, que \u00e9 um combust\u00edvel nuclear fraco. Para conseguir us\u00e1-lo, o reator foi desenhado de uma maneira para facilitar a acelera\u00e7\u00e3o da rea\u00e7\u00e3o nuclear. Isso permitiu gerar quantidades consider\u00e1veis de energia, mas tamb\u00e9m o deixou vulner\u00e1vel a ficar fora de controle. <\/p>\n<p>Fukushima Daiichi usa combust\u00edvel mais potente do que Chernobyl usava, em sua maioria ur\u00e2nio enriquecido. Ao contr\u00e1rio do reator ucraniano, o seu desenho minimiza a rea\u00e7\u00e3o nuclear a menos que operadores humanos aumentassem intencionalmente. \u201cVoc\u00ea tem que realmente querer faz\u00ea-lo fluir,\u201d diz Bluck. <\/p>\n<p>Normalmente os n\u00facleos dos reatores s\u00e3o cercados por \u00e1gua. O calor da rea\u00e7\u00e3o nuclear ferve a \u00e1gua, criando vapor que move as turbinas gerando eletricidade. Fazendo isso, a \u00e1gua tamb\u00e9m ajuda a esfriar o reator. <\/p>\n<p>Mas fundamentalmente, a \u00e1gua tamb\u00e9m \u00e9 um \u201cmoderador\u201d: ela ajuda a manter a divis\u00e3o at\u00f4mica da rea\u00e7\u00e3o do ur\u00e2nio tornando mais lentos os n\u00eautrons produzidos pela rea\u00e7\u00e3o conforme eles colidem e saem das barras de combust\u00edvel. N\u00eautrons lentos mantem a rea\u00e7\u00e3o, liberando ainda mais n\u00eautrons e calor dos \u00e1tomos de ur\u00e2nio nas barras; n\u00eautrons movendo-se rapidamente passam direto atrav\u00e9s das barras de combust\u00edvel sem colidir com outros \u00e1tomos de ur\u00e2nio. Se a \u00e1gua esquentar demais, entretanto, bolhas ser\u00e3o formadas dentro dele e isso permitir\u00e1 que os n\u00eautrons escapem, diminuindo a rea\u00e7\u00e3o nuclear. <\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica, se o l\u00edquido superaquecer, ele come\u00e7a a parar a rea\u00e7\u00e3o, sem nenhuma interven\u00e7\u00e3o humana. \u201c\u00c9 uma solu\u00e7\u00e3o brilhante,\u201d diz Bluck. <\/p>\n<p>Engenheiros nucleares chamam isso de \u201ccoeficiente de reatividade negativo\u201d, porque ter bolhas no l\u00edquido que resfria o motor desacelera a rea\u00e7\u00e3o. J\u00e1 Chernobyl tinha um coeficiente de reatividade positivo, ent\u00e3o a rea\u00e7\u00e3o tinha a tend\u00eancia de acelerar. <\/p>\n<p><strong>Fukushima Daiichi poderia pegar fogo como aconteceu em Chernobyl? <\/p>\n<p><\/strong>Tem havido alguns pequenos inc\u00eandios no local, mas todos foram apagados rapidamente. Em um caso as autoridades japonesas inicialmente disseram que um dos reservat\u00f3rios de combust\u00edvel estava em chamas, mas depois isso foi desmentido e permanece incerto o que aconteceu de verdade. Em outro caso, o fogo foi atribu\u00eddo aos motores a diesel bombeando \u00e1gua nos reatores. Todos os inc\u00eandios parecem ter acontecido fora dos reservat\u00f3rios de press\u00e3o que cont\u00e9m o n\u00facleo das barras de combust\u00edvel radioativas. <\/p>\n<p>Em Chernobyl o reservat\u00f3rio de press\u00e3o foi danificado e o reator n\u00e3o tinha conten\u00e7\u00e3o. L\u00e1, o pr\u00f3prio n\u00facleo queimou ferozmente, principalmente porque ele era feito de grafite \u2013 que era usado como moderador. Isso n\u00e3o fez com que o acidente fosse mais prov\u00e1vel de ocorrer, explica Bluck, mas uma vez que o reator explodiu o grafite tornou a situa\u00e7\u00e3o ainda pior, porque ele prontamente entrou em chamas. As chamas levavam material