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Renascença 2.0

Os artigos publicados com assinatura, não traduzem necessariamente a opinião do Instituto de Engenharia. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo

Por João Ernesto Figueiredo

Publicado em 24 de novembro de 2017

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Chamou-se Renascimento um período ocorrente na virada do século XV para o XVI, de revalorização das referências da Antiguidade Clássica e de abandono da sombria Idade Média. Verificou-se um progressivo abrandamento da influência do dogmatismo religioso e do misticismo sobre a cultura e a sociedade, com uma paralela e crescente valorização da racionalidade, da ciência e da natureza. Genericamente chamou-se isso de humanismo.

Neste período foram inventados diversos instrumentos científicos, foram descobertas diversas leis naturais e objetos físicos antes desconhecidos e a própria face do planeta se modificou nos mapas, depois dos descobrimentos através das grandes navegações. Houve notável avanço da física, matemática, medicina, astronomia e engenharia. Vários outros ramos do saber surgiram a um nível de complexidade, eficiência e exatidão sem precedentes, cada qual contribuindo para um crescimento exponencial do conhecimento total, o que levou a se conceber a história da humanidade como uma expansão contínua e sempre para melhor.

Creio que nesta virada do século XX para o XXI estamos vivendo momento semelhante, com intensidade impressionante, em especial no quinquênio mais recente.

Sou pessoa que usa com frequência o transporte publico e, portanto tenho a oportunidade de visualizar pessoas das mais variadas camadas sociais.

Para minha surpresa, ante nosso (no Brasil) indiscutível caos social, político e econômico, com impacto mais ilustrativo no nível de desemprego, não noto as pessoas infelizes. Ao contrario me parecem mais felizes que em outras ocasiões.

Para mim isto tem uma única resposta: acesso quase irrestrito, a preço muito baixo, para duas maravilhas dos tempos recentes: internet e celular.
Acho que estamos vivendo a renascença 2.0 e isto, em que pese a crise, mais que compensa este efeito.

A magia de internet mais celular proporciona através da Wikipédia, do Skype, do UOL, do Google (incluso o Earth), do e mail e das mídias sociais, cada vez mais eficientes, das fotos e filmes instantâneos, do Waze, do Whatsapp e dos ilimitados aplicativos gratuitos que oferecem musica, radio, TV, relógio, tradução, telefone, lanterna, radar, Uber e Cia limitada, o que antes e em restrito conteúdo a Enciclopédia Britânica oferecia, pobremente atualizada ( 1 livro/ano) e só para bilíngues.

Precisa de mais detalhes? Entre no You Tube e tenha uma aula de graça com os melhores comunicadores, sobre o que imaginar.

Quer saber o preço do boi em Araçatuba, ou da soja em Mato Grosso, ou da ação da Petrobras, ou o preço do ouro e da libra? A informação está disponível com defasagem de milésimos de segundo. Não existe mais aquela de passar numa fazendinha, comprar um boi do caipira por 10 e vendê-lo 10 km à frente por 20.

Quer ir de X a Y? O celular te dá 10 opções e se você for esperto, e o brasileiro é, sabe que se fizer a consulta às duas da manhã o preço sairá pela metade.

Se quiser aprender ou consultar o que for, mesmo em aramaico, o celular traduz. Quer aplicar ou desaplicar, marcar ou desmarcar, o danado faz em segundos.

Quer um parecer, uma minuta de contrato? Quer imprimir, corrigir, enviar? Tudo fácil e de graça.

Quanto custava uma maquina fotográfica, um filme de 12 poses e sua revelação e cópia?
Quer fazer cálculos que somente grandes matemáticos faziam, já existe programa oferecendo isso de graça.

E mais: o Whatsapp e o Skype acabaram com o custo da ligação telefônica e criaram a TV pessoal de cada um dos 203 milhões de brasileiros.

Quer ir ou enviar, pedir aquela dica ou informar, tirar aquela duvida cruel, ver aqui e agora aquilo que está muito longe, mostrar o detalhe, pedir o antes dificilmente descritível, ou seja, tudo ficou muito mais fácil. Quer comprar o que for e receber sem sair da casa? Quer ver o show, o filme, o jogo que quiser?

Os problemas que para resolver demandavam viagens, tempos enormes, gastos, são hoje solucionáveis em minutos. Quantos “bicos” e “economias” se viabilizam. E em quem pese o mencionado desemprego esses dois últimos fatores geram múltiplos “cinquentinhas reais” que quebram o galho no tocante ao mais urgente.

E o acesso a estes sonhos, que no passado era reservado só para o Mr. Walcott, para o Professor Ozório, para o Dr. Silva Dantas, para o General Pires, moradores do Leblon, hoje está disponível para a Zefa, para o Praxedes, para o Sigvalton e para o faxineiro Rubinho da Vila Zelina. O celular e a internet igualam na essência o cidadão da periferia ao membro do seleto grupo de bilionários. Sobrou para estes, para se diferenciar, os desperdícios com bolsas, jatinhos, mansões e iates.

Por isso que o pessoal não larga o celular: no Metrô em cada 10 passageiros, 9 estão antenados permanentemente. Infelizmente rolam também as perdas de tempo com trocas inúteis de recadinhos, mas há também a incessante busca por informação e soluções.

Quanto custa um celular? Um já razoável é vendido por R$ 500 em 10 vezes. Quanto custa a assinatura de internet? R$ 50 por mês? Eu quando me formei, ao ter o primeiro emprego, comprei uma “Britânica” e comprometi 50% de meu salário por 12 meses.

Estaríamos em convulsão social sem internet e celular. Ouso sugerir que dado político, embora desmoralizado, ainda mantém grande prestígio, embora nada tenha contribuído especificamente para tal, por ter sido o cara de plantão durante essa era de mágicas transformações. Usemos em 2018 a renascença 2.0 para o bem.

 

João Ernesto Figueiredo

Engenheiro Civil POLI/1965; pós-graduação (área de produção) na POLI/1970; ex-assessor do Presidente Ruy Leme no Banco Central/1968; na engenharia atuou na área de planejamento até 1971; dirigiu instituições financeiras até 1989; foi professor de Mercado de Capitais em cursos de especialização do Instituto Mauá de Tecnologia/80; escreveu livros; desde 1990 atua na área de consultoria financeira de empresas de Engenharia. Foi presidente do Conselho Consultivo do Instituto de Engenharia Outros artigos de João Ernesto Figueiredo




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