{"id":20106,"date":"2011-03-21T23:09:14","date_gmt":"2011-03-21T23:09:14","guid":{"rendered":"https:\/\/www.institutodeengenharia.org.br\/?p=20106"},"modified":"2011-03-21T11:36:08","modified_gmt":"2011-03-21T11:36:08","slug":"o-acidente-de-fukushimadaiichi-as-licoes-aprendidas-ate-o-momento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.institutodeengenharia.org.br\/site\/2011\/03\/21\/o-acidente-de-fukushimadaiichi-as-licoes-aprendidas-ate-o-momento\/","title":{"rendered":"O acidente de fukushima-daiichi: as li\u00e7\u00f5es aprendidas at\u00e9 o momento"},"content":{"rendered":"<p>\u00c0s 14:46 da sexta-feira passada, hora local, o Nordeste do Jap\u00e3o foi atingido por um terremoto de 9,0 graus na escala Richter cujo epicentro foi bem pr\u00f3ximo ao litoral e a poucos quil\u00f4metros abaixo da crosta terrestre, o maior que se tem registro hist\u00f3rico a atingir uma \u00e1rea densamente populosa e com alto desenvolvimento industrial. Mesmo para um pa\u00eds de alto risco s\u00edsmico e cuja cultura e tecnologia se adaptaram para tornar este risco aceit\u00e1vel, tal evento, numa escala de probabilidade de 1 em cada 1.000 anos, superou toda capacidade de resposta desenvolvida ao longo de s\u00e9culos pelo Jap\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<p>Como era previs\u00edvel, dado que nenhum projeto de engenharia \u00e9 dimensionado para resistir a um evento de tal grandeza, a maior parte das constru\u00e7\u00f5es e todas as instala\u00e7\u00f5es industriais com riscos de explos\u00f5es e libera\u00e7\u00e3o de produtos t\u00f3xicos ao meio ambiente, tais como refinarias de \u00f3leo, dep\u00f3sitos de combust\u00edveis, usinas termel\u00e9tricas e ind\u00fastrias qu\u00edmicas, localizadas na regi\u00e3o atingida colapsaram imediatamente, causando dezenas de milhares de mortes e um dano ambiental imposs\u00edvel de ser determinado no momento.\u00a0<\/p>\n<p>Somente as 14 usinas de gera\u00e7\u00e3o el\u00e9trica distribu\u00eddas pelas tr\u00eas centrais nucleares da regi\u00e3o afetada (Onagawa \u2013 3 unidades, Fukushima Daini \u2013 4 unidades, Fukushima Dai-ichi \u2013 6 unidades e Tokai \u2013 1 unidade), todas do tipo BWR, que representa 25% da frota mundial de 440 usinas (65% do tipo PWR, dentre as quais as brasileiras e 10% de outros tipos ) resistiram \u00e0s tit\u00e2nicas for\u00e7as liberadas pela natureza, todas tendo desligado automaticamente e se colocado em modo seguro de resfriamento, mesmo ap\u00f3s ter sido perdida toda a alimenta\u00e7\u00e3o el\u00e9trica externa.\u00a0<\/p>\n<p>Entretanto, cerca de 1 hora ap\u00f3s o terremoto, ocorreu um efeito colateral de grandeza inesperada: uma onda tsunami que alcan\u00e7ou 10 metros de altura varreu a costa, penetrando v\u00e1rios quil\u00f4metros terra adentro, que \u00e9 particularmente plana. Este outro evento de probabilidade multimilenar varreu os destro\u00e7os de constru\u00e7\u00f5es e instala\u00e7\u00f5es industriais juntamente com as centenas de milhares de desabrigados deixados pelo terremoto .\u00a0<\/p>\n<p>As 8 usinas das centrais nucleares de Onagawa, Fukushima Daini e Tokai conseguiram resistir a mais esse evento para o qual n\u00e3o foram projetadas. Entretanto, as 6 usinas de Fukushima Dai-ichi n\u00e3o foram capazes de super\u00e1-lo. O tsunami colocou fora de opera\u00e7\u00e3o todos os mais de uma dezena de diesel-geradores dispon\u00edveis no local, bem como seus tanques de combust\u00edvel, interrompendo o processo de resfriamento que vinha sendo conduzido com \u00eaxito. Este fato tem levado a uma seq\u00fc\u00eancia de problemas graves que tem impedido, at\u00e9 o momento, que as usinas atinjam\u00a0<\/p>\n<p>uma condi\u00e7\u00e3o segura . As recentes not\u00edcias de restabelecimento da