{"id":156968,"date":"2026-10-06T16:20:34","date_gmt":"2026-10-06T19:20:34","guid":{"rendered":"https:\/\/www.institutodeengenharia.org.br\/site\/?p=156968"},"modified":"2026-10-06T16:20:34","modified_gmt":"2026-10-06T19:20:34","slug":"por-francisco-christovam-desafios-e-oportunidades-atuais-para-o-transporte-urbano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.institutodeengenharia.org.br\/site\/2026\/10\/06\/por-francisco-christovam-desafios-e-oportunidades-atuais-para-o-transporte-urbano\/","title":{"rendered":"Por Francisco Christovam &#8211; Desafios e oportunidades atuais para o transporte urbano"},"content":{"rendered":"<p>Os desafios colocados, atualmente, para o setor de transporte coletivo urbano de passageiros devem ser compreendidos n\u00e3o apenas como obst\u00e1culos conjunturais, mas como oportunidades estrat\u00e9gicas para promover moderniza\u00e7\u00e3o, inova\u00e7\u00e3o, fortalecimento institucional e maior integra\u00e7\u00e3o entre pol\u00edtica p\u00fablica, planejamento urbano e desenvolvimento econ\u00f4mico.<\/p>\n<p>A regulamenta\u00e7\u00e3o do <em>Marco Legal do Transporte P\u00fablico Coletivo Urbano<\/em> \u2013 Lei Federal N\u00ba 15.432, de 13 de junho de 2026 \u2013, por exemplo, representa o desafio de transformar princ\u00edpios e diretrizes em instrumentos concretos de gest\u00e3o, regula\u00e7\u00e3o, fiscaliza\u00e7\u00e3o e contrata\u00e7\u00e3o. Ao mesmo tempo, oferece a oportunidade de estabelecer maior seguran\u00e7a jur\u00eddica, previsibilidade regulat\u00f3ria e estabilidade para investimentos, criando condi\u00e7\u00f5es mais adequadas para a organiza\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os, para a atua\u00e7\u00e3o dos operadores e para a melhoria cont\u00ednua da experi\u00eancia dos usu\u00e1rios.<\/p>\n<p>Da mesma forma, a regulamenta\u00e7\u00e3o da <em>Reforma Tribut\u00e1ria<\/em> exige aten\u00e7\u00e3o cuidadosa aos seus poss\u00edveis impactos sobre custos, receitas, tarifas e equil\u00edbrio econ\u00f4mico-financeiro dos contratos. Trata-se de uma quest\u00e3o importante, pois qualquer altera\u00e7\u00e3o na carga tribut\u00e1ria incidente sobre a cadeia produtiva do transporte coletivo pode repercutir diretamente na sustentabilidade dos servi\u00e7os e na capacidade do sistema de manter tarifas socialmente suport\u00e1veis.<\/p>\n<p>A nova configura\u00e7\u00e3o tribut\u00e1ria abre espa\u00e7o para simplificar procedimentos, ampliar a transpar\u00eancia, reduzir distor\u00e7\u00f5es e construir modelos mais eficientes de financiamento e arrecada\u00e7\u00e3o. A isen\u00e7\u00e3o de impostos conferida \u00e0 presta\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os de transporte coletivo urbano de passageiros deve ser entendida como mecanismo de prote\u00e7\u00e3o ao usu\u00e1rio, na medida em que evita transferir, integralmente, para a tarifa, toda a tributa\u00e7\u00e3o incidente, desde a fabrica\u00e7\u00e3o dos ve\u00edculos, equipamentos e insumos necess\u00e1rios \u00e0 opera\u00e7\u00e3o at\u00e9 a entrega final do servi\u00e7o \u00e0 popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Promover a mudan\u00e7a do perfil tecnol\u00f3gico da frota \u00e9 outro desafio relevante, especialmente diante da necessidade de reduzir emiss\u00f5es, melhorar a efici\u00eancia operacional, ampliar a confiabilidade dos servi\u00e7os e incorporar solu\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas compat\u00edveis com as exig\u00eancias ambientais e urbanas contempor\u00e2neas. Essa transi\u00e7\u00e3o, no entanto, n\u00e3o se limita \u00e0 substitui\u00e7\u00e3o de ve\u00edculos: envolve infraestrutura de abastecimento ou recarga, capacita\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica, adapta\u00e7\u00e3o de garagens, novos padr\u00f5es de manuten\u00e7\u00e3o, planejamento energ\u00e9tico e revis\u00e3o das bases econ\u00f4micas dos contratos. Ao mesmo tempo, esta frente representa uma oportunidade para renovar sistemas, qualificar a presta\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os, estimular cadeias produtivas mais sustent\u00e1veis, posicionar o transporte p\u00fablico como vetor de inova\u00e7\u00e3o urbana e sofisticar as rela\u00e7\u00f5es institucionais entre os poderes concedentes, os operadores privados, a ind\u00fastria e os agentes financiadores.