{"id":17622,"date":"2010-03-02T22:36:43","date_gmt":"2010-03-02T22:36:43","guid":{"rendered":"https:\/\/www.institutodeengenharia.org.br\/?p=17622"},"modified":"2010-03-02T10:02:53","modified_gmt":"2010-03-02T10:02:53","slug":"a-pesquisa-no-etanol-da-cana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.institutodeengenharia.org.br\/site\/2010\/03\/02\/a-pesquisa-no-etanol-da-cana\/","title":{"rendered":"A pesquisa no etanol da cana"},"content":{"rendered":"<p>O Brasil \u00e9 reconhecido mundialmente como o pa\u00eds do etanol de cana-de-a\u00e7\u00facar. Com raz\u00e3o, pois nenhum pa\u00eds industrializado at\u00e9 hoje conseguiu substituir o uso de gasolina na escala em que aqui foi feito e produzir praticamente metade da energia que consome a partir de fontes renov\u00e1veis. Dessa metade, 16% v\u00eam do etanol. No Estado de S\u00e3o Paulo, a vantagem \u00e9 ainda mais marcante: 56% da energia consumida v\u00eam de fontes renov\u00e1veis, sendo 38% da cana-de-a\u00e7\u00facar. O uso do etanol de cana permitiu que S\u00e3o Paulo reduzisse a participa\u00e7\u00e3o do petr\u00f3leo na matriz energ\u00e9tica estadual de 60% para 33% nos \u00faltimos 30 anos. <\/p>\n<p>Desde 1975, a estrat\u00e9gia geral do desenvolvimento do uso de etanol no Brasil foi pautada pelo aumento da produtividade. Efetivamente, o ganho de produtividade tem sido maior do que 3% ao ano nos \u00faltimos 40 anos, resultado de melhoramento gen\u00e9tico da cana \u2013 com o desenvolvimento de variedades mais adaptadas a cada localidade; e do aumento da efici\u00eancia industrial da convers\u00e3o de a\u00e7\u00facar em \u00e1lcool, pela melhoria dos processos de fermenta\u00e7\u00e3o e destila\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>O crescente interesse mundial pelo uso de biocombust\u00edveis \u2013 motivado de um lado pelas dificuldades recorrentes no fornecimento de petr\u00f3leo e do outro pela crescente preocupa\u00e7\u00e3o com a emiss\u00e3o de gases de efeito estufa \u2013 criou a expectativa de aumento intenso na produ\u00e7\u00e3o de bioetanol. Um artigo cient\u00edfico, recentemente publicado pelo professor Rog\u00e9rio Cerqueira Leite e colaboradores, mostrou que o Brasil poderia fornecer etanol suficiente para substituir pelo menos 5% da gasolina usada mundialmente. Isso requerer\u00e1 o aumento da produ\u00e7\u00e3o brasileira dos 22 bilh\u00f5es de litros produzidos em 2006 para 102 bilh\u00f5es de litros anuais. <\/p>\n<p>Quando o montante da produ\u00e7\u00e3o anual come\u00e7a a assumir valores na casa das centenas de bilh\u00f5es de litros, aproximando-se do trilh\u00e3o de litros anuais, imp\u00f5e-se o desafio da sustentabilidade \u2013 ao lado do desafio permanente da produtividade. Produzir etanol requer v\u00e1rios insumos, como \u00e1gua, terra e energia, e o aumento das quantidades pretendidas requer a an\u00e1lise da depend\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o aos insumos e seu potencial efeito no meio ambiente. <\/p>\n<p>Um dos pontos essenciais para a sustentabilidade \u00e9 o balan\u00e7o de energia, que mede quantas unidades de energia s\u00e3o geradas por unidade de energia de origem f\u00f3ssil utilizada. Na produ\u00e7\u00e3o de etanol, a energia f\u00f3ssil \u00e9 usada, por exemplo, no diesel dos caminh\u00f5es que transportam a cana da planta\u00e7\u00e3o at\u00e9 a usina; ou da usina ao ponto de distribui\u00e7\u00e3o. Na planta\u00e7\u00e3o se usam tratores e caminh\u00f5es que consomem mais diesel. Al\u00e9m disso, h\u00e1 o adubo, que em sua fabrica\u00e7\u00e3o requer mais combust\u00edvel f\u00f3ssil. O primeiro trabalho cient\u00edfico feito sobre essa importante quest\u00e3o foi do professor Jos\u00e9 Goldemberg, publicado na revista Science em 1978, e mostrou as vantagens do etanol de cana. <\/p>\n<p>Mais recentemente, em artigo cientifico de 2008, o professor Isaias Macedo, do N\u00facleo Interdisciplinar de Planejamento Energ\u00e9tico (NIPE), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), mostrou que com uma unidade de energia f\u00f3ssil pode-se produzir etanol que gera de 9 a 10 unidades de energia utiliz\u00e1vel. O