alimenta\u00e7\u00e3o el\u00e9trica externa fazem, entretanto, acreditar que essa condi\u00e7\u00e3o venha a ser atingida nos pr\u00f3ximos dias. <br \/>\nEm resposta aos problemas iniciais enfrentados pela unidade 1 de Fukushima Dai-ichi, o Governo japon\u00eas acionou o Plano de Emerg\u00eancia Externo da central, evacuando preventivamente os j\u00e1 desabrigados habitantes da primeira zona de 5 quil\u00f4metros de raio em torno do reator avariado. Vendo a situa\u00e7\u00e3o se agravar na unidade 1 e iniciarem-se problemas semelhantes nas unidades 2 e 3, o raio de evacua\u00e7\u00e3o preventivo foi ampliado inicialmente para 10 e depois para 20 quil\u00f4metros (com as popula\u00e7\u00f5es entre 20 e 30 quil\u00f4metros colocadas sob abrigagem), o que ultrapassa as a\u00e7\u00f5es previstas por normas internacionais que regem o planejamento de emerg\u00eancia nuclear (evacua\u00e7\u00e3o m\u00e1xima em 5 km, abrigagem em 15km), na medida que esses procedimentos foram concebidos para um acidente grave em 1 usina e n\u00e3o em v\u00e1rias simultaneamente na mesma central.\u00a0<\/p>\n<p>Essas a\u00e7\u00f5es do governo Japon\u00eas s\u00e3o compat\u00edveis com o fato do acidente ter sido inicialmente classificado pela Autoridade de Seguran\u00e7a Nuclear nacional (NISA) como classe 4 e posteriormente agravado para classe 5 na escala internacional INES (International Nuclear Event Scale) . Not\u00edcias divulgadas pela m\u00eddia sobre classifica\u00e7\u00e3o do acidente como classe 6 n\u00e3o s\u00e3o baseadas em dados oficiais.\u00a0<\/p>\n<p>O Governo Japon\u00eas, num esfor\u00e7o inimagin\u00e1vel, conseguir concluir a evacua\u00e7\u00e3o de mais de 100.000 v\u00edtimas sobreviventes ao terremoto e tsunami dos 20 quil\u00f4metros no entorno da central nuclear em poucos dias, mesmo enfrentando toda a destrui\u00e7\u00e3o previamente causada na regi\u00e3o. Essa tarefa herc\u00falea garantiu que, mesmo que venha a acontecer uma libera\u00e7\u00e3o importante de materiais radiativos, as popula\u00e7\u00f5es que seriam afetadas est\u00e3o a salvo dos efeitos decorrentes. Os recentes resultados da monitora\u00e7\u00e3o de taxas de dose no entorno de 30 quil\u00f4metros da central demonstram que os n\u00edveis n\u00e3o s\u00e3o alarmantes e est\u00e3o decrescendo , o que faz com que todas as aten\u00e7\u00f5es sejam voltadas ao restabelecimento da energia externa e \u00e0 retomada do resfriamento em condi\u00e7\u00f5es satisfat\u00f3rias.\u00a0<\/p>\n<p>Que li\u00e7\u00f5es podem ser aprendidas pela ind\u00fastria nuclear at\u00e9 o momento? A primeira delas \u00e9 que as usinas nucleares s\u00e3o as constru\u00e7\u00f5es humanas melhor adaptadas a resistir a eventos naturais de severidade milenar, como mostram as centrais de Onagawa, Fukushima Daini e Tokai. Outra \u00e9 que a resist\u00eancia das usinas nucleares localizadas em \u00e1reas de alto risco s\u00edsmico, especialmente aquelas em zonas costeiras sujeitas a tsunamis, que s\u00e3o muito poucas dentre as 440 em opera\u00e7\u00e3o no mundo , deve ser reavaliada e, eventualmente, refor\u00e7ada.\u00a0<\/p>\n<p>Certamente, passada a fase acidental que ainda vivemos, a an\u00e1lise t\u00e9cnica profunda do evento levar\u00e1 a muitas outras li\u00e7\u00f5es aplic\u00e1veis n\u00e3o s\u00f3 as usinas do tipo BWR, mas tamb\u00e9m \u00e0s demais em opera\u00e7\u00e3o, bem com \u00e0quelas que est\u00e3o em projeto e constru\u00e7\u00e3o, aperfei\u00e7oando a seguran\u00e7a num processo de melhoria cont\u00ednua. Isso ocorre sistematicamente na ind\u00fastria nuclear mesmo para eventos pouco significativos, quanto em mais em eventos severos como o que se vivencia hoje. Foi assim para os acidentes de Three Miles Island em 1979 nos EUA e de Tchernobyl, na ex-URSS .