<\/p>\n<p>Viabilizar novos modelos de neg\u00f3cio, como parcerias p\u00fablico-privadas, concess\u00f5es com maior grau de sofistica\u00e7\u00e3o contratual e opera\u00e7\u00f5es financeiras estruturadas, tamb\u00e9m deve ser visto n\u00e3o apenas como uma dificuldade de implementa\u00e7\u00e3o, mas como uma oportunidade de atrair capital, compartilhar riscos, ampliar a capacidade de investimento e diversificar as fontes de receita.<\/p>\n<p>Em um cen\u00e1rio de restri\u00e7\u00e3o fiscal e de crescente demanda por qualidade, efici\u00eancia e sustentabilidade, torna-se indispens\u00e1vel construir arranjos capazes de combinar recursos p\u00fablicos, privados e instrumentos de financiamento de longo prazo. Esses modelos podem contribuir para reduzir a depend\u00eancia exclusiva da tarifa, viabilizar projetos de maior escala e permitir que os ganhos econ\u00f4micos, operacionais e sociais do transporte coletivo sejam repartidos de forma mais equilibrada entre usu\u00e1rios, poder p\u00fablico e operadores.<\/p>\n<p>A necessidade de planejamento dos sistemas constitui um desafio central para integrar pol\u00edticas p\u00fablicas, ordenar prioridades, compatibilizar expans\u00e3o urbana, opera\u00e7\u00e3o, acessibilidade e qualidade do servi\u00e7o. Sem planejamento consistente, o transporte coletivo tende a responder apenas a press\u00f5es imediatas, perdendo capacidade de antecipar demandas, racionalizar redes e orientar investimentos. Essa mesma necessidade, por\u00e9m, \u00e9 uma oportunidade para aprimorar a governan\u00e7a, fortalecer a tomada de decis\u00e3o baseada em dados, articular diferentes modos de transporte e construir redes mais integradas, acess\u00edveis, eficientes e aderentes aos padr\u00f5es de deslocamento da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No campo do financiamento da infraestrutura, o desafio est\u00e1 em garantir recursos est\u00e1veis, previs\u00edveis e suficientes para implanta\u00e7\u00e3o, manuten\u00e7\u00e3o, renova\u00e7\u00e3o e expans\u00e3o dos sistemas; a oportunidade est\u00e1 em estruturar projetos mais robustos, ampliar a participa\u00e7\u00e3o de diferentes fontes financiadoras e melhorar a qualidade dos ativos urbanos colocados \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o da sociedade.<\/p>\n<p>O financiamento para a aquisi\u00e7\u00e3o de novos ve\u00edculos, especialmente de \u00f4nibus menos poluentes, traz o desafio de viabilizar investimentos elevados, com prazos longos de amortiza\u00e7\u00e3o e riscos associados \u00e0 evolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, \u00e0 disponibilidade de infraestrutura e ao custo dos insumos energ\u00e9ticos. A renova\u00e7\u00e3o da frota exige instrumentos financeiros compat\u00edveis com a vida \u00fatil dos ativos, seguran\u00e7a contratual para os operadores e pol\u00edticas p\u00fablicas capazes de reconhecer os benef\u00edcios ambientais, operacionais e sociais gerados por ve\u00edculos mais eficientes.