radiativo do n\u00facleo do reator para a atmosfera, onde ele se espalhou por uma vasta \u00e1rea. Isso n\u00e3o poderia acontecer em Fukushima Daiichi, porque ele n\u00e3o usa grafite como moderador. <\/p>\n<p><strong>Qual a pior coisa que pode acontecer em Fukushima Daiichi? <br \/>\n<\/strong><br \/>\n\u00c9 dif\u00edcil dizer isso com certeza, porque a informa\u00e7\u00e3o \u00e9 limitada e muitas vezes confusa, e o resultado vai depender das decis\u00f5es que os operadores da usina tomarem. <\/p>\n<p>Mas no momento os reatores parecem em grande parte sob controle e est\u00e3o rapidamente sendo refrigerados. As barras de controle, que absorvem n\u00eautrons e abafam as rea\u00e7\u00f5es nucleares, est\u00e3o para dentro desde sexta-feira, e os reatores tem sido banhados com \u00e1gua do mar misturada com \u00e1cido b\u00f3rico \u2013 para ajudar a absorver os n\u00eautrons. Por causa dos coeficientes de radioatividade negativos do reator, as rea\u00e7\u00f5es nucleares n\u00e3o podem reiniciar agora a menos que estas a\u00e7\u00f5es sejam revertidas. \u201cN\u00e3o h\u00e1 margens para que aconte\u00e7am situa\u00e7\u00f5es cr\u00edticas,\u201d diz Bluck. <\/p>\n<p>Um acidente nuclear seria poss\u00edvel apenas se, por alguma raz\u00e3o inexplic\u00e1vel, os operadores come\u00e7assem a desfazer tudo que eles fizeram at\u00e9 agora para controlar a rea\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>Houve alguns vazamentos de material radioativo e provavelmente haver\u00e1 mais, em partes por causa do sistema de conten\u00e7\u00e3o que rompeu, e tamb\u00e9m porque o vapor radioativo precisa ser regularmente expelido para deixar mais \u00e1gua entrar. <\/p>\n<p>A maior amea\u00e7a agora parecem ser os tanques de combust\u00edvel usado, onde o n\u00edvel da \u00e1gua desceu e a temperatura subiu. Isso pode fazer com que as barras de combust\u00edvel abram, soltando seu conte\u00fado radioativo. <\/p>\n<p>Bluck est\u00e1 surpreso que os tanques est\u00e3o provando ser t\u00e3o problem\u00e1ticos, porque diferente dos n\u00facleos do reator eles n\u00e3o cont\u00e9m vapor de alta press\u00e3o dificultando o processo de bombear \u00e1gua para a refrigera\u00e7\u00e3o. Os tanques s\u00e3o uma caracter\u00edstica padr\u00e3o em instala\u00e7\u00f5es nucleares, e normalmente s\u00e3o projetados para garantir que rea\u00e7\u00f5es nucleares n\u00e3o possam reiniciar nas barras de combust\u00edvel: entre outras coisas, as barras devem ter um espa\u00e7o bem grande entre si no tanque. <\/p>\n<p>Entretanto, a empresa operando Fukushima Daiichi disse agora que, a respeito do tanque de combust\u00edvel no reator 4, \u201co risco de uma nova situa\u00e7\u00e3o cr\u00edtica n\u00e3o \u00e9 zero\u201d, significando que uma rea\u00e7\u00e3o nuclear em cadeia pode reiniciar nas barras. Como isso pode acontecer n\u00e3o est\u00e1 claro. Mas colocar \u00e1cido b\u00f3rico para absorver n\u00eautrons pode parar a rea\u00e7\u00e3o antes que ela aconte\u00e7a. <\/p>\n<p><b>Autor: GizModo<\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Depois do terremoto que abalou o Jap\u00e3o e deixou milhares de mortos, a na\u00e7\u00e3o japonesa est\u00e1 agora lutando para evitar o desastre na usina nuclear de Fukushima Daiichi. Os eventos aconteceram r\u00e1pido, e os riscos s\u00e3o dif\u00edceis de avaliar. 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