{"id":15114,"date":"2008-07-30T21:56:56","date_gmt":"2008-07-30T21:56:56","guid":{"rendered":"https:\/\/www.institutodeengenharia.org.br\/?p=15114"},"modified":"2008-07-30T18:03:44","modified_gmt":"2008-07-30T18:03:44","slug":"roberto-rodrigues-anao-ha-crise-de-alimentos-mas-sim-um-desequilibrio-entre-a-oferta-e-a-demandaa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.institutodeengenharia.org.br\/site\/2008\/07\/30\/roberto-rodrigues-anao-ha-crise-de-alimentos-mas-sim-um-desequilibrio-entre-a-oferta-e-a-demandaa\/","title":{"rendered":"Roberto Rodrigues: \u201cn\u00e3o h\u00e1 crise de alimentos mas, sim, um desequil\u00edbrio entre a oferta e a demanda\u201d"},"content":{"rendered":"<p>O ex-ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, participou de evento no Instituto de Engenharia, dia 29 de julho, para falar sobre a atual situa\u00e7\u00e3o do agroneg\u00f3cio no Brasil e no mundo. <\/p>\n<p>Os principais pontos discorridos por Rodrigues foram: a quest\u00e3o alimentar, etanol e biocombust\u00edveis. Ele explicou o que est\u00e1 acontecendo na agricultura mundial e o espa\u00e7o que esta crise abre ao Brasil, sob o ponto de vista de uma maior inser\u00e7\u00e3o internacional. <\/p>\n<p>A primeira discuss\u00e3o de seu debate foi sobre a crise dos alimentos, que tem preenchido as capas dos jornais. Ele argumentou que n\u00e3o h\u00e1 crise de alimentos, mas sim um desequil\u00edbrio entre a oferta e a demanda. A procura explodiu, porque nos pa\u00edses em desenvolvimento a renda per capta est\u00e1 crescendo 7,1% aa, enquanto nos desenvolvidos 2,2% aa. \u201cNa na\u00e7\u00e3o desenvolvida, se um cidad\u00e3o passa a ganhar mais, provavelmente ele n\u00e3o comer\u00e1 nem um ovo a mais. J\u00e1 em um pa\u00eds pobre, quando a renda aumenta de U$ 200 para U$ 400, o cidad\u00e3o triplica o consumo em comida, roupas, sapatos e tudo o que vem da agricultura\u201d, comentou. <\/p>\n<p>A popula\u00e7\u00e3o, de acordo com dados da ONU, vai aumentar at\u00e9 2030 em mais de dois bilh\u00f5es de pessoas. \u201cSairemos de mais de seis bilh\u00f5es para mais de oito bilh\u00f5es, ou seja, 30% a mais de pessoas no mundo, precisando suprir suas necessidades b\u00e1sicas\u201d, disse. <\/p>\n<p>Destes dois bilh\u00f5es, 85% crescer\u00e3o na \u00c1sia e na \u00c1frica, os continentes mais pobres do mundo. O mercado que est\u00e1 surgindo \u00e9 gigantesco e levou a uma explos\u00e3o de demanda, sem que a oferta acompanhasse, por v\u00e1rias raz\u00f5es. A primeira delas foi o per\u00edodo de secas, entre os anos de 2004 e 2006, no Brasil. Tal fato fez com que o pa\u00eds deixasse de produzir 40 mil toneladas de gr\u00e3os. <\/p>\n<p>No mesmo per\u00edodo, tamb\u00e9m houve seca na Europa Central, na Argentina e na Austr\u00e1lia. Os estoques de milho, arroz e trigo baixaram para 65%, em compara\u00e7\u00e3o h\u00e1 dez anos. O resultado foi uma rea\u00e7\u00e3o r\u00e1pida do mercado, com aumento de pre\u00e7os. <\/p>\n<p>Rodrigues afirmou que, entre outras raz\u00f5es, para justificar a falta de alimentos est\u00e3o: a subida dos custos