{"id":124334,"date":"2024-10-07T15:05:12","date_gmt":"2024-10-07T18:05:12","guid":{"rendered":"https:\/\/www.institutodeengenharia.org.br\/site\/?p=124334"},"modified":"2024-10-07T15:05:12","modified_gmt":"2024-10-07T18:05:12","slug":"por-francisco-christovam-os-numeros-nao-mentem-e-indicam-caminhos-a-seguir","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.institutodeengenharia.org.br\/site\/2024\/10\/07\/por-francisco-christovam-os-numeros-nao-mentem-e-indicam-caminhos-a-seguir\/","title":{"rendered":"Por Francisco Christovam \u2013 Os n\u00fameros n\u00e3o mentem (e indicam caminhos a seguir)"},"content":{"rendered":"<p>A Associa\u00e7\u00e3o Nacional das Empresas de Transportes Urbanos \u2013 NTU lan\u00e7ou, no seu Semin\u00e1rio Nacional realizado em agosto passado, a vers\u00e3o atualizada do <em>Anu\u00e1rio NTU 2023\/2024<\/em>, com 30 anos de monitoramento da situa\u00e7\u00e3o do transporte urbano por \u00f4nibus, no Brasil. O documento apresenta uma s\u00e9rie hist\u00f3rica completa de onze indicadores operacionais \u2013 demanda de passageiros, quilometragem produzida, viagens realizadas, frota operacional, idade m\u00e9dia da frota, custo por quil\u00f4metro, tarifa p\u00fablica m\u00e9dia, entre outros \u2013 obtidos em nove capitais e regi\u00f5es metropolitanas que, juntas, representam aproximadamente 33% da frota nacional e 34% da quantidade de passageiros transportados no pa\u00eds. Os levantamentos e as an\u00e1lises realizadas permitem um bom entendimento da evolu\u00e7\u00e3o do principal meio de deslocamento nas cidades brasileiras.<\/p>\n<p>No mesmo evento, a Confedera\u00e7\u00e3o Nacional do Transporte \u2013 CNT apresentou os resultados da <em>Pesquisa de Mobilidade da Popula\u00e7\u00e3o Urbana, <\/em>cujo objetivo central foi levantar informa\u00e7\u00f5es para a elabora\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas de transporte de passageiros, em \u00e2mbito nacional. A pesquisa buscou retratar a realidade de 319 munic\u00edpios, com popula\u00e7\u00e3o superior a 100 mil habitantes que, juntos, somam 115,6 milh\u00f5es de pessoas, ou seja, 57% da popula\u00e7\u00e3o brasileira. A classifica\u00e7\u00e3o social dos entrevistados foi determinada pelo <em>Crit\u00e9rio Brasil de Classifica\u00e7\u00e3o Econ\u00f4mica<\/em>, elaborado pela Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Empresas de Pesquisa \u2013 ABEP. Com base nesse crit\u00e9rio, 72,6% dos entrevistados pertencem \u00e0s classes C, D e E, ou seja, a parcela da popula\u00e7\u00e3o que mais utiliza o transporte coletivo. Foram realizadas 3.117 entrevistas com os respons\u00e1veis pelo domic\u00edlio e 6.947 entrevistas com moradores, gerando um grau de confian\u00e7a de 95% e uma margem de erro de 1,8%, para os primeiros entrevistados, e de 1,2%, para os segundos.<\/p>\n<p>Embora os dois trabalhos tenham seguido as melhores e mais modernas t\u00e9cnicas de levantamento e an\u00e1lise de dados, o cruzamento das informa\u00e7\u00f5es obtidas \u00e9 que permite um diagn\u00f3stico e um progn\u00f3stico muito acurado da real situa\u00e7\u00e3o do transporte coletivo urbano de passageiros, no Brasil. Se o anu\u00e1rio pode ser comparado a um filme, com roteiro bem definido, a pesquisa apresenta uma foto da situa\u00e7\u00e3o, com foco e detalhes muito precisos.<\/p>\n<p>O Anu\u00e1rio da NTU mostra que, nos \u00faltimos dez anos, houve uma queda de cerca de 45% no n\u00famero de passageiros transportados, mensalmente. Em 2013, o n\u00famero m\u00e9dio de passageiros transportados, por m\u00eas, foi de 390 milh\u00f5es e, em 2023, esse n\u00famero caiu para 214 milh\u00f5es. Com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 quilometragem produzida, no mesmo per\u00edodo, a redu\u00e7\u00e3o foi de 40%, ou seja, de 230 milh\u00f5es de quil\u00f4metros para 138 milh\u00f5es de quil\u00f4metros, por m\u00eas.