<\/p>\n<p>Neste sentido, o recente trabalho denominado Estudo Nacional de Mobilidade Urbana (ENMU), lan\u00e7ado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econ\u00f4mico e Social (BNDES), em meados de julho deste ano, prop\u00f5e uma carteira de projetos, para investimentos da ordem de R$ 400 bilh\u00f5es, a serem realizados em 20 anos, e a oportunidade para melhorar a governan\u00e7a das principais regi\u00f5es metropolitanas do Pa\u00eds, acelerar a transi\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, melhorar o conforto, a regularidade e a confiabilidade dos servi\u00e7os, promover maior efici\u00eancia energ\u00e9tica e consolidar o transporte coletivo como elemento fundamental das estrat\u00e9gias de descarboniza\u00e7\u00e3o, principalmente para cidades de m\u00e9dio e grande portes.<\/p>\n<p>J\u00e1 o financiamento do custo operacional do transporte p\u00fablico coletivo exige solu\u00e7\u00f5es permanentes e institucionalmente est\u00e1veis para assegurar equil\u00edbrio econ\u00f4mico, modicidade tarif\u00e1ria, qualidade dos servi\u00e7os e seguran\u00e7a jur\u00eddica dos contratos. A experi\u00eancia recente demonstra que a tarifa paga diretamente pelo usu\u00e1rio, isoladamente, n\u00e3o \u00e9 mais suficiente para atender sistemas complexos, sujeitos a custos crescentes, oscila\u00e7\u00f5es de demanda e exig\u00eancias cada vez maiores de regularidade, conforto, tecnologia e sustentabilidade.<\/p>\n<p>Esta pauta, por sua vez, abre a oportunidade de redesenhar a forma de custeio do sistema, reduzir a depend\u00eancia exclusiva da tarifa, incorporar fontes complementares de receita e reconhecer o transporte p\u00fablico como pol\u00edtica p\u00fablica essencial, com impactos diretos sobre inclus\u00e3o social, produtividade urbana, meio ambiente, seguran\u00e7a vi\u00e1ria e competitividade econ\u00f4mica das cidades.<\/p>\n<p>O programa \u201cTransporte para Todos\u201d, desenvolvido pela Associa\u00e7\u00e3o Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU) e amplamente discutido no Semin\u00e1rio Nacional, realizado no \u00faltimo m\u00eas de agosto, apoia-se em tr\u00eas pilares: moderniza\u00e7\u00e3o do Vale-Transporte; cria\u00e7\u00e3o do Vale-Transporte Social, com recursos vinculados ao Programa Bolsa Fam\u00edlia; e defini\u00e7\u00e3o de fontes or\u00e7ament\u00e1rias espec\u00edficas para custear as gratuidades, hoje incorporadas indiretamente \u00e0s tarifas p\u00fablicas, ou seja, ao valor pago pelo passageiro para utilizar o transporte p\u00fablico. Somados, o novo Vale-Transporte (VTT), o custeio or\u00e7ament\u00e1rio das gratuidades e o Vale-Transporte Social (VTS) poderiam cobrir cerca de 85% do custo de produ\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os de transporte coletivo urbano. Esse arranjo criaria condi\u00e7\u00f5es para reduzir substancialmente a tarifa dos usu\u00e1rios pagantes e, conforme o volume de recursos mobilizado, at\u00e9 viabilizar a tarifa zero universal.<\/p>\n<p>Por fim, com a revis\u00e3o dos contratos existentes, impulsionada pela implementa\u00e7\u00e3o do Marco Legal, e com a elabora\u00e7\u00e3o de novos contratos, decorrentes de futuros processos licitat\u00f3rios, imp\u00f5e-se o desafio de atualizar instrumentos jur\u00eddicos muitas vezes concebidos para uma realidade operacional, tecnol\u00f3gica e econ\u00f4mica distinta da atual. Os novos modelos contratuais precisam incorporar metas de desempenho, indicadores de qualidade, sistemas de comunica\u00e7\u00e3o com os passageiros, mecanismos de remunera\u00e7\u00e3o mais adequados, reparti\u00e7\u00e3o equilibrada de riscos, incentivos \u00e0 efici\u00eancia e responsabilidades mais bem definidas entre poder p\u00fablico e operadores.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, a renova\u00e7\u00e3o contratual constitui uma oportunidade para elevar a qualidade do servi\u00e7o, estimular ganhos de produtividade, fortalecer a fiscaliza\u00e7\u00e3o, aumentar a transpar\u00eancia e criar contratos mais alinhados \u00e0s necessidades da popula\u00e7\u00e3o e aos objetivos de sustentabilidade, inova\u00e7\u00e3o e estabilidade institucional no transporte p\u00fablico.