O que leva uma mulher a desistir da carreira na Engenharia?

Este é um daqueles assuntos que “precisamos falar sobre”. Embora o número de mulheres ingressando na Engenharia tenha crescido nos últimos anos, a evasão dos cursos e o abandono da carreira ainda é elevado. Isso nos leva a questionar: o que leva uma mulher a desistir da carreira na Engenharia?

o que leva uma mulher a desistir da carreira na engenharia
Imagem: memuk.org

+ Mulheres na Engenharia

Há muitos anos, a Engenharia era vista como um campo masculino. Felizmente, a essa visão mudou muito nos últimos anos. Isso aconteceu graças a muitas guerreiras que enfrentaram várias dificuldades para conquistar seu espaço na Engenharia.

Obviamente, o primeiro fator que leva uma mulher a desistir da carreira na Engenharia é o assédio (de qualquer tipo). É desconfortável para uma mulher estar em uma posição na qual ela pode ser desvalorizada, menosprezada ou até mesmo chantageada simplesmente por ser mulher. A sensação piora quando vem acompanhada da desvalorização do trabalho que é feito ou até mesmo da supervalorização e do espanto. Um exemplo: “nossa, você é muito boa com tal coisa para ser mulher” ou “você trabalha como um homem”. Frustrante!

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Imagem: zmescience.com

As mulheres não precisam ser comparadas aos homens para serem julgadas pela qualidade do seu trabalho. É preciso partir do pressuposto que mulheres e homens são igualmente capazes e não de uma visão que, claramente, coloca o homem como referencial padrão e a mulher como alguém tentando chegar lá. Ou seja, as mulheres não têm que ficar provando o tempo todo que são capazes de fazer determinada tarefa. É preciso que elas sejam vistas como capazes.

Muitas vezes, as mulheres recebem o título de nervosas, estressadas ou emocionalmente instáveis e são desvalorizadas por isso. No entanto, a maior parte dessas reações pode ocorrer devido ao estresse constante de estar em um ambiente hostil, no qual nunca está confortável e precisa mostrar o tempo todo que merece o lugar que conquistou.

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Imagem: telecoms.com

+ Não existe coisa de menino e coisa de menino, é tudo “coisa de gente”

Um segundo argumento que deve ser mencionado é que não deve haver separação de gênero entre as tarefas. Isso é: não tem essa de coisa de menino e coisa de menina. Uma mulher e um homem podem realizar as mesmas tarefas. Afinal, a Engenharia não envolve só questões físicas (do ponto de vista da diferença biológica entre mulheres e homens), mas é um conjunto de capacidades físicas e mentais.

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Imagem: girltalkhq.com

Um exemplo é que não adianta nada conseguir só conseguir levantar muito peso se você não consegue pensar em uma forma mais inteligente e otimizada de fazê-lo. Levantar algo pesado não é Engenharia, mas criar uma forma mais fácil de levantar muito peso pode sim envolver Engenharia.

Outro problema é o fato de que as mulheres são normalmente excluídas das tarefas mais práticas ou mais pesadas e são designadas para as voltadas para a gestão e organização. Isso significa tirar toda a diversão da parte prática e atribuir tarefas que podem ser entediantes para uma engenheira que quer colocar todos os seus conhecimentos em ação. É difícil lidar com a sensação de desvalorização quando você quer colocar a mão na massa de verdade e te colocam para separar ou organizar papel.

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Imagem: sciencenews.org

Porém, é difícil pensar assim quando crescemos em uma sociedade moldada, na qual as brincadeiras de meninos e meninas são diferenciadas. Para uma menina que cresce ouvindo que “desmontar e consertar coisas é para meninos” ou que “mulheres devem cuidar do lar”, é realmente difícil desconstruir essa visão.

+ Maternidade não é justificativa

Outro fator usado como argumento para a evasão das mulheres da carreira da Engenharia é o ligado à maternidade. Porém, se pararmos para pensar, tal fator poderia ser considerado relevante há alguns anos, mas não agora. Atualmente, devido aos direitos garantidos na maternidade, é muito mais difícil encontrar uma mulher que abandonou a carreira (em qualquer área) para cuidar exclusivamente do lar e dos filhos. Então, a maternidade não tem muita interferência nesta discussão.

+ O que dizem as pesquisas sobre mulheres e a carreira na engenharia

Um artigo científico publicado em 2017 mostra que ainda há grandes lacunas na compreensão das razões pelas quais as mulheres deixam a Engenharia. Entrevistando várias mulheres, os autores descobriram três grandes motivos: remuneração baixa/injusta, más condições de trabalho e ambiente de trabalho hostil; insatisfação com o uso de suas habilidades em matemática e ciências e, por último, falta de reconhecimento e de oportunidades no trabalho.

Em 2016, algumas estatísticas dos Estados Unidos indicavam que apenas 13% da força de trabalho no país era composta por mulheres. Ainda, 20% dos graduados em engenharia são mulheres, mas 40% abandonam a carreira ou nem mesmo chegam a exercer a profissão. Isso sem falar na quantidade de mulheres que abandonam a própria graduação. Afinal, situações constrangedoras na sala de aula – composta por uma maioria de homens – são frustrantes.

É inacreditável ver também professores que incentivam a pressão exercida sobre as mulheres. Infelizmente, há muitos que não aceitam a presença de mulheres nas turmas de Engenharia (o que é um absurdo enorme). Durante a graduação, que visa formar profissionais, é preciso ressaltar que o reconhecimento deve ser feito de forma independente do gênero.

Uma mulher não quer (e não precisa) de um homem abrindo portas para ela (no sentido literal e figurado). Ela é muito capaz de abrir suas próprias portas. No entanto, para isso, é preciso que a primeira delas, chamada igualdade, esteja aberta. É preciso mudar essa cultura na qual as mulheres não são levadas a sério e preciso repensar toda a nossa postura como sociedade para reduzir a evasão das mulheres da carreira.

Fonte Engenharia 360

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