<\/p>\n<p>\u00c9 importante ressaltar que esses n\u00fameros foram drasticamente afetados no per\u00edodo da pandemia, quando houve uma redu\u00e7\u00e3o de at\u00e9 80% da demanda de passageiros, em mar\u00e7o de 2020. De l\u00e1 para c\u00e1, houve uma gradual recupera\u00e7\u00e3o da demanda; mas, a quantidade atual de passageiros transportados continua cerca de 15% inferior ao volume verificado no per\u00edodo anterior \u00e0 pandemia. \u00c9 poss\u00edvel inferir que se trata de uma demanda perdida, composta por passageiros que fizeram a op\u00e7\u00e3o por outro modo de deslocamento \u2013 carro pr\u00f3prio, motocicleta, servi\u00e7o por aplicativo, carona solid\u00e1ria, entre outros \u2013 e que, muito provavelmente, n\u00e3o retornam para o transporte p\u00fablico.<\/p>\n<p>Uma outra avalia\u00e7\u00e3o apresentada no Anu\u00e1rio da NTU diz respeito \u00e0 produtividade do setor, ou seja, a evolu\u00e7\u00e3o do \u00edndice de passageiros equivalentes por quil\u00f4metro \u2013 IPKe, cuja varia\u00e7\u00e3o foi de 2,52, para 1,59, para 1,68 e para1,53, nos anos de 1993, 2003, 2013 e 2023, respectivamente. Essa altera\u00e7\u00e3o representa uma perda de cerca de 40% de produtividade, no per\u00edodo de 1993 a 2023 e se deve, basicamente, ao baixo investimento em infraestrutura e ao aumento crescente dos congestionamentos urbanos, que reduzem a velocidade m\u00e9dia da frota, aumentam o tempo de viagem, afetam o equil\u00edbrio econ\u00f4mico-financeiro dos contratos e comprometem a modicidade tarif\u00e1ria.<\/p>\n<p>Outro \u00edndice que merece ser analisado \u00e9 a queda do n\u00famero de passageiros transportados, diariamente, em cada ve\u00edculo do sistema de transporte urbano, com uma redu\u00e7\u00e3o de 631, para 428, para 407 e para 295, nos anos de 1995, 2003, 2013 e 2023, nessa ordem. Essa perda, de cerca de 53%, no desempenho da frota, pode ser atribu\u00edda \u00e0 redu\u00e7\u00e3o da demanda e ao baixo n\u00edvel de prioriza\u00e7\u00e3o do transporte coletivo nos sistemas vi\u00e1rios das cidades brasileiras.<\/p>\n<p>Para completar, vale citar a evolu\u00e7\u00e3o da idade m\u00e9dia da frota brasileira de \u00f4nibus destinados ao transporte urbano, que variou de 4,53, para 5,60, para 4,47 e para 6,42 anos, em 1995, 2003, 2013 e 2023, respectivamente. \u00c9 importante destacar que, nos \u00faltimos tr\u00eas anos, o indicador atingiu os resultados mais elevados de toda a s\u00e9rie hist\u00f3rica, de quase 30 anos.<\/p>\n<p>A pesquisa da CNT, por sua vez, apresenta uma gama enorme de informa\u00e7\u00f5es, relevantes e importantes, para uma avalia\u00e7\u00e3o do perfil e do comportamento do passageiro do transporte urbano e para a tomada de decis\u00f5es que podem definir uma nova ordem de valores, na presta\u00e7\u00e3o desse servi\u00e7o p\u00fablico.<\/p>\n<p>A pesquisa mostrou que o \u00f4nibus ainda \u00e9 o meio de transporte mais utilizado pela popula\u00e7\u00e3o brasileira, representando cerca de 31% dos deslocamentos realizados, muito semelhante \u00e0 utiliza\u00e7\u00e3o do carro pr\u00f3prio. Vale mencionar que, de 2017 para 2024, a utiliza\u00e7\u00e3o do \u00f4nibus caiu de aproximadamente 45% para 31%, o uso do carro passou de 22% para quase 30% e o da moto mais do que duplicou, passando de 5% para 11%. No mesmo per\u00edodo, o uso dos servi\u00e7os por aplicativos subiu de 1% para 11% e os deslocamentos a p\u00e9 mantiveram-se praticamente est\u00e1veis, representando 22% das viagens realizadas.<\/p>\n<p>Outro dado interessante diz respeito ao custo m\u00e9dio di\u00e1rio, por tipo de transporte utilizado. O disp\u00eandio di\u00e1rio com as viagens por taxi, carro pr\u00f3prio, aplicativos, motot\u00e1xi e moto pr\u00f3pria, \u00e9 da ordem de R$46,00, de R$30,00, de R$27,00, de R$13,00 e de R$11,00, respectivamente, enquanto o deslocamento por \u00f4nibus custa, em m\u00e9dia, R$9,75.