ganho \u00e9 enorme, praticamente dez vezes mais. Esse balan\u00e7o energ\u00e9tico t\u00e3o favor\u00e1vel significa que o uso do etanol de cana-de-a\u00e7\u00facar ao substituir a gasolina reduz substancialmente as emiss\u00f5es de carbono. Como todos hoje sabem, reduzir emiss\u00f5es de carbono \u00e9 um dos maiores desafios para a humanidade no s\u00e9culo 21. O efeito final \u00e9 que o uso de etanol no lugar de gasolina reduz emiss\u00f5es em 2.181 kg de g\u00e1s carb\u00f4nico para cada mil litros de etanol usado. <\/p>\n<p>Esse balan\u00e7o energ\u00e9tico, t\u00e3o positivo para o etanol de cana, \u00e9 muito negativo para o etanol de milho, que os Estados Unidos produzem em grande quantidade. O milho \u00e9 menos eficiente para produzir combust\u00edvel l\u00edquido \u2013 gasta-se uma unidade de energia f\u00f3ssil para se produzir 1,3 unidade de energia de etanol de milho. Com isso a redu\u00e7\u00e3o de emiss\u00f5es \u00e9 bem pequena. Por isso \u00e9 preciso, quando se trata da sustentabilidade do etanol, explicitar qual a origem do etanol: cana-de-a\u00e7\u00facar ou milho. <\/p>\n<p>No uso de \u00e1gua, o etanol de cana-de-a\u00e7\u00facar tamb\u00e9m tem boas caracter\u00edsticas. Um trabalho recente, publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) em 2009, mostrou que etanol de cana requer 99 m3 de \u00e1gua por GigaJoule (bilh\u00e3o de Joules) de energia produzidos. J\u00e1 o etanol de milho precisa de 140 m3 de \u00e1gua para a mesma energia gerada. <\/p>\n<p>Outra quest\u00e3o fundamental para a sustentabilidade \u00e9 sabermos se o aumento na quantidade de etanol produzida pode afetar outros produtos importantes, como, por exemplo, alimentos. Essa obje\u00e7\u00e3o aos biocombust\u00edveis tem sido popularmente aceita na Europa e nos Estados Unidos e \u00e9 f\u00e1cil entender por que: estas s\u00e3o regi\u00f5es do mundo nas quais n\u00e3o h\u00e1 fronteira agr\u00edcola a ser explorada \u2013 toda a terra ar\u00e1vel est\u00e1 em uso. Por isso, falar de plantar \u201cfontes de energia\u201d deslocaria planta\u00e7\u00f5es de alimentos. Mas na Am\u00e9rica Latina e na \u00c1frica h\u00e1 muita terra boa ainda dispon\u00edvel. A disponibilidade nessas duas regi\u00f5es \u00e9 especialmente positiva, pois s\u00e3o justamente as regi\u00f5es mais pobres do mundo e nas quais o desenvolvimento vai levar a maiores demandas por energia. <\/p>\n<p>Um estudo recente, feito por cientistas cr\u00edticos dos biocombust\u00edveis, mostrou que a \u00e1rea dispon\u00edvel na Am\u00e9rica Latina e \u00c1frica em 2050 seria de 430 milh\u00f5es de hectares, j\u00e1 descontando a \u00e1rea necess\u00e1ria para produ\u00e7\u00e3o de alimentos, habita\u00e7\u00e3o, infraestrutura e manuten\u00e7\u00e3o de florestas. Ora, o Brasil produz 8 mil litros de etanol por hectare\/ano. \u00c9 razo\u00e1vel supor que essa produtividade poder\u00e1 chegar, em 2050, a 10 mil litros por hectare\/ano, como resultado dos esfor\u00e7os de pesquisa sobre melhoramento da cana. Com essa produtividade \u2013 e usando apenas a metade dos 430 milh\u00f5es de hectares dispon\u00edveis \u2013 a produ\u00e7\u00e3o anual seria de 2.150 bilh\u00f5es de litros por ano. Essa quantidade seria suficiente em 2050 para substituir toda a gasolina que, se prev\u00ea, ser\u00e1 usada naquela data no mundo todo. Portanto, as perspectivas do etanol de cana s\u00e3o grandes, mesmo sem se considerar avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos que certamente acontecer\u00e3o nos pr\u00f3ximos anos. <\/p>\n<p>Finalmente, \u00e9 preciso lembrar que, como em quase toda atividade humana, pesquisa e desenvolvimento trazem grandes avan\u00e7os. No Brasil, a produtividade da terra cresceu de 2.700 para mais de 6 mil litros por hectare por ano \u2013 mais que o dobro, no per\u00edodo de 30 anos de 1975 a 2005. Isso foi feito usando-se tecnologia incremental a cada ano. Atualmente, muitos pa\u00edses, inclusive os mais desenvolvidos em ci\u00eancia e tecnologia, como EUA, Inglaterra, Fran\u00e7a e Holanda, est\u00e3o empenhados em melhorar a efici\u00eancia da biomassa para a gera\u00e7\u00e3o de