<\/p>\n<p>Por todas essas raz\u00f5es, o setor dos transportes urbanos atravessa um momento de intensas transforma\u00e7\u00f5es, no qual os desafios regulat\u00f3rios, tribut\u00e1rios, tecnol\u00f3gicos, financeiros, operacionais e contratuais se combinam em um processo amplo de mudan\u00e7a estrutural. Estamos diante de uma etapa decisiva, marcada pelo desenvolvimento de novos modelos de neg\u00f3cio, pela adapta\u00e7\u00e3o a uma nova realidade jur\u00eddico-legal e trabalhista, por adequa\u00e7\u00f5es relevantes no campo econ\u00f4mico-financeiro e pela elabora\u00e7\u00e3o de contratos de concess\u00e3o mais modernos, transparentes e orientados a resultados.<\/p>\n<p>A forma como esses desafios ser\u00e3o enfrentados determinar\u00e1 n\u00e3o apenas a sustentabilidade futura dos sistemas de transporte coletivo urbano de passageiros, mas tamb\u00e9m a oportunidade e a capacidade das cidades de oferecer transporte p\u00fablico de qualidade, acess\u00edvel, ambientalmente respons\u00e1vel e compat\u00edvel com as necessidades de desenvolvimento urbano e de inclus\u00e3o social.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-77806 alignleft\" src=\"https:\/\/www.institutodeengenharia.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Francisco-Christovam-250x300.jpg\" alt=\"\" width=\"137\" height=\"164\" srcset=\"https:\/\/www.institutodeengenharia.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Francisco-Christovam-250x300.jpg 250w, https:\/\/www.institutodeengenharia.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Francisco-Christovam-852x1024.jpg 852w, https:\/\/www.institutodeengenharia.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Francisco-Christovam-768x923.jpg 768w, https:\/\/www.institutodeengenharia.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Francisco-Christovam-696x837.jpg 696w, https:\/\/www.institutodeengenharia.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Francisco-Christovam-349x420.jpg 349w, https:\/\/www.institutodeengenharia.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Francisco-Christovam-600x721.jpg 600w, https:\/\/www.institutodeengenharia.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Francisco-Christovam.jpg 961w\" sizes=\"auto, (max-width: 137px) 100vw, 137px\" \/>(*) Francisco Christovam \u00e9 diretor-presidente da Associa\u00e7\u00e3o Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU), vice-presidente da Federa\u00e7\u00e3o das Empresas de Transportes de Passageiros do Estado de S\u00e3o Paulo (FETPESP) e da Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Transportes P\u00fablicos (ANTP), bem como membro do Conselho Diretor da Confedera\u00e7\u00e3o Nacional dos Transportes (CNT) e do Conselho Deliberativo do Instituto de Engenharia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>*O conte\u00fado textual e as imagens utilizados neste artigo s\u00e3o de exclusiva responsabilidade do autor. As opini\u00f5es, informa\u00e7\u00f5es e materiais aqui apresentados n\u00e3o refletem, necesariamente, o posicionamento do Instituto de Engenharia, que n\u00e3o se responsabiliza por seu conte\u00fado.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os desafios colocados, atualmente, para o setor de transporte coletivo urbano de passageiros devem ser compreendidos n\u00e3o apenas como obst\u00e1culos conjunturais, mas como oportunidades estrat\u00e9gicas para promover moderniza\u00e7\u00e3o, inova\u00e7\u00e3o, fortalecimento institucional e maior integra\u00e7\u00e3o entre pol\u00edtica p\u00fablica, planejamento urbano e desenvolvimento econ\u00f4mico. 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