de produ\u00e7\u00e3o (petr\u00f3leo, fertilizante e a\u00e7o tiveram seus pre\u00e7os aumentados); os fundos de investimentos, que sa\u00edram da \u00e1rea imobili\u00e1ria americana e passaram a investir em alimentos; a quarta parte do milho americano, que virou \u00e1lcool ao inv\u00e9s de comida, fazendo com que os pre\u00e7os do milho aumentassem. \u201cE jogaram a culpa no etanol\u201d, brincou. N\u00e3o se pode esquecer, ainda, do protecionismo dos pa\u00edses desenvolvidos, que resguardam seus produtores de crises mundiais. E para os americanos o tema principal atualmente \u00e9 seguran\u00e7a energ\u00e9tica. <\/p>\n<p>Outro fato importante \u00e9 que o etanol americano tem subs\u00eddio e protecionismo, diferente do brasileiro. \u201cN\u00e3o se pode misturar cana e milho no mesmo barril, s\u00e3o mat\u00e9rias-primas diferentes com custos diferentes. No Brasil, ao contr\u00e1rio do que se tentou afirmar, n\u00e3o h\u00e1 competi\u00e7\u00e3o entre etanol e alimentos\u201d, explicou. Tanto \u00e9 verdade que, este ano, houve a maior safra de gr\u00e3os de milho dos \u00faltimos tempos: 140 milh\u00f5es. <\/p>\n<p>Nos \u00faltimos dez anos, a produ\u00e7\u00e3o agropecu\u00e1ria aumentou, sem acordos multilaterais e gra\u00e7as \u00e0 efici\u00eancia dos agricultores brasileiros, que incorporaram a tecnologia de empresas como a Embrapa. <\/p>\n<p>A FAO estabelece que, nos pr\u00f3ximos 20 anos, a demanda de alimentos crescer\u00e1 42%. Rodrigues acha que este \u00e9 um n\u00famero conservador. \u201cVai crescer no m\u00ednimo 50%. Em termos mundiais, crescer 2,5% ao ano, \u00e9 algo importante\u201d. <\/p>\n<p><strong>Doha \u2013<\/strong> Rodrigues falou sobre o fracasso da Rodada de Doha. \u201cA grande prejudicada \u00e9 a pr\u00f3pria OMC, pois perde credibilidade e a capacidade de resolver problemas. A falta de acordos claros (porque mant\u00e9m o protecionismo) que estabele\u00e7am regras claras \u00e9 um fator adicional para a crise de alimentos\u201d, afirmou contundentemente. <\/p>\n<p><strong>Biocombust\u00edveis \u2013<\/strong> A Ag\u00eancia Mundial de Energia calcula que, nos pr\u00f3ximos 30 anos, a demanda por combust\u00edveis l\u00edquidos aumentar\u00e1 mais de 55%, ou seja, um n\u00famero maior do que a demanda de alimentos. \u201cEst\u00e1 \u00f3bvio que o petr\u00f3leo n\u00e3o atender\u00e1 esta demanda. Ou pelo menos a pre\u00e7os compat\u00edveis\u201d. <\/p>\n<p>Desta maneira, o biocombust\u00edvel \u00e9 uma alternativa importante, porque deriva de produtos renov\u00e1veis, ambientalmente muito melhores. Tamb\u00e9m geram empregos, riqueza e renda, em pa\u00edses tropicais e sobretudo permitem mudan\u00e7a na geopol\u00edtica mundial, afinal a agroenergia, o biocombust\u00edvel, o etanol e o biodiesel s\u00e3o diferentes de alimentos. \u201cPorque alimento pode ser produzido em qualquer pa\u00eds do mundo, inclusive na Sib\u00e9ria. E o biocombust\u00edvel n\u00e3o \u00e9 produzido sem sol\u201d, explicou. Ou seja, apenas nos pa\u00edses entre os tr\u00f3picos de C\u00e2ncer e de Capric\u00f3rnio (Am\u00e9rica