\u00a0<\/p>\n<p>Note-se que quaisquer compara\u00e7\u00f5es do que pode ainda vir a ocorrer em Fukushima Dai-ichi com o que ocorreu em Tchernobyl n\u00e3o s\u00e3o tecnicamente corretas, na medida em que, naquele tr\u00e1gico acidente, os materiais radioativos foram dispersos em grande quantidade e a grandes dist\u00e2ncias devido \u00e0 energia liberada pelo inc\u00eandio de centenas de toneladas de grafite que havia no interior do reator, que levou v\u00e1rios dias para ser apagado, ao custo da vida de dezenas de her\u00f3icos \u201cterminators\u201d. Num reator a \u00e1gua, que n\u00e3o usa grafite nem outra forma de acumula\u00e7\u00e3o de grande quantidade de energia liber\u00e1vel em curto per\u00edodo, como s\u00e3o os BWR afetados e os PWR que juntos comp\u00f5e cerca de 90% da frota mundial, n\u00e3o existe energia dispon\u00edvel para tal dispers\u00e3o. No pior caso, essa dispers\u00e3o se limitaria ao raio de evacua\u00e7\u00e3o e, em menor quantidade, ao raio de abrigagem j\u00e1 estabelecidos na regi\u00e3o. <\/p>\n<p>Demandas por a\u00e7\u00f5es imediatas no sentido de desligar usinas em opera\u00e7\u00e3o ou interromper obras de usinas em constru\u00e7\u00e3o s\u00e3o precipitadas pelo clima catastrofista que tem sido predominante na divulga\u00e7\u00e3o do evento pela m\u00eddia, que influencia fortemente a opini\u00e3o p\u00fablica, ou deflagradas por raz\u00f5es de natureza pol\u00edtica e ideol\u00f3gica, as quais, ainda que leg\u00edtimas nas sociedades democr\u00e1ticas, n\u00e3o encontram fundamento t\u00e9cnico que as suportem.\u00a0<\/p>\n<p>Isto porque, mesmo no contexto da trag\u00e9dia que se abateu sob o Jap\u00e3o, a maioria das usinas nucleares afetadas permanecem em condi\u00e7\u00e3o segura, n\u00e3o implicando em nenhuma conseq\u00fc\u00eancia adicional \u00e0s popula\u00e7\u00f5es j\u00e1 atingidas e aquelas, em minoria, que n\u00e3o resistiram plenamente, tiveram suas conseq\u00fc\u00eancias mitigadas pelo acionamento de um Plano de Emerg\u00eancia Externo ampliado, que est\u00e1 protegendo as popula\u00e7\u00f5es evacuadas mesmo para as condi\u00e7\u00f5es em que venha a ocorrer o pior caso de libera\u00e7\u00e3o de material radioativo, o que at\u00e9 o presente n\u00e3o ocorreu e as informa\u00e7\u00f5es atuais indicam que n\u00e3o ocorrer\u00e1.\u00a0<\/p>\n<p>Obviamente, esses poucos argumentos t\u00e9cnicos n\u00e3o encerram o debate. Nas sociedades democr\u00e1ticas, como a brasileira, ele est\u00e1 apenas se iniciando e dever\u00e1 resultar numa ind\u00fastria nuclear ainda mais segura. Devemos, entretanto, nos precaver de decis\u00f5es precipitadas, tomadas pelo calor da emo\u00e7\u00e3o ou por oportunismo, que venham a prejudicar as pr\u00f3prias sociedades \u00e0s quais se pretende defender, como seria o caso de uma \u201cproscri\u00e7\u00e3o\u201d da gera\u00e7\u00e3o el\u00e9trica nuclear, com paralisa\u00e7\u00e3o de usinas em opera\u00e7\u00e3o e de projetos em constru\u00e7\u00e3o em planejamento. <\/p>\n<p>\nClique\u00a0em download \u00a0para ver o artigo na \u00edntegra.<\/p>\n<p><em>*Doutor em Engenharia Naval e Mestre em Engenharia Nuclear. Assessor da Presid\u00eancia da Eletrobr\u00e1s Eletronuclear e membro do Grupo Permanente de Assessoria da Ag\u00eancia Internacional de Energia At\u00f4mica<\/em><br \/><a href=\"https:\/\/www.institutodeengenharia.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/arqnot5099.doc\">arqnot5099.doc<\/a><\/p>\n<p><b>Autor: Leonam dos Santos Guimar\u00e3es*<\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O medo \u00e9 a forma mais eficaz de controle social: sociedades amedrontadas reagem como manadas, se deixando levar pelo primeiro grito de alerta. 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