<\/p>\n<p>Um ponto que chama a aten\u00e7\u00e3o \u00e9 a quantidade de pessoas que relataram ter mudado o modo de deslocamento, nos \u00faltimos anos. Pela pesquisa, quase 30% dos entrevistados deixaram de utilizar e outros 27% diminu\u00edram o uso do \u00f4nibus, substituindo-o por outros meios de transporte como o carro pr\u00f3prio (38,5%), as viagens a p\u00e9 (19,3%), os aplicativos (18,2%) e a moto pr\u00f3pria (14,7%).<\/p>\n<p>Os principais motivos que provocaram essas substitui\u00e7\u00f5es foram: pouco conforto (28,7%), falta de flexibilidades nos hor\u00e1rios e nas rotas (20,7%), elevado tempo de viagem (20,4%), mudan\u00e7a do local de trabalho (17,2%), pre\u00e7o elevado da tarifa (11,8%), inseguran\u00e7a (11,4%) e baixa confiabilidade (10,2%).<\/p>\n<p>Mas, uma das informa\u00e7\u00f5es mais importante da pesquisa \u00e9 que 63,5% dos entrevistados que deixaram de usar o \u00f4nibus voltariam para o transporte p\u00fablico, desde que a tarifa fosse menor (21,2%), os \u00f4nibus tivessem mais conforto (19,8%), as viagens fossem mais r\u00e1pidas (19,0%), as rotas e os hor\u00e1rios fossem mais flex\u00edveis (14,3%), os \u00f4nibus fossem mais pontuais (12,8%) e o servi\u00e7o fosse mais seguro (8,7%). Outra informa\u00e7\u00e3o relevante \u00e9 que 25,2% das pessoas que deixaram de utilizar o \u00f4nibus voltariam a utilizar o servi\u00e7o, se a tarifa fosse reduzida pela metade.<\/p>\n<p>Assim, ap\u00f3s o cruzamento das informa\u00e7\u00f5es dispon\u00edveis nos dois trabalhos e feitas as correla\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias, pode-se chegar \u00e0s seguintes conclus\u00f5es ou recomenda\u00e7\u00f5es:<\/p>\n<ul>\n<li>O transporte coletivo urbano de passageiros ainda \u00e9 e continuar\u00e1 sendo um servi\u00e7o p\u00fablico essencial, estrat\u00e9gico e fundamental para a organiza\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o urbano e para a boa qualidade de vida das pessoas que vivem nas cidades. O \u00f4nibus tamb\u00e9m continuar\u00e1 sendo o principal meio de deslocamento das pessoas, nas cidades brasileiras;<\/li>\n<li>As autoridades, nas tr\u00eas esferas de governo, precisam reconhecer que o transporte p\u00fablico \u00e9 um dever do Estado e um direito do cidad\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 como prestar servi\u00e7o de qualidade \u00e0 popula\u00e7\u00e3o sem investimentos em infraestrutura adequada \u2013 pista de rolamento, esta\u00e7\u00f5es de embarque e desembarque, terminais de transfer\u00eancia, sistemas de comunica\u00e7\u00e3o, entre outros;<\/li>\n<li>\u00c9 not\u00f3ria a mudan\u00e7a de h\u00e1bitos da popula\u00e7\u00e3o que utiliza os servi\u00e7os de transportes p\u00fablicos e dos atributos que interferem na op\u00e7\u00e3o do passageiro pelo transporte coletivo em detrimento do transporte individual. O passageiro precisa ser tratado como cliente e suas necessidades e expectativas levadas em conta, na defini\u00e7\u00e3o das caracter\u00edsticas do servi\u00e7o a ser prestado;<\/li>\n<li>A migra\u00e7\u00e3o dos passageiros do transporte coletivo para o transporte individual \u2013 carro, moto, aplicativo \u2013 se deve muito \u00e0 falta de investimentos para o financiamento da infraestrutura e da renova\u00e7\u00e3o da frota, bem como para o custeio da opera\u00e7\u00e3o, tornando o transporte por \u00f4nibus pouco atrativo, pouco flex\u00edvel e muito pouco competitivo com os outros modos existentes nas cidades;<\/li>\n<li>A recupera\u00e7\u00e3o da chamada \u201cdemanda perdida\u201d s\u00f3 ser\u00e1 poss\u00edvel com a redu\u00e7\u00e3o do valor das tarifas e significativa melhoria na qualidade do servi\u00e7o prestado, incluindo o uso de