Latina, toda a \u00c1sia pobre e alguns da \u00c1frica). <\/p>\n<p>O ex-ministro afirmou que haver\u00e1 um crescimento da produ\u00e7\u00e3o de biocombust\u00edveis, nas na\u00e7\u00f5es tropicais, \u00e0 base de cana e de celulose, gerando emprego, riqueza e renda, financiado pelos pa\u00edses demandantes. <\/p>\n<p>Segundo ele, o mercado de etanol n\u00e3o existe por raz\u00f5es consideradas gargalo. Primeiro, s\u00f3 h\u00e1 um pa\u00eds exportando, que \u00e9 o Brasil. A segunda \u00e9 a legisla\u00e7\u00e3o: no Brasil o Pr\u00f3-\u00e1lcool s\u00f3 obteve sucesso quando houve a obriga\u00e7\u00e3o de misturar \u00e1lcool \u00e0 gasolina, fato que deveria ser feito em outros pa\u00edses. Terceiro, \u00e9 necess\u00e1rio uma estrat\u00e9gia global. H\u00e1 a discuss\u00e3o do milho americano, do trigo europeu e da uva sul-africana, mas nada avan\u00e7a. E o quarto e, talvez mais importante, \u00e9 que a mudan\u00e7a geopol\u00edtica n\u00e3o vem sendo conduzida por nenhum pa\u00eds, nem pelo Brasil. \u201cNingu\u00e9m sabe quanto \u00e1lcool deve ser produzido, nem o setor privado, nem o p\u00fablico, como ser\u00e1 a log\u00edstica, entre outros. O Brasil n\u00e3o sabe para onde vai o \u00e1lcool. Apesar de conhecer o assunto, n\u00e3o consegue liderar no mundo\u201d, lamentou. <\/p>\n<p><strong>Import\u00e2ncia do agroneg\u00f3cio no Brasil \u2013<\/strong> O agroneg\u00f3cio representa 25% do PIB nacional; 37% dos empregos no pa\u00eds, 36% das exporta\u00e7\u00f5es do Brasil e 112% do saldo comercial (porque os outros setores est\u00e3o crescendo competitivamente). Nos \u00faltimos 15 anos, a \u00e1rea plantada com gr\u00e3os cresceu 24% e a produ\u00e7\u00e3o 127%. A produ\u00e7\u00e3o de frango cresceu 201%. A suinocultura 130%. <\/p>\n<p>Nenhum pa\u00eds no mundo fez a revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica que o Brasil fez, o que ajuda na duplica\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o de gr\u00e3os (hoje o Brasil tem 72 milh\u00f5es de hectares de \u00e1rea plantada) <\/p>\n<p>\u201c\u00c9 preciso resolver alguns problemas, pois existem muitos mitos. Falar que vai faltar comida por causa do etanol \u00e9 um absurdo\u201d. Para Rodrigues, o que falta s\u00e3o pol\u00edticas p\u00fablicas que resolvam o problema do agroneg\u00f3cio. \u201cFazendo uma avalia\u00e7\u00e3o, tudo o que envolve o agroneg\u00f3cio est\u00e1 dividido entre os 11 minist\u00e9rios. Para o Minist\u00e9rio da Agricultura sobram apenas os problemas. Achei \u00f3timo quando o governo federal disse que o agroneg\u00f3cio agora \u00e9 um problema de governo\u201d, finalizou. <\/p>\n<p><b>Autor: Viviane Nunes<\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O ex-ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, participou de evento no Instituto de Engenharia, dia 29 de julho, para falar sobre a atual situa\u00e7\u00e3o do agroneg\u00f3cio no Brasil e no mundo. Os principais pontos discorridos por Rodrigues foram: a quest\u00e3o alimentar, etanol e biocombust\u00edveis. 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