combust\u00edvel l\u00edquido. Um dos caminhos promissores parece ser o da convers\u00e3o de celulose em etanol ou outros combust\u00edveis. <\/p>\n<p>Outro, j\u00e1 muito usado no Brasil, \u00e9 o uso da celulose para gera\u00e7\u00e3o de eletricidade. Por causa disso, a intensidade de pesquisa sobre biocombust\u00edveis cresceu muito e o panorama \u00e9 muito mais competitivo do que quando praticamente s\u00f3 o Brasil usava etanol. <\/p>\n<p>Essa mudan\u00e7a mundial encerra um perigo e uma promessa. O perigo \u00e9 que outros pa\u00edses descubram mais depressa do que n\u00f3s como produzir biocombust\u00edveis mais eficientemente, o que tiraria do Brasil a lideran\u00e7a mundial que o pa\u00eds conquistou por come\u00e7ar antes de todos. Entretanto as vantagens da cana e a dianteira que temos parecem indicar que, se o Brasil for respons\u00e1vel e aumentar a intensidade de pesquisa cient\u00edfica e tecnol\u00f3gica sobre o etanol de cana, poderemos continuar entre os primeiros do mundo nesse campo. <\/p>\n<p>O Governo Federal, o Governo de S\u00e3o Paulo (onde se produz 2\/3 do etanol produzido no Brasil) e empresas est\u00e3o tomando medidas para aumentar o esfor\u00e7o de Pesquisa e Desenvolvimento, seja em \u00e1reas b\u00e1sicas da ci\u00eancia que podem levar a avan\u00e7os radicais e de enorme impacto, seja em \u00e1reas aplicadas que sempre trazem avan\u00e7os incrementais. <\/p>\n<p>A promessa \u00e9 que os avan\u00e7os cient\u00edficos aumentem a produtividade de forma radical. O uso da celulose, se tiver viabilidade econ\u00f4mica, o que parece ocorrer\u00e1 em alguns anos, vai aumentar muito a produtividade da cana, pois 2\/3 da energia na cana est\u00e3o na celulose e hoje somente o ter\u00e7o que est\u00e1 no a\u00e7\u00facar \u00e9 usado para produzir etanol. Al\u00e9m disso, h\u00e1 muito a ganhar na produtividade da cana: at\u00e9 hoje, o aumento da produtividade foi alcan\u00e7ado com t\u00e9cnicas de gen\u00e9tica tradicional. Somente desde poucos anos atr\u00e1s, quando a FAPESP criou o programa SUCEST, a busca pelo aumento da produtividade come\u00e7ou a ser feita com base em t\u00e9cnicas de gen\u00f4mica. <\/p>\n<p>Os resultados do SUCEST j\u00e1 permitem identificar genes respons\u00e1veis por resist\u00eancia \u00e0 seca (e, portanto, menor uso de \u00e1gua), resist\u00eancia a pragas e conte\u00fado de sacarose. H\u00e1 muito ainda a ser feito. Processos fundamentais como a fotoss\u00edntese e a fixa\u00e7\u00e3o de carbono no solo tamb\u00e9m precisam ser muito mais estudados. Ou seja, h\u00e1 uma ampla pauta de ci\u00eancia e tecnologia que o Brasil precisa desenvolver para se manter na lideran\u00e7a. Institui\u00e7\u00f5es como o Instituto Agron\u00f4mico de Campinas, o Centro de Tecnologia Canavieira (CTC) de Piracicaba, as universidades estaduais paulistas, a rede de universidades federais para desenvolvimento do setor sucroalcooleiro que comp\u00f5em a RIDESA, o rec\u00e9m-inaugurado Laborat\u00f3rio Nacional de Bioetanol (CTBE) em Campinas, o Centro Paulista de Pesquisa em Bioenergia, que ser\u00e1 criado nas tr\u00eas universidades estaduais paulistas, e o Programa BIOEN, de pesquisas sobre bioenergia, ser\u00e3o determinantes para o futuro desenvolvimento da bioenergia no Brasil. O fato novo \u00e9 que, talvez pela primeira vez na hist\u00f3ria do pa\u00eds, existe um tema em ci\u00eancia e tecnologia no qual temos mais conhecimento do que o resto do mundo e com mais resultados aplicados. Manter essa lideran\u00e7a requer um substantivo aumento da intensidade de P&amp;D estatal e privada nas \u00e1reas relevantes. <\/p>\n<p><em><strong>* Carlos Henrique de Brito Cruz \u00e9 professor titular no Instituto de F\u00edsica Gleb Wataghin da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e membro da Academia Brasileira de Ci\u00eancias. Foi reitor da Unicamp e presidente da FAPESP.<\/strong><\/em><\/p>\n<p><b>Autor: *Carlos Henrique de Brito Cruz<\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Brasil \u00e9 reconhecido mundialmente como o pa\u00eds do etanol de cana-de-a\u00e7\u00facar. 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