infraestrutura adequada, correto dimensionamento da demanda e da oferta, defini\u00e7\u00e3o de rotas e hor\u00e1rios mais flex\u00edveis e presta\u00e7\u00e3o do servi\u00e7o com confiabilidade, regularidade e pontualidade;<\/li>\n<li>\u00c9 preciso acelerar as mudan\u00e7as em curso, de ordem institucional, econ\u00f4mico-financeira, jur\u00eddica e operacional, incluindo a altera\u00e7\u00e3o do perfil tecnol\u00f3gico da frota e a concess\u00e3o de subs\u00eddio aos passageiros com renda insuficiente para bancar o custo da presta\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os;<\/li>\n<li>\u00c9 imprescind\u00edvel a separa\u00e7\u00e3o da tarifa t\u00e9cnica (remunera\u00e7\u00e3o da opera\u00e7\u00e3o) e da tarifa p\u00fablica (valor pago pelo usu\u00e1rio), bem como afian\u00e7ar a seguran\u00e7a jur\u00eddica dos contratos de concess\u00e3o ou de permiss\u00e3o dos servi\u00e7os. O servi\u00e7o de transporte p\u00fablico \u00e9 de responsabilidade do Estado e as empresas operadoras s\u00e3o apenas parte do processo de produ\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os.<\/li>\n<\/ul>\n<p>________________________________________________________________________<\/p>\n<p><em><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-44258 alignleft td-animation-stack-type0-2\" src=\"https:\/\/www.institutodeengenharia.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/Francisco-Christovam-1.jpg\" sizes=\"auto, (max-width: 134px) 100vw, 134px\" srcset=\"https:\/\/www.institutodeengenharia.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/Francisco-Christovam-1.jpg 2349w, https:\/\/www.institutodeengenharia.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/Francisco-Christovam-1-261x300.jpg 261w, https:\/\/www.institutodeengenharia.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/Francisco-Christovam-1-768x882.jpg 768w, https:\/\/www.institutodeengenharia.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/Francisco-Christovam-1-892x1024.jpg 892w, https:\/\/www.institutodeengenharia.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/Francisco-Christovam-1-696x799.jpg 696w, https:\/\/www.institutodeengenharia.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/Francisco-Christovam-1-1068x1226.jpg 1068w, https:\/\/www.institutodeengenharia.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/Francisco-Christovam-1-366x420.jpg 366w, https:\/\/www.institutodeengenharia.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/Francisco-Christovam-1-1920x2204.jpg 1920w\" alt=\"\" width=\"134\" height=\"154\" \/>(*) Francisco Christovam \u00e9 Diretor Executivo (CEO) da Associa\u00e7\u00e3o Nacional das Empresas de Transportes Urbanos \u2013 NTU, Vice-Presidente da Federa\u00e7\u00e3o das Empresas de Transportes de Passageiros do Estado de S\u00e3o Paulo \u2013 FETPESP e da Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Transportes P\u00fablicos \u2013 ANTP, bem como membro do Conselho Diretor da Confedera\u00e7\u00e3o Nacional do Transporte \u2013 CNT e membro do Conselho Deliberativo do Instituto de Engenharia.\u00a0<\/em><\/p>\n<h6><em>*Os artigos publicados com assinatura, n\u00e3o traduzem necessariamente a opini\u00e3o do Instituto de Engenharia. Sua publica\u00e7\u00e3o obedece ao prop\u00f3sito de estimular o debate dos problemas brasileiros e de refletir as diversas tend\u00eancias do pensamento contempor\u00e2neo.<\/em><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Associa\u00e7\u00e3o Nacional das Empresas de Transportes Urbanos \u2013 NTU lan\u00e7ou, no seu Semin\u00e1rio Nacional realizado em agosto passado, a vers\u00e3o atualizada do Anu\u00e1rio NTU 2023\/2024, com 30 anos de monitoramento da situa\u00e7\u00e3o do transporte urbano por \u00f4nibus, no Brasil. 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